Máscaras na cara e bastões de basebol: patrulhas de moradores espalham medo e violência contra migrantes que ficaram em Ceuta

🗓️ 2026-08-06 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Além das ações nos bairros, as patrulhas organizam-se através de grupos de WhatsApp para localizar imigrantes escondidos em montes e zonas costeiras durante a noite

O surgimento de patrulhas de moradores em vários bairros de Ceuta está a aumentar a tensão na cidade e a motivar episódios de violência contra imigrantes. Em zonas como Postigo, Los Rosales e Benítez, grupos de residentes têm bloqueado acessos com viaturas ou barreiras e organizado vigilâncias permanentes para impedir a entrada de estrangeiros.

Apesar de a maioria das cerca de 72 mil pessoas que atravessaram a fronteira do Tarajal a 30 de julho já ter abandonado a cidade, estima-se, segundo o El País, que ainda permaneçam entre duas e seis mil, escondidas em áreas periféricas e a procurar água, comida e abrigo.

Um dos casos ocorreu no sábado, quando Sandra López, dirigente do PSOE de Ceuta, encontrou um jovem imigrante chamado Adil, de cerca de 25 anos, que lhe pediu indicações para chegar ao bairro de Benzú. O homem recusou atravessar a zona de Postigo por receio de voltar a ser agredido e mostrou-lhe ferimentos e cortes no corpo, alegando ter sido atacado naquele bairro.

Segundo o relato, rejeitou apresentar queixa às autoridades por recear ser detido e expulso de Ceuta. Pouco depois, Sandra López observou vários moradores a controlar a entrada de Postigo, incluindo um homem com um bastão de basebol, que abordou um grupo de imigrantes e lhes ordenou que abandonassem o local.

Além das ações nos bairros, as patrulhas organizam-se através de grupos de WhatsApp para localizar imigrantes escondidos em montes e zonas costeiras durante a noite. Nas mensagens, os participantes trocam fotografias, coordenam deslocações e apelam à utilização de máscaras ou ao ocultamento de tatuagens para evitar identificação.

Num dos grupos de WhatsApp utilizados para coordenar estas patrulhas, foi partilhada uma mensagem atribuída a um militar. No texto, o alegado autor afirma que os militares estão a realizar patrulhas na zona do Monte Hacho, mas garante que "não nos deixam fazer nada", acrescentando que evita participar diretamente na conversa para não ter problemas por divulgar informações.

A publicação foi interpretada por outro membro do grupo como uma prova de que os moradores teriam de agir por conta própria. "Vêem como temos de nos organizar? Eles [os militares] estão de mãos atadas."

Noutras mensagens trocadas durante uma das rondas noturnas, um dos participantes alerta que estão a ver "baratas entre as pedras", numa aparente referência aos imigrantes escondidos. Antes de avançarem, os elementos considerados mais experientes aconselham os restantes a não gravarem qualquer ação, para evitar que "depois saia que somos muito maus e estamos a defender o que é nosso". 

Em determinada operação, a intervenção acabou por ser interrompida depois de moradores alertarem a polícia para a presença de civis encapuzados e alegadamente armados, levando as autoridades a advertir os participantes para a possibilidade de sanções.

O partido Vox foi a única força política a defender publicamente o direito dos moradores à autodefesa, considerando legítimo que protejam as suas famílias "com um pau ou com o que tiverem à mão". Ainda assim, elementos ligados ao grupo neonazi Núcleo Nacional, bem como os ativistas Alvise Pérez e Vito Quiles, acabaram afastados da cidade pela polícia ou pelos próprios manifestantes.

A sociedade local, onde mais de 40% da população é muçulmana, tem rejeitado maioritariamente a presença de grupos da extrema-direita e procurado evitar que a tensão em torno da imigração se transforme num conflito de natureza religiosa.