Modelo de IA em escala é caro e extrativista, mas tem alternativas, diz especialista

🗓️ 2026-07-14 📁 technology 📝 ⏱️ 👁️ : -

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Mulher asiática com cabelo escuro preso, vestindo blazer branco, gesticula com as mãos abertas enquanto fala. Ela usa brincos dourados e anéis. Ao fundo, uma imagem desfocada de telhados e construções.
Karen Hao: livro da jornalista analisa os custos e os caminhos possíveis da inteligência artificial -  (Annette Riedl/Getty Images)

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A inteligência artificial generativa esconde uma engrenagem voraz por trás de suas inovações. Essa realidade é exposta pela premiada jornalista investigativa Karen Hao no livro O império da IA, recém-lançado no Brasil pela Editora Rocco. Eleita pela Time como uma das pessoas mais influentes no setor, Hao investigou de perto a OpenAI e as ambições de seu líder, Sam Altman. Na obra, a autora documenta como a atual corrida tecnológica exige altos custos ambientais e a exploração de trabalhadores precarizados para concentrar poder e lucros nas mãos de gigantes multinacionais. A seguir, os principais trechos da entrevista com a autora para VEJA.

Como você avalia o desenvolvimento recente da inteligência artificial, especialmente com a explosão das tecnologias generativas e de agentes autônomos dos últimos anos? O que vimos recentemente não muda a tese central do meu livro: o desenvolvimento atual da IA é profundamente imperialista, e as empresas na vanguarda operam como novas formas de império. A razão para isso é que elas baseiam sua abordagem tecnológica em uma escala massiva de dados, poder computacional, recursos e dinheiro. Essa busca desenfreada por escala exige extração, e os recursos são tirados de indivíduos, criadores, da força de trabalho e de comunidades, afetando especialmente o Sul Global.

Diante de toda essa extração, você diria que a tecnologia da IA em si é boa ou ruim? Eu não penso nesses termos porque a IA é, na verdade, uma coleção de diversas tecnologias. Dizer que a IA é apenas uma “ferramenta” neutra, que ganha sentido apenas pelo modo como é usada, é uma visão extremamente limitada. Ela já impacta a sociedade duramente em seu próprio processo de produção. Existe toda uma economia política, uma reconfiguração da Terra e até a perturbação de sistemas educacionais para viabilizar as demandas dessas empresas.

É como discutir se “todo meio de transporte é bom ou ruim”. Obviamente, há transportes com um impacto mais positivo, e nós preferimos investir em veículos elétricos do que em caminhões que consomem quantidades absurdas de combustível para levar coisas de um ponto a outro. Os modelos gigantescos de IA generativa com os quais o setor está obcecado no momento representam uma relação custo-benefício péssima, enquanto há alternativas e abordagens melhores que cumprem funções semelhantes.

Você mencionou que os grandes modelos de linguagem têm uma relação custo-benefício péssima diante de alternativas melhores. Há alternativas para que a IA exista sem causar danos?

Com certeza. Os problemas são consequências diretas da abordagem focada em “escala” que as gigantes adotaram na corrida para construir sistemas o mais rápido possível. Para crescer o banco de dados depressa, as empresas diminuem a qualidade da curadoria e raspam os cantos mais obscuros da internet. Como resultado, precisam de trabalhadores precarizados para atuar como escudos humanos revisando esse conteúdo tóxico, o que devasta a saúde mental e a vida dessas pessoas. Com os data centers, ocorre a mesma força bruta motivada pelo excesso de dinheiro. Porém, nós não precisamos escalar freneticamente os modelos para ter benefícios. Ferramentas de código aberto, como o modelo chinês DeepSeek, mostraram que é possível alcançar as mesmas capacidades com uma quantidade significativamente menor de recursos. A diferença é que isso exige pesquisa real e inovações técnicas, o que leva mais tempo do que simplesmente jogar dinheiro na estrutura. A alternativa é mudar o método de produção; assim como desenvolvemos painéis solares para nos libertar da extração de combustíveis fósseis, podemos desenvolver a IA livre de exploração.

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Diante desse cenário de danos ambientais e exploração trabalhista, o que nós, como sociedade, podemos fazer para barrar os excessos e o acúmulo desproporcional de dinheiro e poder desses empresários?

Precisamos atuar em duas frentes conjuntas para desmantelar esse “império” sem deixar de colher os benefícios da IA: aplicar pressão contra essas empresas e investir em modelos alternativos de desenvolvimento. Na primeira frente, a resistência de base já está acontecendo: enormes protestos paralisaram a construção de mais de 150 bilhões de dólares em projetos de data centers em 2025. Vemos também uma grande onda de processos judiciais, organização da força de trabalho para barrar o uso irresponsável da tecnologia, sindicatos dentro das próprias big techs e pessoas pressionando políticos locais. Na segunda frente, é vital que governos, empreendedores e investidores redirecionem capital e talentos para o desenvolvimento da inovação pautada no interesse público. Foi assim que indústrias como as de moda e de café conseguiram focar em cadeias de suprimentos mais sustentáveis e éticas no passado.

Entender tudo isso pode ser um desafio enorme até para jornalistas de tecnologia. O que as pessoas devem fazer para se conscientizar sobre a gravidade dessas mudanças, que vão muito além dos nossos empregos?

As pessoas precisam se educar sobre o funcionamento dessa tecnologia, bem como sobre suas origens de produção e formas de implementação. Quando comecei a cobrir IA em 2018, ninguém se importava com o tema; hoje, esse é o assunto principal em qualquer roda de conversa. Isso é incrível, pois demonstra que as pessoas desejam entender a força que está moldando suas vidas para poderem moldá-la ativamente. Jornalistas têm um papel imenso em fornecer informações de alta qualidade sobre os bastidores dessa indústria, mas educadores, pesquisadores acadêmicos e os próprios trabalhadores do setor também devem se engajar na educação pública.

Falando em jornalismo, no seu livro você foca a narrativa na OpenAI e no Sam Altman. Por que ele, e não outros grandes nomes do Vale do Silício, como Elon Musk ou líderes do Google?

Porque a concepção que a humanidade tem hoje de IA se baseia totalmente no ChatGPT, que foi criado pela OpenAI. O foco nos Grandes Modelos de Linguagem, o abuso da escala, os imensos data centers e a exploração do trabalho se cristalizaram depois que Elon Musk se afastou e Sam Altman assumiu a liderança integral da empresa. Não é coincidência que Altman não seja um cientista ou pesquisador de IA, mas sim um homem de negócios com um talento ímpar para arrecadar montantes extraordinários de dinheiro. Ele foi o responsável pela escolha de um caminho de desenvolvimento tecnológico totalmente pautado pelo capital.

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Com tudo isso em mente, o que você acha do uso dos Grandes Modelos de Linguagem (LLMs)? Existe uma forma saudável de usá-los no nosso dia a dia, ou mesmo no jornalismo?

Sim, nós não precisamos descartá-los por completo, e os modelos de código aberto são um grande salto adiante em relação aos sistemas fechados das grandes empresas. Como os desenvolvedores open-source operam com menos dinheiro, as cadeias de suprimento da tecnologia acabam sendo mais eficientes, o que é menos extrativista e impede que nossos dados retroalimentem grandes corporações monopolistas. Sobre usá-los, depende totalmente do objetivo. Eu não uso geração de texto no meu trabalho jornalístico porque dependo de narrativas profundas e entrevistas qualitativas com fontes, mas, ironicamente, recorro bastante a ferramentas de IA para realizar as minhas transcrições de áudio. O segredo é ter estratégia: cada um deve se questionar criticamente sobre o que está tentando resolver. Se um grande modelo de linguagem não for a melhor solução para o seu problema específico, escolha um sistema focado diferente, ou não use IA.

Para encerrarmos a nossa conversa: o que você espera que aconteça a seguir? Acredita que veremos uma regulação palpável em cima dessas companhias?

O que vem a seguir depende das nossas decisões coletivas, mas estou muito otimista. Neste último ano, acompanhamos o público exigindo um lugar à mesa e decidindo ativamente como quer que a tecnologia se comporte na sociedade, seja por meio de protestos ou na Justiça. Eu acredito que essa base de organização social e resistência finalmente levará a um cenário de forte legislação e regulação governamental. Nos Estados Unidos, legisladores que não defendem o interesse da população contra os abusos da IA já começaram a ser varridos de seus cargos por eleitores, e não tenho dúvidas de que essa cobrança pela responsabilidade das big techs chegará a muitos países, inclusive ao Brasil.

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