Master repassou R$ 28 milhões a secretário após ser autorizado a operar cartão consignado

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Demétrio Vecchioli

Banco emprestou dinheiro a secretário de Mata de São João, parceiro que ajudou a levar o Credcesta para dentro do Master

21/07/2026 02:00

Arte Metrópoles
Master repassou R$ 28 milhões a secretário após ser autorizado a operar cartão consignado

O Banco Master registrou ter emprestado R$ 28 milhões a empresas de Joel Feldman após a cidade baiana de Mata de São João, que tinha ele como secretário de Desenvolvimento, credenciar o Master para operar um cartão de crédito exclusivo para servidores municipais, com desconto na folha de pagamentos. Um dos empréstimos, de R$ 19 milhões, foi formalizado 27 dias após a assinatura do termo de credenciamento.

Feldman é figura central na história do Banco Master, porque intermediou a chegada ao banco do Credcesta, motor do crescimento do Master, em parceria com Augusto Lima. Na dobradinha, Feldman ficou com a rede de supermercados Cesta do Povo, que era o objeto do leilão promovido pelo governo da Bahia, e Lima com o produto bancário, a cereja do bolo.

Procurado pela coluna, Feldman disse que os empréstimos foram dentro de padrões do mercado, para financiar a aquisição de nove lojas no Estado e, depois, para rolar a dívida. “Não há qualquer relação entre as operações feitas com a varejista e minha atuação como secretário em Mata de São João”, alegou.

Relação começou com Credcesta

Augusto Lima nunca apareceu formalmente na transação que levou o Credcesta ao Master, mas suas digitais são amplamente conhecidas e foram admitidas por Feldman. “Eu era presidente da associação de supermercados. Nós não nos conhecíamos, ele não entendia nada de varejo, tinha um interesse no Credicesta, eu já tinha supermercados”, explicou.

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No papel, quem arrematou em 2018 o Cesta do Povo – uma rede estatal de supermercados então com 49 lojas – foi a NGV Empreendimentos e Participações, empresa de prateleira fundada um ano antes com capital social de R$ 500, elevado para R$ 1 milhão pouco antes do leilão.

A NGV tinha dois sócios (no papel). Um deles, o espanhol Ignacio Morales, anunciado como o sócio capitalista do negócio. O outro era Joel Feldman, então presidente da Associação Bahiana de Supermercados (ABASE) e dono de uma pequena rede com lojas no litoral baiano e na região do Recôncavo. Na época, Feldman era secretário de Mata de São João, cidade de forte contraste entre o litoral rico, voltado a público VIP (lá fica a Costa do Sauípe) e a sede pobre.

Após dois leilões terminarem sem interessados, a gestão do então governador Rui Costa (PT), a partir do secretário de Desenvolvimento Econômico Jaques Wagner (PT), realizou alterações para o terceiro leilão: baixou o preço mínimo de R$ 80 milhões para R$ 15 milhões e deixou todo o passivo, estimado entre R$ 300 milhões e R$ 400 milhões, com o estado.

A 16 dias do certame, publicou decreto autorizando o arrematante a “modificar, ampliar, aperfeiçoar ou, por quaisquer mecanismos viáveis e juridicamente legítimos, diversificar as funcionalidades do cartão”.

Tão logo venceu o leilão como único concorrente, a NGV firmou contrato para ceder os direitos de Credicesta para uma empresa chamada PKL, que por sua vez foi comprada pelo Banco Máxima (que depois viraria Banco Master). Já a gestão Rui Costa baixou decreto para conceder exclusividade à NGV para oferecer o cartão ao funcionalismo do estado, nos três poderes, por 15 anos, sem concorrentes, limite de até 45% de comprometimento de renda e juros abusivos.

Na prática, foi a empresa até hoje administrada por Feldman, portanto, quem deu acesso à instituição bancária de Daniel Vorcaro àquela que viraria a joia da coroa: o Credcesta (já renomeado, sem o “i”).

Mata de São João cria cartão para o Master

Feldman, que havia deixado o cargo que tinha em Mata de São João para ser CEO do Cesta do Povo, voltou ao cargo em janeiro de 2021, nomeado pelo prefeito João Gualberto (PSDB), ex-deputado federal do grupo político de ACM Neto e político mais influente da região.

Ainda na segunda semana de gestão, Feldman anunciou a criação do “Cartão do Servidor”, a ser operado pelo Banco Máxima e tratado como uma inovação criada em Mata de São João: um cartão de crédito e de empréstimo consignados, que só poderia ser utilizado nos estabelecimentos comerciais do município, com permissão para comprometer 30% da renda dos aposentados e servidores.

A operação, porém, só foi autorizada pela Câmara Municipal em março. A legislação foi promulgada em 31 de março e, cinco dias depois, foi publicado decreto para credenciar instituições bancárias.

Em 13 de agosto, o Master foi formalmente credenciado. Em 10 de setembro, o banco emprestou R$ 19 milhões, redondos, para a Quality Supermercados, que tem Joel Feldman como sócio-administrador. A transação foi listada pelo liquidante do Master em documento anexado a um processo judicial.

Outro empréstimo, de R$ 9,6 milhões, foi concedido em 25 de novembro de 2022 a outra empresa de Feldman, a Kasim Empreendimentos, que havia sido criada pouco antes, em julho. Em setembro, um decreto do prefeito João Gualberto havia ampliado de 72 para 120 meses o número máximo de parcelas que poderiam ser cobradas dos servidores de Mata de São João.

Como o serviço funciona como cartão de crédito, com pagamento mínimo da fatura em folha e juros sobre o saldo devedor, quanto mais longo fosse o contrato, também por mais tempo o Master conseguiria fazer seus descontos contínuos e abusivos na folha de um servidor, até um limite de 10 anos – antes eram seis. “Eu desconheço esse decreto, ele não tem qualquer relação com o empréstimo concedido à minha empresa”, rebate Feldman.

Vasconcelos renunciou ao cargo em 2023, depois de dois anos de mandato, em benefício do vice, Bira da Barraca (União), que se reelegeu em 2024. No final do ano passado, após a liquidação do Master, a prefeitura resolveu descredenciar o banco. Entre os motivos alegados está uma determinação para que o Master instalasse um representante bancário na cidade, para resolver queixas dos servidores, que não conseguiam quitar a dívida. A agência foi criada e passou a servir como ponto de venda de mais crédito consignado.

A Cesta do Povo continua operada por Feldman, que, desde 2022, passou a ter um veículo de Augusto Lima como financiador. A rede tem, atualmente, 35 lojas, sendo 24 próprias e 11 operadas por terceiros.