Mistério do casal Ocampo e Bioy Casares mescla amor e ódio - 30/08/2026 - Ilustrada - Folha
Enrique Huberman chega a um hotel isolado na costa argentina munido de uma explicação respeitável para uma viagem. Médico homeopata, culto e homem de elevada opinião sobre si mesmo, pretende aproveitar o retiro para escrever um pequeno texto sobre Petrônio, o autor romano do "Satíricon".
Há, porém, outra razão que ele demora a admitir até para si: Mary Fraga. Talvez seja mais exato dizer que Huberman viaja tentando se convencer de que Mary não é a razão. O embaraço importa. Antes mesmo que haja um crime a investigar, Huberman já está ocupado em fabricar uma versão conveniente dos fatos.
Há nessa armadilha inicial muito do humor de "Os Que Amam, Odeiam", romance que o casal de intelectuais Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares publicou a quatro mãos em 1946.
Huberman pretende fugir do amor como quem se afasta da origem de uma doença. Médico, está acostumado a observar, diagnosticar, prescrever. Diante do próprio desejo, no entanto, sua capacidade de diagnóstico se mostra bem menos segura.
Ocampo e Bioy acrescentam então uma segunda armadilha à primeira. Uma tempestade violenta isola o hotel do restante do mundo. O retiro voluntário se transforma em confinamento. E os hóspedes, pessoas suficientemente privilegiadas para se afastar de suas vidas e passar uma temporada à beira-mar, se descobrem obrigados à convivência.
Uma das ironias mais interessantes do romance é que seus personagens podem fugir do mundo, mas acabam presos uns aos outros. A questão de classe atravessa o livro sem se converter em programa ou denúncia.
No hotel, esse privilégio se converte em clausura. Quanto mais o mundo desaparece, mais os hóspedes se observam. E nenhum olhar é inocente. Desejo, ciúme, vaidade, ressentimento, atração e repulsa circulam por essa pequena sociedade que, protegida do exterior, começa a revelar suas próprias fissuras. Não demora muito até que toda essa fricção gere um crime, com a morte de um dos personagens centrais.
Mary Fraga está no centro desse círculo de afetos. Vista sobretudo pelos homens que a desejam, ela provoca fascínio e irritação, atração e suspeita. É tentador descrevê-la como uma mulher que manipula aqueles que se apaixonam por ela.
Huberman é o caso mais evidente. Vaidoso, ele se descobre vulnerável diante da ideia de amar. Viaja para recuperar o controle e encontra, no destino escolhido para esquecer Mary, a própria Mary. A tempestade fecha a porta atrás deles.
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Quando a morte transforma o hotel em cena de crime, os sentimentos que pareciam pertencer ao domínio privado passam a adquirir outra natureza. O amor pode ser motivo. O ciúme, indício. A antipatia, suspeita. Quem amava pode ter odiado e quem odiava talvez desejasse.
O médico observa corpos, comportamentos, frases e contradições em busca de uma ordem escondida. Sua confiança na razão é parte de seu método —e também parte da piada.
Um aparte: há uma versão da história para as telas disponível no HBO Max —Guillermo Francella, também ele um conhecido vaidoso do cinema argentino, interpreta muito bem o Huberman do livro.
Por trás desse jogo há dois autores cuja parceria torna o livro ainda mais curioso. Bioy Casares e Ocampo formaram um casal tão duradouro quanto pouco convencional.
Ele, cosmopolita, erudito, notoriamente mulherengo e dotado de uma vaidade que sua escrita autobiográfica não se esforçaria sempre por esconder. Ela, uma escritora de imaginação singular, atraída pelo oculto, pelo cruel, pelo supersticioso e sobretudo por acontecimentos que parecem conservar alguma coisa de inexplicável mesmo depois de explicados.
Ocampo passou boa parte da vida cercada por nomes cuja celebridade ameaçava projetá-la para uma posição secundária: era irmã de Victoria Ocampo, mulher de Bioy Casares e amiga de Jorge Luis Borges. Hoje, essa maneira de situá-la parece dizer mais sobre a história da recepção literária do que sobre sua obra.
A autora escreveu um universo inteiramente seu, no qual o doméstico pode se tornar perverso, o familiar pode ser monstruoso e uma explicação racional raramente encerra todas as perguntas.
Victoria Ocampo ocupava outro lugar. Fundadora da revista Sur, poderosa figura da vida cultural argentina, reuniu em torno de si uma constelação de escritores e intelectuais que ajudaria a transformar a literatura argentina do século 20.
Dentro dessa constelação, o romance policial ocupava uma posição particular. Borges e Bioy levavam o gênero a sério. Interessavam-se pela precisão de sua arquitetura, pela economia do enredo, pela construção do enigma e pela possibilidade de que uma sucessão aparentemente caótica de acontecimentos pudesse revelar, ao final, uma ordem.
Em 1945, os dois começaram a dirigir a coleção policial El Séptimo Círculo. No ano seguinte, Bioy e Silvina publicaram "Os que Amam, Odeiam".
A tensão que atravessa o livro sugere que amor e ódio talvez não sejam sentimentos opostos, mas vizinhos. O confinamento no hotel apenas diminui a distância entre os personagens, que descobrem que estar perto demais significa também observar demais, desejar demais, ressentir-se demais.
A biografia dos autores produz, inevitavelmente, uma rima irônica. Um casal pouco convencional, atravessado por cumplicidade intelectual, paixões, infidelidades e uma concepção nada simples do casamento, escreve junto um romance chamado "Os que Amam, Odeiam".
Seria pobre reduzir a ficção à vida conjugal de Ocampo e Bioy Casares. Mais interessante é perceber como livro e biografia parecem compartilhar uma mesma desconfiança diante de qualquer definição confortável do amor.