Margarida Campelo: uma musa no topo

🗓️ 2026-09-11 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Música de elevador é um daqueles termos que faz muita gente fugir a sete pés. Margarida Campelo não é uma dessas pessoas. De tal forma que, quando leu um comentário jocoso sobre a canção que levou ao Festival da Canção em 2025 (Eu sei que o amor), classificando-a de “música de elevador”, ela simplesmente sorriu e e deixou a frase a marinar no termo.

Dessa reflexão nasceu um álbum novo, já a rodar nas plataformas, que será apresentado com pompa e circunstância no dia 16 de outubro, no CCB, em Lisboa. Música de Elevador é, assim, o segundo trabalho a solo de Margarida Campelo, que se estreou em 2023 com Supermarket Joy, outra escolha nada inocente de palavras e de cenário para arrumar um conjunto de canções.

Sendo Margarida uma confessa apaixonada pelos anos 80, com tudo de glorioso e de piroso que essa década nos deu, o seu trabalho respira ao som do yacht rock de Michael McDonald, do smooth jazz banhado a R&B de Sade, dos teclados de Stevie Wonder e de Whitney Houston, diva maior do que qualquer género. Respira também com uma permanente de Cher, os cintos glam de correntes douradas que a própria enverga na capa e com Pretty Woman (1990), filme para o qual fomos levados vezes sem conta enquanto ouvíamos o disco.

Um cheirinho a piano-bar e a crush de adolescente

Tal como no seu antecessor, em Música de Elevador os instrumentais são um elemento central na narrativa. Logo a abrir temos Escadas Fora de Serviço, uma progressão descendente de acordes no teclado que nos encaminha para o rés-do-chão de um hotel imaginário, com piano-bar e uma carta de cocktails na qual constam os clássicos Kir Royal, Long Island Ice Tea e Vesper Martini, não vá James Bond aparecer.

Mais adiante, é-nos servida a psicadélica Dança de Corredor — estariam Os Jetsons a passar na televisão do quarto? — e também Outro Beijo, tema que adensa o romance entre Vivian e Edward, o casal protagonizado por Julia Roberts e Richard Gere. Já Maggie II, com um coro feminino a brincar aos vocalizos, traz o Hot Clube para o disco, casa onde Margarida Campelo estudou canto jazz e onde atualmente dá aulas.

Há também muita cultura pop no habitat da artista de 38 anos, que em 2024 teve a brilhante ideia de nos oferecer uma versão disco de Mexe-te Mais um Pouco, de Ágata, e que neste álbum deixa, de forma sorrateira, a sugestão de Everybody (Backstreet’s Back) (1997), dos Backstreet Boys, no final de Dança de Corredor. Um crush de adolescente é sempre bem-vindo, como o é aquele açúcar de jingle que se gruda na memória, ou não fosse Margarida filha de Isabel Campelo, voz de temas publicitários que ainda hoje sabemos entoar de cor: Vitinho, Calgon, Mocambo e Leopoldina, bem-vindos ao mundo encantado de Margarida Campelo.

Bibidi-Bobidi-Bu, tudo o que é cliché cabe neste elevador

Talvez tenha sido essa fantasia de infância que a tenha ajudado a encontrar o equilíbrio entre a seriedade e a brincadeira no seu processo de composição — isso e as colaborações que foi colecionando com nomes da música nacional tão relevantes quanto feitos de leveza, como são os casos de Bruno Pernadas, Cassete Pirata, Minta & the Brook Trout, Julie & the Carjackers, Real Combo Lisbonense ou Joana Espadinha.

Nesse sentido e muito naturalmente, as 12 canções de Música de Elevador tanto poderiam ser dissecadas num conservatória desta vida, como balbuciadas por uma criança de cinco anos, para quem as frases e os ditongos são magia feita com sons. Isso é muito libertador para quem escuta, mas também para quem cria.

Veja-se a forma como Campelo — coadjuvada por Beatriz Pessoa e Ana Cláudia — encara a escrita. Em Turuturundu, canta: “Caminho sem palavras, sem regras / Desligo do sentido, deixo-me ir / Escrevo sempre torto e estou certa / Turuturu dndu, que bom é cantar assim”. A sonoridade das letras, mais do que o seu significado, guia-a no momento de dar corda aos versos, resultando num exercício que não raras vezes desemboca na toca do coelho da Alice, onde tudo é mágico e não existem impossíveis.

Se a música lhe pede uma língua estrangeira, Margarida Campelo saca do inglês (e até do francês) e faz um bolo mármore idiomático com as suas melodias. Cluedo, canção-jogo-trama, reza assim: “Miss Scarlett, ma suspecte préférée / You foxy girl, manchou o punhal, suspeita principal / Dó li tá / I can help myself / Mendoá, cara de papel / Um dó li tá / I can’t help myself / Maggie vá lá, culpa o coronel / Bibidibop!”. Apetece acrescentar “Sagaladula, Mexicabula, Bibidi-Bobidi-Bu” e temos o tema da fada madrinha da Cinderela (1950).

O universo Disney, a cadência de Walk on The Wild Side (1972), de Lou Reed, em Valsa do Último Andar, ou a lembrança de Sempre Que O Amor Me Quiser (1984), de Lena d’Água, em Um Só Final, convivem neste elevador fatale conduzido por Margarida Campelo, onde não são poupadas as linhas do baixo, nem o saxofone alto, que consegue ser meloso, tão bom; muito menos os efeitos especiais na voz, como o reverb de Beijo de Cabeça. Em suma e como a própria canta, tudo o que é cliché teve de entrar nestas canções, mas é preciso arte e bom gosto para o fazer desta maneira. No caso de nos termos esquecido de alguma coisa, fica no ar a deixa de Julia Roberts: “I had a really good time tonight”.