Lula mira jovens, e campanha prevê destaque a Janja - 14/08/2026 - Política - Folha
Frequentemente comparando-se na busca pelo quarto mandato a um Pelé da Copa de 1970, o presidente Lula (PT) deve recontar sua biografia e ratificar compromissos históricos na largada da corrida presidencial, neste domingo (16), em São Bernardo do Campo, no ABC paulista.
Sob o lema "O Brasil pronto para mais", o presidente iniciará, aos 80 anos, a última campanha eleitoral de sua carreira política com discursos sobre soberania nacional e a tentativa de apresentar seu lado rebelde ao eleitorado jovem.
O presidente e seus aliados querem comunicar que receberam o governo em situação de terra arrasada depois da gestão Bolsonaro, que reorganizaram o Executivo e que, com Lula reeleito, o país poderá ter um avanço mais substancial.
O ato também terá discurso da primeira-dama, Janja Lula da Silva, semanas depois de o petista manifestar incômodo com a falta de falas de mulheres na convenção de seu partido. Na ocasião, só homens haviam sido escolhidos para discursar e, em uma quebra de protocolo, ele pediu que Janja também falasse.
Palco de manifestação histórica durante a ditadura militar, o estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, foi estrategicamente escolhido para o lançamento. A ideia, segundo aliados, é mostrar que, 47 anos depois de liderar a paralisação, Lula continua a lutar pelo trabalhador.
Ainda segundo aliados, a intenção é mostrar que, de lá para cá, o cenário mudou, mas que ainda há espaço para melhorias. Falando que o Brasil está pronto para avanços, a marca da campanha tenta apontar para o futuro. A tentativa é dar uma demonstração de força e credibilidade para conduzir o país por mais quatro anos.
Petistas aguardam entre 20 mil e 30 mil pessoas, e organizaram caravanas de outros estados para reduzir a chance de o estádio não lotar.
O local tem grande significado político para Lula porque nesse estádio, há quase 50 anos, ele ascendeu ao cenário político nacional ao comandar greve de metalúrgicos. As imagens serão usadas na propaganda eleitoral.
A ideia da equipe de campanha de Lula é que o evento não se alongue demais, como aconteceu na convenção do PT. Naquele dia, no início de agosto, o presidente discursou por mais de uma hora. Parte da plateia foi embora enquanto ele ainda falava.
Lula selecionou nove tópicos principais para seu discurso. Um deles será a defesa do país. O chefe do governo elegeu a soberania como um dos principais temas de sua campanha, com o tarifaço e as tentativas de interferência americana na política brasileira. Petistas avaliam que essa é uma forma de causar desgaste ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e principal adversário de Lula na campanha deste ano, pela proximidade da família com Donald Trump.
O discurso focará em parte o público jovem. Recentemente, sua equipe de campanha teve acesso a uma pesquisa qualitativa que constatou que essa fatia do eleitorado vê o hoje presidente como um político tradicional, parte do que ficou convencionado de se chamar de "sistema".
O petista quer contar ao eleitorado o que fazia antes de se tornar presidente da República pela primeira vez, em 2003. O plano é mostrar a imagem de rebeldia e antissistema que Lula carregou no início de sua carreira, como sindicalista e nos primeiros anos do PT.
Em paralelo, quer reforçar uma imagem de defensor dos trabalhadores, dizendo estar do mesmo lado da política há 50 anos.
O presidente também deverá dedicar uma parte de seu discurso aos idosos. O eleitorado cresce ininterruptamente desde as eleições presidenciais de 2010. A campanha petista avalia que tem bom trânsito nesse meio, mas que a população com mais de 60 anos precisa de motivos fortes para sair de casa e votar, uma vez que pode ter problemas inclusive de mobilidade.
Grandes temas sociais, como os serviços de saúde e educação, serão abordados. O tom deverá ser o de que seus governos fizeram muito por essas áreas, mas que ainda há muito o que melhorar.
O candidato quer imprimir grande carga emocional no ato. Imagens de arquivo deverão ser mostradas no telão. Sua equipe de campanha tentará reeditar as fotos que foram feitas nas greves presididas por Lula no mesmo estádio décadas atrás.
Apesar de toda a preparação, petistas não descartam a hipótese de Lula abandonar o discurso preparado e falar de improviso, como já fez no discurso da convenção petista e em incontáveis outros.
Janja também deverá discursar, contrariando a expectativa de alguns setores petistas de que ela tivesse um papel mais discreto na campanha deste ano do que teve em 2022. A primeira-dama tem sido uma espécie de porta-voz do presidente em assuntos como combate à violência contra a mulher. Além disso, ela tem influência sobre a área de cultura.
Além de Janja, também deverão discursar o vice-presidente Geraldo Alckmin e o candidato petista ao governo de São Paulo, Fernando Haddad. Esta será a sétima campanha presidencial de Lula. Ele foi candidato e perdeu em 1989, 1994 e 1998. Depois, ganhou em 2002, 2006 e 2022. Em 2018, o petista chegou a registrar candidatura, mas foi barrado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) porque estava preso, e não fez campanha.
As pesquisas eleitorais apontam para uma eleição dura. Levantamento da Quaest divulgado na sexta-feira (14) mostra Lula e Flávio tecnicamente empatados nas intenções de voto para o segundo turno. O petista aparece com 43% contra 40% do bolsonarista, diferença dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.