Quem nunca mentiu para ser feliz? - 15/08/2026 - Giovana Madalosso - Folha
Eu estava com 19 anos e tinha acabado de arrumar um estágio como redatora em uma agência de propaganda. Nos primeiros dias de trabalho, durante uma reunião, um homem entrou na sala. Antes que ele dissesse qualquer palavra, senti uma coisa estranha. Eu não sabia que seu nome era Beto, nem que era diretor de criação, nem que tinha dez anos a mais do que eu, nem que gostava de Caio Fernando Abreu. Mesmo assim, já estava apaixonada.
Começamos um namoro que hoje seria fitado com maus olhos —o diretor e a estagiária—, mas que, na época, só fazia mal aos garçons: tínhamos conversa para esta e outras encarnações e sempre fechávamos os bares, indo de um a outro, até que não restasse uma portinhola aberta e nossas palavras seguissem rolando sobre os paralelepípedos.
Um dia eu estava sentada à minha mesa de trabalho, pensando em alguma frase para vender iogurtes, quando um envelope caiu à minha frente. Abri e encontrei uma passagem para Amsterdã emitida em meu nome –ida e volta no feriado– e um bilhete: vou uns dias antes a trabalho. Me encontra lá?
Não sei como meu coração juvenil não escalou pela garganta. De felicidade e de nervoso. Eu queria ir, o problema eram meus pais, com os quais eu ainda morava, um tanto anacrônicos para o seu tempo, que desejavam que eu casasse virgem (oi?) e, portanto, não me deixavam viajar com namorados nem para a praia —imagine para o outro lado do Atlântico.
Sabendo que eles jamais permitiriam e não tendo hímen nem amor a perder, usei a minha criatividade para bolar uma mentira. Tinha e tenho, até hoje, uma amiga que mora no Paraguai. Vou pegar um busão e visitar a Marcela, avisei a minha mãe, deixando a amiga de sobreaviso para qualquer telefonema.
Com paúra, dois rolos de filmes fotográficos e um caderninho, voei de Curitiba para Guarulhos. Lembro de estar no portão de embarque internacional, começando a relaxar, fascinada com as línguas diferentes que já surgiam ao meu redor, quando ouvi um anúncio.
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Um funcionário da companhia aérea explicava que a porta da aeronave havia quebrado. Eles iriam dar um jeito, mas quem não desejasse pegar aquele avião poderia dormir em Guarulhos com tudo pago e voar no dia seguinte.
O que fazer? Perder um dia do curto feriado ou entrar em um avião cuja porta poderia se despressurizar a qualquer momento e me lançar longe? Já imaginei a cena. Meu corpo boiando e minha mãe se perguntando: como assim, no oceano Atlântico? E com destino a Amsterdã, era usuária ou traficante?
Não foi tão difícil decidir. Como já disse, eu não tinha tempo nem amor a perder. Onze horas depois cheguei a Amsterdã, onde eu e Beto fizemos mais do mesmo, dar canseira nos garçons, só que in English.
Da Holanda não trouxe um tamanco —se desse um ao meu pai, levaria uma tamancada. Trouxe apenas um segredo que carreguei até os 51 anos, quando visitei com minha mãe os Países Baixos.
Ali, tomando um café, resolvi abrir o jogo sobre a viagem para o "Paraguai". Minha mãe quase derrubou a xícara. Não acredito que você mentiu pra mim! Fiquei em silêncio, torcendo para que broncas prescrevessem.
Ela desviou os olhos para o canal que passava ao nosso lado, com um ar divagante. Percebi que, na sua boca, crescia um sorriso, que ela ainda tentou disfarçar dizendo: que absurdo!
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