Mais de 300 cartas de amor da II Guerra Mundial apareceram misteriosamente numa caixa. Quem era o soldado que as escreveu?
A caixa apareceu sem aviso. Era 2022 quando alguém deixou num escritório da United Service Organizations (USO), em Nova Iorque, uma simples caixa de cartão. Ninguém sabia quem a tinha entregado nem de onde vinha. Lá dentro estavam mais de 300 cartas.
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Tinham sido escritas cerca de 80 anos antes por um jovem soldado chamado Louis Weber, conhecido por todos como “Speedy”, e eram quase todas dirigidas à mesma mulher: Frances, a esposa que tinha deixado em Nova Iorque quando partiu para a II Guerra Mundial.
Havia cartas enviadas de Inglaterra, França, Bélgica, Alemanha, Checoslováquia, Sicília e Norte de África. Declarações de amor, saudades, piadas, preocupações, descrições da guerra e planos para uma vida que os dois esperavam retomar quando tudo terminasse.
Mas havia um problema. Ninguém sabia quem tinham sido realmente Speedy e Frances. Nem o que lhes acontecera depois da guerra. Começou então uma investigação que demoraria anos.
“Se parasse para pensar em casa, enlouquecia”
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Quando escreveu algumas das primeiras cartas, Speedy tinha 23 anos e estava casado há apenas cerca de um ano.
Tinha entrado no Exército poucas semanas antes e ainda estava a habituar-se à nova vida: acordar de madrugada, cumprir serviço na cozinha até ao pôr do sol e usar o cabelo cortado de acordo com as regras militares.
A 17 de junho de 1942, escreveu a Frances que se sentia menos triste do que no dia anterior. Os dias eram tão ocupados que mal tinha tempo para pensar na vida que deixara para trás. Talvez fosse melhor assim, admitia: se parasse para pensar em casa, “enlouquecia”.
A entrada dos Estados Unidos na II Guerra Mundial era ainda recente. Speedy não sabia quanto tempo ficaria longe da mulher. A resposta acabaria por ser: anos. E encontrou nas cartas uma maneira de continuar perto dela.
Uma carta a cada três ou quatro dias
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Speedy escrevia constantemente.
Considerando apenas as cartas que sobreviveram, enviou em média cerca de 100 por ano — aproximadamente uma a cada três ou quatro dias.
Na altura, essa frequência não era tão extraordinária como hoje pode parecer. O correio era uma das principais ligações entre os militares enviados para a guerra e as famílias que tinham ficado em casa.
Mas havia algo na maneira de Speedy escrever que chamou imediatamente a atenção de Michael Case, historiador e arquivista da USO que recebeu a coleção.
Não era um general. Não era famoso. Não ocupava qualquer lugar especial nos livros de História. Era, nas palavras de Case, “um homem comum” que fazia o seu trabalho, amava, mostrava emoções e, ocasionalmente, fazia asneiras.
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E escrevia muito bem.
Case descreve o estilo como uma espécie de elegância quotidiana: linguagem simples, mas capaz de captar com precisão aquilo que sentia.
Speedy intitulava algumas cartas apenas com o lugar possível de revelar: “algures em Inglaterra”, “algures em França”, “algures no Luxemburgo”. E repetia frequentemente a mesma despedida: “Estás sempre no meu coração.”
“Embrulha-te num pacote e marca-o como frágil”
Mesmo antes de atravessar o Atlântico, Speedy encontrava formas de transformar a distância numa brincadeira entre os dois. Em outubro de 1942, Frances perguntou-lhe por carta se havia alguma coisa que ele quisesse e não conseguisse encontrar onde estava.
Havia. Ela.
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Speedy respondeu que Frances poderia embrulhar-se num pacote, escrever “frágil” no exterior e enviar-se pelo correio.
Também tinha uma coleção aparentemente inesgotável de alcunhas para a mulher. Chamava-lhe “Darling”, “Legs”, “Knucklehead”, “Shape”, “Meatball” e, simplesmente, “a rapariga de quem mais gosto”.
Mas as cartas mudavam à medida que a guerra avançava. Em fevereiro de 1944, começou uma delas a imaginar a segunda lua de mel que fariam quando regressasse. Iriam para um resort e passariam alguns dos melhores dias das suas vidas. Poucas linhas depois, o tom já era outro. Até a guerra terminar, escreveu, os dois estavam apenas a “existir, não a viver”.
“O maior espetáculo do mundo”
Pouco depois do Dia D, Speedy atravessou o Canal da Mancha em direção a França. A 14 de junho de 1944 escreveu a Frances sobre aquilo que vira durante a travessia. Chamou-lhe o momento em que “a cortina se levantou para o maior espetáculo do mundo”.
À sua volta havia navios até onde a vista alcançava. Quando olhava para cima, escreveu, quase não conseguia ver o Sol devido à quantidade de aviões no céu. Disse que nunca esqueceria aquela imagem.
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Mas são frequentemente os pequenos pensamentos, e não as grandes descrições da guerra, que tornam as cartas invulgares. Numa delas, Speedy refletiu sobre o papel dos capelães militares. Quando um soldado tinha problemas, podia procurar o capelão, contar-lhe tudo e chorar.
Speedy ficou com uma dúvida. A quem contava o capelão os seus próprios problemas? Pediu a Frances que, caso soubesse a resposta, o esclarecesse rapidamente.
Nem a despromoção lhe tirou o humor
Speedy também se meteu em sarilhos. No início de 1945, contou à mulher que tinha sido despromovido de soldado de primeira classe para soldado. Frances certamente quereria saber porquê, escreveu. Ele também. Tinha-lhe sido dada uma explicação, admitia, mas considerava-a bastante fraca.
Ainda assim, Frances não precisava de ficar preocupada com a possibilidade de ele continuar a descer na hierarquia. Já não havia patente abaixo daquela.
Entre piadas como esta apareciam sinais do efeito dos anos de guerra.
Numa fotografia enviada pela irmã, Speedy reparou que a mãe parecia muito mais velha e preocupada. Ficou impressionado com a transformação provocada por apenas dois anos.
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Ele próprio tinha apenas 26 anos, mas sentia-se — e achava que parecia — mais velho.
E começou a perguntar-se como estaria Frances.
Depois da guerra, ninguém sabia o que lhes acontecera
Quando a caixa chegou à USO oito décadas mais tarde, as cartas contavam detalhadamente aqueles anos. Depois, a história praticamente desaparecia.
Case queria descobrir quem eram aquelas duas pessoas cuja correspondência passara tanto tempo a ler. A organização começou a procurar familiares vivos.
Em 2024, pediu ajuda ao ‘Washington Post’. A investigação conseguiu descobrir que Speedy e Frances tinham vivido perto um do outro em Nova Iorque antes da guerra. Mas a publicação da história não trouxe qualquer familiar.
Em 2026, a USO digitalizou parte da coleção e voltou a pedir ajuda ao público. Até o ator Andrew Scott, protagonista do filme sobre a II Guerra Mundial “Pressure”, participou na iniciativa, lendo excertos de uma carta escrita por Speedy pouco depois do Dia D.
Mais uma vez, ninguém apareceu.
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Até que a história chegou a um genealogista amador.
Um homem na Califórnia encontrou um nome
Matthew Brown começou a investigar. Passou horas a pesquisar registos genealógicos até encontrar alguém que poderia ter uma ligação a Speedy: Arthur Serota.
O nome chegou ao jornalista Joe Heim, do ‘Washington Post’, que conseguiu localizar Serota em Los Angeles. Tinha 84 anos.
E quando lhe perguntaram por Louis “Speedy” Weber, não precisou de consultar arquivo nenhum. Era o seu tio. Mais do que isso: tinha sido o seu tio preferido.
Serota nascera em 1942, precisamente no ano em que Speedy partira para a guerra. Quando o soldado finalmente regressou, Arthur era ainda criança.
A chegada do tio a casa tornou-se uma das suas primeiras memórias.
Finalmente, Speedy deixou de ser apenas uma assinatura
Serota não fazia ideia de que as centenas de cartas existiam. Mas lembrava-se perfeitamente do homem que as escrevera.
Descreveu-o como generoso, alguém de quem emanava uma “calidez natural”. Também se lembrava de Frances, que considerava elegante e particularmente inteligente. Outra familiar, Karen Weber Figilis, guardava memórias diferentes: o casal a beber cocktails e a ouvir Frank Sinatra durante encontros de família. Frances usava saias lápis e tinha uma voz rouca.
E Karen tinha algo que Michael Case procurava havia anos. Fotografias. Numa delas, Speedy e Frances apareciam juntos e sorridentes. Noutra, o antigo soldado estava sozinho, vestido com um casaco branco.
Até então, o arquivista que tinha lido centenas dos seus pensamentos nunca sequer vira o rosto do homem que os escrevera. Agora podia finalmente associar uma cara à assinatura.
Speedy nunca contou a guerra à família
As descobertas também revelaram uma ironia. A família conhecia Speedy, mas desconhecia grande parte da história que estava dentro da caixa.
Segundo o sobrinho, o tio simplesmente não falava sobre a guerra. As mais de 300 cartas guardavam aquilo que ele nunca contou.
Depois de regressar aos Estados Unidos, Speedy tornou-se motorista de camião. Frances trabalhou como responsável nos correios.
Não tiveram filhos.
Continuaram juntos durante o resto da vida e acabaram por se mudar para a Florida. Speedy morreu aos 78 anos e Frances aos 87.
Estão enterrados lado a lado.
Ainda há um mistério dentro da caixa
Nem a descoberta da família conseguiu responder a todas as perguntas.
Das centenas de cartas preservadas, apenas duas foram escritas por Frances. A correspondência de Speedy mostra que a mulher lhe escrevia regularmente, mas quase todas essas cartas desapareceram — algo compreensível para um soldado que atravessava países durante uma guerra enquanto ela podia guardar em casa aquilo que recebia.
Há ainda outro pormenor estranho: algumas das cartas de Speedy parecem ter ficado por abrir. E permanece a pergunta que começou toda esta investigação. Ninguém sabe quem levou a caixa ao escritório da USO em Nova Iorque em 2022.
Michael Case admite uma possibilidade: alguém poderá tê-la encontrado enquanto esvaziava uma casa depois da morte do proprietário e, ao reparar que algumas cartas tinham papel timbrado da USO, decidiu entregá-las à organização. Mas é apenas uma hipótese. O nome de quem guardou aquelas centenas de cartas durante décadas — e de quem finalmente decidiu entregá-las — continua por descobrir.