Visão | Maya, o “Trombinhas” e a profecia que o Tarot não adivinhou

🗓️ 2026-09-07 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Juridicamente, portanto, não há aqui julgamento nenhum. Comicidade, porém, há bastante. Porque passar décadas a deitar cartas para descobrir o futuro dos outros e não ver aproximar-se um mamífero de cinco toneladas é, convenhamos, uma falha técnica considerável. Alguma coisa devia ter aparecido no baralho. Uma tromba, uma presa, um vulto branco. Um aviso. Qualquer coisa

Cartas, bifes, companhia e o velho prazer de comentar a vida dos outros. Maya passou meia vida a prever o futuro dos outros. O problema é que, desta vez, parece não ter visto aproximar-se uma tromba.

Na Índia, o elefante branco é sagrado. No Ocidente, é uma coisa enorme, cara e difícil de sustentar. Em Lisboa, durante décadas, foi o “Trombinhas”: lugar muito movimentado por políticos, empresários, futebolistas, bifes pela madrugada e outros apetites. Agora, o bicho atravessou-se no caminho da Maya. E as cartas, definitivamente, ficaram a dever uma explicação. Há símbolos que atravessam civilizações e chegam ao destino bastante transformados. Na mitologia hindu, Airâvata é o majestoso elefante de Indra, rei dos deuses e senhor das tempestades, símbolo de força, pureza, prosperidade e fertilidade. Coisa fina. Celestial. Um animal com currículo para entrar num palácio sem mostrar credencial. Depois chegou o Ocidente e, como tantas vezes acontece, estragou o conceito: “elefante branco” passou a designar uma coisa enorme, cara, inútil ou impossível de sustentar. Um estádio construído para um Mundial ou Europeu de futebol e depois às moscas, um aeroporto sem aviões, uma obra pública com três inaugurações e nenhuma utilização.

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Lisboa, mais imaginativa, descobriu uma terceira hipótese: chamou-lhe Elefante Branco, pôs-lhe luzes, bar, mulheres, bifes e madrugada e baptizou-o familiarmente de “Trombinhas”. Isto é que é verdadeira globalização. Ou não tivéssemos nós mandado Vasco da Gama descobrir o caminho marítimo para a Índia e Pedro Álvares Cabral desembarcado depois no Brasil, que também viria a dar bastante jeito à história da casa.

De Airâvata ao bife do Trombinhas

A verdade é que o Trombinhas tornou-se praticamente património imaterial da noite lisboeta, embora talvez seja prudente não avançar já com uma candidatura à UNESCO. E agora já seria tarde: o espaço fechou no contexto da investigação criminal que atingiu os seus responsáveis e está na origem deste processo. Durante décadas foi uma das mais famosas e elitistas casas de alterne da capital, frequentada por muitos ilustres cidadãos nacionais — e seguramente alguns estrangeiros, sobretudo depois da explosão turística de Lisboa — que, segundo a tradição oral portuguesa, estavam todos ali sobretudo interessados na qualidade do célebre bife do lombo.

Portugal deve ser um dos poucos países onde milhares de homens conseguiram justificar durante anos a chegada a casa às quatro da manhã, com um copo a mais e a cheirar a perfume de mulher, que manifestamente não era o deles, através de uma explicação exclusivamente gastronómica: tinham ido comer um bife. E havia famílias respeitáveis, de homens sérios e de bem, que acreditavam.

A casa fechou, reabriu, mudou ligeiramente de poiso e manteve aquela extraordinária reputação de lugar discretíssimo cuja localização toda a Lisboa conhecia, ali para os lados do Conde Redondo. Depois chegou a Covid. Fecharam cinemas, teatros, bares, discotecas e restaurantes, o País entrou em casa, o planeta parou e o Trombinhas revelou uma resistência digna do próprio Airâvata. Reabriu com limitações, funcionou também como restaurante e ainda travou uma batalha judicial para poder permanecer aberto até mais tarde. A coisa atingiu tal grau de surrealismo português que, em setembro de 2020, o governo de António Costa teve mesmo de aprovar uma resolução para contrariar os efeitos de uma providência cautelar que lhe permitiria prolongar o horário.

Enquanto Portugal discutia ventiladores, máscaras, hospitais, confinamentos, incidências e uma vacina que ainda não existia, o Conselho de Ministros teve também de encontrar espaço na agenda para o Trombinhas. Só faltava constar do boletim epidemiológico diário. Nem Ionesco teria coragem.

Quando o Tarot não vê um mamífero de cinco toneladas

E isto antes de aparecerem as escutas à Maya. É aqui que a história abandona a mitologia, atravessa a zoologia e entra diretamente no Tarot. Eunice Carvalho, Maya para quase todos nós, taróloga, apresentadora, relações-públicas e comentadora profissional dos amores, separações, zangas, reconciliações e restantes catástrofes sentimentais da fauna televisiva portuguesa, surgiu numa escuta do processo.

Convém travar imediatamente o desfile antes de alguém montar o cadafalso: Maya não é arguida, não está acusada neste processo e afirma nunca ter sido ouvida pelo Ministério Público. O que veio a público é um telefonema no qual procuraria ajudar uma amiga a encontrar “companhia” para um amigo, um homem do Norte que queria jantar acompanhado em Lisboa. Maya garante que não facilitou prostituição, rejeita qualquer ligação à exploração sexual e assegura que jamais pactuaria com semelhante situação. Juridicamente, portanto, não há aqui julgamento nenhum.

Comicidade, porém, há bastante. Porque passar décadas a deitar cartas para descobrir o futuro dos outros e não ver aproximar-se um mamífero de cinco toneladas é, convenhamos, uma falha técnica considerável. Alguma coisa devia ter aparecido no baralho. Uma tromba, uma presa, um vulto branco. Um aviso. Qualquer coisa.

Maya explica que se tratava de companhia para um jantar. E “companhia” é uma palavra extraordinariamente elástica na língua portuguesa. Há companhia para jantar, viajar, ir ao cinema ou passear o cão; há companhias de seguros, companhias de teatro e até a Companhia Nacional de Bailado. E há, pelos vistos, companhias suficientemente complexas para acabarem mencionadas numa investigação policial. Da próxima vez, Maya, facilitemos. Se alguém estiver sozinho, compre-lhe um baralho. Bisca para dois, sueca para quatro. Nem sequer precisa de mudar de profissão: continua a trabalhar com cartas, apenas altera ligeiramente o método. Em vez de procurar uma mulher loira a entrar na vida de alguém, passa a procurar o ás de trunfo. É menos esotérico, mas reduz consideravelmente as probabilidades de acabar no Jornal de Notícias ou no próprio Correio da Manhã, universo mediático onde Maya trabalha.

A Abelha Maya regressa à colmeia e leva com o boomerang

Porque a melhor parte desta história nem sequer está no telefonema. Está no boomerang. Maya passou décadas a trabalhar precisamente numa indústria televisiva especializada em transformar a vida privada alheia em matéria-prima de consumo “noticioso”. Alguém janta com alguém e, antes da meia-noite, já temos seis comentadores, três especialistas, duas fontes anónimas, uma amiga próxima que não quer mostrar a cara e um rodapé a anunciar em letras garrafais o jantar que está a dar que falar. Segue-se a inevitável pergunta sobre se terá sido apenas jantar, alguém garante que conhece muito bem a pessoa e acha tudo aquilo estranho, outro assegura que há qualquer coisa que ainda não foi contada e, quando finalmente parece que vamos descobrir o segredo da Humanidade, entra publicidade para champô.

Maya conhece este mecanismo como poucos. Só que desta vez a máquina rodou. A comentadora transformou-se em notícia. A apresentadora virou tema. Quem segurava a lupa ficou, por instantes, debaixo dela. É a versão televisiva da Roda da Fortuna, mas com rodapé, separador musical e intervalo publicitário.

Quem passa a vida a olhar pelo buraco da fechadura deve, de vez em quando, verificar se não está alguém do outro lado. É a grande lei do gossip português: hoje comentas tu, amanhã comentam-te a ti, depois comentas quem te comentou e, na sexta-feira, fazem um especial de duas horas sobre todos os comentários anteriores.

Temos, portanto, quatro sentidos para o mesmo bicho. Na Índia, é celestial. No Ocidente, um encargo ruinoso. Em Lisboa, foi o Trombinhas, onde durante décadas uma quantidade impressionante de portugueses garantia ir apenas pelo bife. E agora existe ainda uma quarta definição: é aquilo que aparece na vida de uma taróloga quando as cartas decidem entrar em greve.

Maya continuará seguramente a comentar a vida dos outros. Conhece a televisão, conhece o ofício e sabe perfeitamente como funciona este circo. Mas talvez, da próxima vez que estiver em estúdio a perguntar solenemente por que razão determinada celebridade foi jantar com alguém, faça uma pequena pausa, olhe para as cartas, pense no Trombinhas e recorde-se de que até Airâvata, o poderoso elefante celestial de Indra, pode acabar um dia num rodapé da CMTV. Quanto a mim, continuo a recomendar a sueca: quatro pessoas, quarenta cartas, umas cervejas e uns tremoços. E se alguém perguntar quem deu, que respondam Maya. Pelo menos, dessa vez, estamos todos a falar das cartas.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.