Maria ainda junta a vida que a água levou três anos depois das cheias em Maputo
"Acordei, vi que a água entrou dentro, entrou mesmo dentro, não deu chance. Só acordei, desliguei o contador, comecei a carregar as coisas", conta à Lusa Maria Sambo, à sombra da estrutura de lona erguida na parcela de terreno que recebeu em Nsime, na localidade da Katembe, a cerca de sete quilómetros do centro da cidade de Maputo.
Dali observa o vaivém dos vizinhos num bairro improvisado que se tornou refúgio para cerca de 100 famílias deslocadas pelas cheias de 2023, oriundas de Magoanine A, Magoanine C e Hulene B, bairros onde a água destruiu em questão de horas casas, bens e histórias de resiliência e superação.
Maria Sambo ainda fala das cheias como quem tenta pôr ordem em memórias que o tempo não conseguiu apaziguar. Antes de a água invadir a casa onde vivia, em Magoanine A, nos arredores de Maputo, na madrugada de 17 de março de 2023, sustentava sozinha seis filhos com a venda de frutas, numa rotina construída ao longo de anos e desfeita em poucas horas.
Lembra com tristeza que a fuga foi apressada e a prioridade deixou de ser salvar bens e passou a ser encontrar um lugar seguro para os filhos. Para trás ficaram a casa, os móveis e a banca de frutas que garantia o sustento da família.
"Eu vendia frutas, tudo que era fruta", conta Maria, lamentando ter perdido a mercadoria que sustentava os seis filhos enquanto procurava um lugar seguro para a família "durante aquele sofrimento".
O lugar seguro que procurava chegou dias depois sob a forma de um centro de acolhimento criado para receber dezenas de famílias afetadas pelas intempéries. Pensado como resposta de emergência, o espaço acabaria por ser a casa de Maria durante três anos, numa convivência forçada com outras famílias que, tal como a sua, tinham perdido quase tudo para a água.
"Viver de vida do centro é muito difícil (...), aguentámos, porque a pessoa que não aguenta é porque tem outro sítio onde pode ir", conta, baixando o olhar ao recordar os três anos passados no centro de acolhimento, marcados pela falta de privacidade, pelas discussões constantes e pela incerteza sobre o futuro.
A permanência prolongada acabou por alterar também a dinâmica familiar. Dos seis filhos que criou praticamente sozinha, três já não vivem consigo e hoje partilha com três filhos e uma neta um abrigo de lona erguido na parcela atribuída em Nsime, um espaço modesto, mas que lhe devolveu algo que diz ter perdido durante os anos no centro: a privacidade.
"Estou na minha casa, com a minha família. Não tenho barulho com ninguém", resume, sem esconder no semblante a esperança de voltar a reunir os filhos que a tragédia das cheias separou.
A história de Maria repete-se em dezenas de parcelas espalhadas por Nsime e reflete uma realidade comum a milhares de moçambicanos. Com a aproximação da época chuvosa, que decorre geralmente entre outubro e abril em Moçambique, voltam também as preocupações de comunidades que carregam ainda as marcas de cheias, tempestades e outros fenómenos extremos.
Considerado um dos países mais vulneráveis do mundo aos impactos das alterações climáticas, Moçambique enfrenta ciclicamente desastres que destroem habitações, meios de subsistência e obrigam famílias inteiras a recomeçar. Em Nsime, muitas dessas memórias continuam bem vivas.
A poucos metros dali, Isabel Macano, 43 anos, guarda memórias semelhantes da madrugada em que acordou com água dentro de casa e sem tempo para salvar os seus bens.
"Nem consegui tirar nada, porque logo ao levantar da cama vi que não tem como levar as coisas. Fiquei com tanto medo porque não sabia onde ir", recorda a mulher, que vivia com o filho numa casa própria de quatro cómodos em Magoanine A.
Sem familiares próximos na capital moçambicana, acabou igualmente encaminhada para um centro de acolhimento, onde permaneceu durante três anos até à transferência para Nsime.
"No centro não era tão fácil a vida, porque nos andava sempre a pedir lenhas nas casas. Cozinhavam numa panela de 50 quilos para tudo", conta, admitindo que a mudança para a Katembe representou um recomeço para a família.
"Assim que estou aqui na minha casa, eu me sinto à vontade", afirma, apesar das preocupações que persistem com as estruturas provisórias onde vivem, contando que, quando venta, não se dorme: "você sente essa tenda, parece um balão".
Em contraste com os relatos de perdas e deslocação, as crianças ocupam os espaços abertos de Nsime com brincadeiras improvisadas. Entre pneus transformados em baloiços e terrenos ainda marcados pela construção precária das habitações, ajudam a devolver algum movimento e normalidade a uma comunidade que procura recomeçar.
Mais adiante, grupos de jovens juntam-se à sombra de alpendres precários e pontos de encontro comunitários, onde passam horas em conversas, reuniões informais e discussões sobre os desafios e o futuro de uma comunidade que tenta criar raízes depois de anos de deslocação.
Entre os moradores mais jovens está Edson Macia, 24 anos, que admite ter resistido a abandonar a casa da família quando as águas começaram a subir no mesmo bairro.
"Eu, com aquela resistência, disse: não, vou continuar aqui, porque perder a casa, na verdade, dói", diz, admitindo que a decisão durou pouco: "Eu vi água entrar no quarto e eu já não vi outra opção".
A família perdeu grande parte dos bens e passou igualmente por um centro de acolhimento que descreve como "caótico", devido à convivência forçada entre dezenas de agregados afetados pelas cheias.
Hoje, encara Nsime como "um novo início", mas aponta o acesso à água e à energia elétrica como as principais necessidades da comunidade: "De extrema urgência, eu acho que o que falta aqui é água e energia".
Segundo Tânia Sengo, chefe da repartição de resiliência às mudanças climáticas do Município de Maputo, cerca de 100 famílias provenientes dos três bairros vivem atualmente em Nsime, depois de terem passado por centros de acomodação criados na sequência das cheias de 2023.
"O primeiro grande feito foi devolver a estrutura de família, a segurança e a qualidade de vida", afirma a responsável, apontando como desafios a expansão da rede de energia, a melhoria dos transportes e a construção de habitações mais resistentes.
Enquanto aguardam por essas melhorias, os moradores vão transformando as parcelas atribuídas em pequenos campos de cultivo, negócios e novos lares, numa comunidade erguida por famílias que perderam quase tudo para a água e que agora tentam devolver algum sentido à palavra recomeço.