“Meu lugar é no palco”

🗓️ 2026-08-15 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -
Joana Mistieri
Joana Mistieri (Ballet em Foco/.)

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Quando ainda cambaleava, arriscando os primeiros passos, dizia para meu pai que era uma “bairalina”, trocando o “r” pelo “l”. A brincadeira, da qual só me lembro por ter sido captada em vídeo por minha mãe, ganhou ares mais sérios quando decidi entrar na aula de dança oferecida pelo meu colégio. Na época, já tinha 6 anos. Era uma forma de canalizar a energia que não me deixava parada. Marina Mancini, minha professora e coreógrafa até hoje, que é do Momentum — Arte em Movimento, me convidou para fazer aula na escola dela e, a partir daí, minha vida mudou. Mesmo tendo pouca idade, duvido que seguirei outra profissão. Virei bailarina. Viver da dança, de preferência em uma grande companhia do mundo, é um sonho que tenho, mesmo sabendo que terei de me dedicar para alcançá-lo. Uma parte dele já se realizou: acabo de participar do Festival de Joinville, considerado o maior do mundo em número de participantes, e arrematei o primeiro lugar na categoria solo contemporâneo em meia-ponta, que vai dos 10 aos 12 anos. Foi uma emoção sem palavras.

Antes de chegar lá, passei dois anos tentando, sem sucesso, me classificar. Para ser selecionada, é preciso enviar um vídeo para os jurados. Se não gostarem do que foi apresentado, acabou. É necessário muita técnica, controle do corpo e domínio da coreografia para conseguir uma chance. Receber o retorno de que havia seguido adiante e, pela primeira vez, estaria de frente para o público naquele prestigiado palco já me deu uma sensação de extremo orgulho. Mas, no dia da apresentação, no final de julho, fui tomada por um frio na barriga. Quando estou nas coxias, evito ver o desempenho das outras meninas, porque acabo me comparando a elas. Quando, enfim, me vejo diante da plateia, tento não pensar em nada. Hoje, tudo se tornou um enorme borrão, não consigo me recordar de detalhes, só dos aplausos ao final e da sensação de ter cumprido meu dever, com o público e comigo mesma.

Não imaginava que conquistaria o troféu. Os anúncios dos vencedores são feitos de trás para frente, com o primeiro lugar sendo anunciado por último. Quando percebi que as primeiras palavras não tinham a ver comigo, desliguei por alguns segundos e pensei: “tudo bem, já consegui chegar até aqui”. A surpresa veio quando, logo em seguida, me chamaram. Não consegui acreditar, caí em lágrimas. Por mais que ainda esteja no início da minha carreira, pensei em tudo o que tive de superar para alcançar o tão desejado posto. Por conta do crescimento e dos esforços repetitivos, quebrei sete ossos e tive lesões no joelho, no cotovelo e no tendão que me dão dor e exigem acompanhamento constante. Faço fisioterapia e sigo tratamento com um osteopata, mas parar não é uma opção. Duas outras surpresas ainda estavam por vir. Fiquei em terceiro lugar em duas performances — uma em solo e outra em grupo, o que também me encheu de orgulho. Para o ano que vem, a classificação é automática e já estou com a vaga garantida para disputar na modalidade júnior, entre as garotas de 12 a 16 anos.

Agora que senti o gostinho da vitória, seguirei em frente. É verdade que a pressão fica cada vez maior, e tenho medo de nem sempre conseguir atender às expectativas. Mas, ao mesmo tempo, percebo que me tornei uma daquelas meninas que admirava na infância e passo a ser referência para as mais novas — uma grande honra e responsabilidade. Também sei que meu lugar é no palco, rodopiando com as sapatilhas, como nasci para fazer. Nessa trajetória, que pode ser solitária, o apoio dos meus pais tem sido fundamental. Por mais que os aplausos sejam o ponto alto da vida de uma dançarina, tenho uma família e amigos de dentro e fora dos palcos que estarão comigo seja qual for o resultado. E isso me dá asas para voar ainda mais alto.

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Joana Mistieri em depoimento a Paula Freitas

Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008

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