Lobão: 'Minha esperança está nos discos voadores' - 21/08/2026 - Mônica Bergamo - Folha

🗓️ 2026-08-22 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Lobão, 68, é categórico: não tem qualquer expectativa de que por meio da política o Brasil possa ter um futuro melhor. "A minha esperança está nos discos voadores, no disclosure [movimento que acredita que ocorrerá uma revelação pública sobre a existência de vida extraterrestre]. Quero saber se os ETs vão chegar."

O apoio à eleição de Jair Bolsonaro (PL) em 2018 foi sua última tentativa. Segundo o músico, o posicionamento ali era uma "atitude rock n'roll". "As pessoas se esquecem que eu estava contra o sistema, um sistema que estava há 16 anos no poder, com um monte de corrupção e uma tirania enorme."

Assim como afirma ter dado uma chance histórica ao PT, "mesmo sem ser petista", no fim dos anos 1980 e nos anos 1990 —quando até cometeu crime eleitoral por cantar "Lula-lá" ao vivo no Domingão do Faustão —, Lobão diz que agiu de forma generosa ao apoiar uma direita que pensava ser nova. "Havia alguns intelectuais no grupo em quem eu tinha a maior esperança, mas vi que não, a coisa era tosca mesmo."

Chegou então à decisão de nunca mais fazer campanha. "É a coisa mais pentelha e chata. Você sente uma vibração horrorosa, as pessoas te odeiam. É tudo muito feio, cafona, de muito mau gosto. E não funciona porque são as mesmas figuras caindo aos pedaços. Não há renovação."

Nas eleições de outubro deste ano, diz que não vai votar, postura que, apesar dos apoios políticos da última década, revela adotar "há mais de 30 anos". "Me recuso a gastar meu HD, minha gasolina, meu tempo para quiçá anular o meu voto." O desalento não é só com a política. Para o músico, o "ser humano existencialmente" não evoluiu "um milímetro sequer" ao longo de sua existência.

"É muito importante perceber isso, porque você vai entender que as ideologias só levam a gente a entrar em guerra, a ter matança, a [dar espaço para] pavões que ficam nos palanques. Você tem todo um caldo de comportamento que é imutável, cara. Para que vou ficar dando trela para isso?", questiona.

Curiosamente, "Ideologia", um dos grandes sucessos de seu amigo Cazuza, é uma das faixas que Lobão vai cantar neste domingo (23) no festival C6 no Rock, no Ibirapuera, em São Paulo. A escolha, diz, não foi dele, mas da direção musical do evento.

Lobão afirma ter "um certo receio de levantar esse tipo de poeira" do "Fla x Flu ideológico". Revela também que chegou a comentar com Cazuza que não era muito fã da música e que ouviu do cantor e compositor que ele também achava a canção "horrível".

"Porque ideologia é uma coisa que encolhe a sua cabeça. Se você pega uma ideologia, tudo bem que não será cancelado, tem um grupo que vai te aceitar, mas você encolhe existencialmente porque uma ideologia é uma cartilha de conduta e aí de você se, em um determinado momento da sua vida, pensar [algo diferente disso]."

Lobão conta que preferia cantar "O Tempo Não Para", mas aceitou a sugestão de "Ideologia" pelo "bom andamento do serviço" e para não ser "aquele cara difícil". Na homenagem que será feita a Cazuza no festival, ele também cantará "Vida Louca Vida", esta, sim, uma música que afirma ter despertado a sua emoção. "Achei comovente porque é uma faixa que muita gente acha que foi composta por ele, mas é minha." No mesmo evento, Lobão se apresentará ainda com Marina Lima, que considera a sua madrinha artística.

Questionado se está numa fase mais calma para não ser tachado como "aquele cara difícil", o roqueiro diz que sempre foi "muito calmo", mas aprendeu a preservar a sua essência. "Detesto me sentir caricaturado. Não vou ficar de fantoche de manchete de jornal, como sempre fui."

Ele revela que agora avalia se a sua opinião tem de fato algo que possa provocar alguma mudança. Em caso negativo, se for apenas para gerar "fofoca ou especulação", diz que não dará mais a "cara a tapa para ficar no meio do tiroteio de um monte de gente maluca". Na visão do músico, a sociedade está psicótica. "Não estou a fim de participar disso."

"Fora que fui de uma época em que ser irreverente era super excepcional. Hoje em dia todo mundo é assim. Nós somos muito ignorantes. Ninguém sabe porra nenhuma. Vamos dar menos opinião, fazer menos fofoca e cuidar mais da nossa vida."

Também parece ter ficado no passado as alfinetadas em outros artistas ou estilos musicais. "Se eu estou produzindo, se estou no meu melhor momento, a música brasileira está esplendorosa", diz, ao ser perguntado sobre o momento cultural atual. "Nunca quis briga com ninguém. As pessoas geralmente se ofendem, mas eu não fico: 'Aee, vamos lá, vou sair na porrada'. Não sou isso, sabe? Me dou o direito de ser franco, mas sou educado."

Em contraste com a desesperança com a política e com a humanidade, Lobão diz que "é naturalmente feliz", daquele tipo que já acorda animado, para desespero de sua mulher, a empresária Regina Lopes. "Quando começamos a morar juntos, ela não entendia por que eu acordava alegre e dizia: a sua felicidade é insuportável", conta, entre risos. "A gente tem momentos de perdas. Eu tenho um almoxarifado de tragédias na minha família, mas aprendi a lidar com isso."

Paradoxalmente à imagem do roqueiro encrenqueiro que alimentou em anos recentes, Lobão afirma levar uma vida comum e ser um "excelente dono de casa". "Faço cama, lavo louça, limpo tudo, dou soro e remédio para as minhas gatinhas que estão mais velhas, uma está com 23, a outra com 22."

No dia em que recebeu a coluna em sua casa térrea, na Chácara Monte Alegre, um bairro residencial na zona sul de São Paulo, o tempo esfriou de repente. Lobão se animou. "À noite vou acender a lareira que elas [as gatas] adoram." Ele também diz dar nome e conversar com suas plantinhas. "A maior é a Julieta", revela, apontando para a árvore no jardim. "Faço essas coisas que são pequenas e que são para mim uma alegria."

No espaço externo, há ainda uma espécie de altar com imagens de diferentes religiões: um São Francisco sentado em posição de buda, incensos, velas e uma estátua indiana. O local foi decorado pela mulher do músico. Lobão conta que acredita em Deus, mas não segue nenhuma religião. "Montei um autorama religioso na minha cabeça."

O músico fala com entusiasmo sobre seus novos trabalhos. Um deles é "Incandescence", ópera que desenvolve com o autor e diretor teatral Gerald Thomas. Os dois se conheceram quando Lobão apresentava o programa Saca Rolha, no início dos anos 2000, mas foi só em 2024 que, após trocarem mensagens pelo Instagram, se reencontraram em uma conversa pelo Zoom. "Batemos papo por quatro horas. A partir de então, não tem um dia que a gente não fique horas falando", revela.

Muitas ideias para a ópera já foram aventadas. Uma delas —e que deve prosperar— é baseada em um romance que Lobão queria escrever e que tinha o título provisório de "O Diário do Demônio da Certeza", sobre um homem que trabalha num almoxarifado e tem uma vida ordinária, mas quando dorme consegue se infiltrar na cabeça de presidentes de nações e líderes religiosos e instalar "certezas inabaláveis". A ideia é que a ópera seja apresentada em outro país, mas com a possibilidade de ter um ensaio aberto para o público do Brasil.

Lobão também conta que está com um novo disco pronto, "Vale da Estranheza", desenvolvido com 80% de viola caipira. Quer ainda voltar a escrever, mas não livros autobiográficos. "Estou com três temas interessantíssimos para romances. E tenho a maior vontade de escrever um livro infantil. Eu era um excelente contador de histórias para os meus enteados e para a minha filha."

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