Menos açúcar nos primeiros anos de vida pode reduzir até 69% o risco de alguns cancros

🗓️ 2026-08-23 📁 technology 📝 ⏱️ 👁️ : -

O açúcar que consumimos ainda antes de nascermos e durante os primeiros anos de vida poderá deixar marcas no organismo durante décadas. Um novo estudo sugere que limitar o consumo de açúcar nos primeiros 1.000 dias de vida está associado a um risco significativamente menor de vários tipos de cancro e até a um envelhecimento biológico mais lento.

Menos açúcar nos primeiros anos de vida

A investigação, publicada na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), analisou dados de 64.761 pessoas e aproveitou uma situação histórica difícil de reproduzir atualmente: o racionamento de açúcar no Reino Unido depois da Segunda Guerra Mundial.

O Reino Unido criou, sem querer, uma experiência com mais de 70 anos

Durante e após a Segunda Guerra Mundial, vários alimentos estiveram sujeitos a racionamento no Reino Unido. O açúcar foi um deles.

O racionamento terminou abruptamente em setembro de 1953 e o consumo médio de açúcar praticamente duplicou pouco depois. Isto criou dois grupos particularmente interessantes para os investigadores: crianças que passaram os primeiros meses ou anos de vida sujeitas às restrições e outras, nascidas pouco depois, que cresceram já sem essas limitações.

Chen Zhu, da China Agricultural University, e Weilong Zhang, da Universidade de Cambridge, analisaram participantes do UK Biobank nascidos entre 1951 e 1956.

O período considerado especialmente importante são os chamados primeiros 1.000 dias, que começam na conceção e terminam aproximadamente quando a criança completa dois anos.

Até 69% menos risco de cancro do fígado

Os resultados são particularmente expressivos. As pessoas que estiveram sujeitas ao racionamento de açúcar durante os primeiros 1.000 dias apresentaram, décadas mais tarde, uma incidência inferior de vários tipos de cancro.

Os investigadores encontraram reduções de aproximadamente:

  • 69% no cancro do fígado e vias biliares intra-hepáticas
  • 52% no cancro da próstata
  • 41% no cancro do pulmão
  • 40% no cancro do reto
  • 36% no cancro da mama

Além disso, quanto maior tinha sido o período de exposição ao racionamento durante esta fase inicial da vida, maior tendia a ser a redução observada no risco, sugerindo uma relação dependente da duração da exposição.

Mas há outro resultado surpreendente: envelhecimento mais lento

Os investigadores analisaram também os telómeros, estruturas localizadas nas extremidades dos cromossomas que ajudam a proteger o material genético e que tendem a ficar mais curtas com o envelhecimento celular.

As pessoas que tinham vivido os primeiros anos sob racionamento apresentavam telómeros leucocitários ligeiramente mais longos.

Segundo os cálculos dos investigadores, esta diferença corresponde a cerca de 2,2 anos a menos de envelhecimento biológico. Foram igualmente encontrados níveis inferiores de granzima B, uma proteína associada à ativação crónica do sistema imunitário.

Infografia que explica as consequências de menos açúcar nos primeiros anos de vida

O açúcar nos primeiros anos poderá também "educar" o paladar

Há ainda uma descoberta particularmente interessante. Cerca de cinco décadas depois do fim do racionamento, as pessoas que tinham sido expostas a menos açúcar nos primeiros anos continuavam, em média, a consumir menos açúcar, ingeriam menores quantidades de alimentos e apresentavam dietas mais diversificadas e saudáveis.

Os investigadores apontam, por isso, para dois possíveis mecanismos. Um será biológico: a alimentação numa fase em que órgãos, metabolismo e sistema imunitário estão em rápido desenvolvimento poderá influenciar a saúde futura.

O segundo será comportamental. A exposição a sabores muito doces durante os primeiros anos poderá ajudar a definir as preferências alimentares que permanecem durante grande parte da vida.

Não é a primeira vez que o racionamento britânico revela estes efeitos

O mais interessante é que estes resultados não aparecem isoladamente.

Um estudo anterior, publicado na Science em 2024 e baseado no mesmo "experimento natural", concluiu que a exposição ao racionamento de açúcar nos primeiros 1.000 dias estava associada a uma redução de aproximadamente 35% no risco de diabetes tipo 2 e de 20% no risco de hipertensão. O aparecimento destas doenças também foi atrasado cerca de quatro e dois anos, respetivamente.

Investigações posteriores encontraram igualmente associações com menor risco cardiovascular.

Açúcar não significa automaticamente cancro

Há, contudo, uma distinção importante. Estes resultados não significam que consumir açúcar provoque diretamente cancro nem que eliminar completamente o açúcar da alimentação das crianças impeça o aparecimento da doença.

O estudo aproveita uma experiência natural histórica extremamente rara e consegue comparar populações semelhantes separadas pelo fim abrupto do racionamento. Ainda assim, não se trata de um ensaio clínico aleatorizado acompanhado durante 70 anos.

O que os dados reforçam é a importância que a alimentação durante a gravidez e nos primeiros dois anos de vida poderá ter na saúde muitas décadas depois.

Curiosamente, crianças com menos de dois anos nem sequer se recordarão do que comeram nesta fase. Mas, segundo estes resultados, o organismo e até as preferências alimentares poderão guardar essa memória durante toda a vida.