O reino das moscas, a garrafa mais leve do mundo e as algas na maionese. O que nasceu com o dinheiro do PRR

🗓️ 2026-08-30 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Houve ainda a participação da academia, em que alunos da Universidade Nova de Lisboa experimentaram retirar a quitina do esqueleto da mosca para transformar em quitosano para tingir peles de automóveis; ou para embeber as rolhas das garrafas de vinho para que não haja transmissão de oxigênio e o vinho não oxide. “Estas entidades estão habituadas a fazer estudos que nunca acabam. Mas as empresas precisam desses estudos. Tivemos de os obrigar a deixar de ser tão académicos”.

No setor têxtil, na agenda Projeto Lusitano, o trabalho conjunto é visto como uma das aprendizagens mais relevantes do PRR. “Nos próximos projetos vamos ter um princípio de união”, garante César Araújo, presidente da comissão executiva da agenda.

“Não havia o hábito de trabalhar com as universidades, com os centros tecnológicos. Trabalhava-se pontualmente, mas nunca numa vertente de médio e longo prazo, com um projeto bem definido para criar competitividade e músculo para competir globalmente. Hoje existe essa cultura.”

Também a Embalagem do Futuro faz um balanço positivo da ligação à academia. Um dos frutos do contacto com este mundo é um novo “revestimento para cartão que permite o contacto alimentar, à base de cera de abelha e quitosano”, um polímero natural. Um bio-revestimento “que fará com que o cartão seja inteiramente reciclável”, mesmo após o contacto alimentar.

Em alguns casos, as colaborações já dão passos fora da agenda. Por exemplo, a gordura extraída da larva da soldado-negro da EntoGreen, que “tem milhares de utilizações e é comparada com o óleo de coco”, está a ser usada para produzir, em laboratório e ainda em fase de testes, produtos como cremes, champôs, sabonetes, biodiesel e até na indústria farmacêutica.

Além da EntoGreen, que usa a mosca soldado-negro, fazem ainda parte da InsectEra a Thunderfoods, que usa o tenébrio molitor (“um pequeno escaravelho”) para desenvolver produtos para alimentação humana, como bolachas, e a The Cricket Farming, uma empresa de Leiria que também cria produtos para humanos à base de um grilo. A ideia de partida da agenda mobilizadora passava por construir uma fábrica para cada uma das empresas. “Não foi possível concretizar, porque as questões burocráticas são gigantescas e os timings não o permitiam”, admite Nuno Vinhais, gestor do projeto.

Os consórcios que falharam

↓ Mostrar

↑ Esconder

No total, houve 144 candidaturas às agendas mobilizadoras, das quais 64 foram selecionadas para uma segunda fase. No final, foram escolhidas 53. Mas nem todas chegaram a bom porto.

Na área da energia, sobretudo no hidrogénio verde e biocombustíveis, os prazos revelaram-se impossíveis e os desafios incomportáveis. A Galp não chegou a assinar o contrato da agenda que previa uma refinaria de lítio para baterias e, já este ano, a Bondalti também desistiu do PRR para produzir hidrogénio verde em Estarreja. As empresas querem manter os projetos, mas admitiram que não seria possível nos prazos previstos. Assim, de 53 agendas, chegaram ao final 51.

Ambas as empresas “ainda estão na fase de I&D”, e para elas o PRR já não será solução, mas os projetos ainda podem ir para a frente. Porque apesar de não terem conseguido fazer as fábricas, têm “as evidências de que o produto funciona”. Ainda que o conceito da agenda, sublinham, não seja a substituição da proteína da carne ou do peixe por insetos. “É um complemento”. Que tem ainda o objetivo de “dar cabo do lixo” agrícola.

Pão, bolachas e massas à base de farinha de insetos, molhos e manteigas à base de óleo de insetos, barras proteicas e até “bife de inseto 3D com marmoreado personalizável” são alguns dos produtos que a agenda tinha como meta. “A grande maioria” do que foi desenvolvido foi apresentado na Feira Nacional de Agricultura do ano passado. Empresas como a Auchan e a Casa Mendes Gonçalves, dona da Paladin, são algumas das parceiras da agenda que estão à espera que as fábricas avancem para poderem vender os produtos.

É nesta encruzilhada que estão muitos dos projetos financiados pelo PRR. Depois da bazuca, o que fica? “Vai depender muito da regulamentação e da capacidade de cada entidade privada de angariar ou de ter capitais próprios que permitam desenvolver e/ou concorrer a novas linhas de apoio”, destaca André Durão.

“Deveria quase obrigatoriamente haver uma continuidade para quem conseguiu desenvolver e colocar o produto no mercado, ou está nessa iminência”, aponta. “O desgaste de um acionista e o volume financeiro que é colocado neste tipo de coisas, de vez em quando fazem com que a pessoa desista.”

É também aqui que mora, para os responsáveis da Navigator, uma das grandes dúvidas do PRR. Para que estes projetos possam vir a ter continuidade, deve continuar a existir algum tipo de apoio público, defendem. “Acho que precisaremos de grupos de trabalho que garantam alguma continuidade aos projetos para não deixar morrer o que, em alguns casos, está como demonstrável. Mas as empresas vão precisar de algum incentivo, caso contrário muitos dos projetos podem vir a morrer”, considera António Sequeira. “Não é só dar dinheiro”, continua. “É tornar os processos e o licenciamento mais eficientes, desburocratizar muita coisa”.

Outro muro difícil de transpôr para todas as agendas foi a “guilhotina” dos prazos. “Nas startups, o investidor vai dando o que pode e, por sua conta em risco, vai produzindo até chegar ao mercado. Neste caso, e apesar da reprogramação, tivemos de acabar tudo até 30 de junho, em alguns casos foi muito difícil. Grande parte das soluções industriais que temos aqui raramente demoram menos de 24 meses a implementar”, diz António Sequeira. Para o engenheiro da Navigator, uma limitação tão grande de tempo acaba por comprometer a qualidade. “É bom ter uma data limite. Mas tem de haver exceções”.

Na InsectEra, como as fábricas não foram para a frente, foi necessário recalcular o valor dos apoios. O investimento previsto inicial da EntoGreen era de quase 12 milhões de euros, que passaram para seis. A agenda tinha um investimento previsto de 42 milhões de euros que acabou por ficar pelos 34 milhões. Também a criação de emprego ficou aquém do previsto. Em 2024 foi submetido um pedido de alteração ao projeto, em que “uns parceiros aumentaram umas coisas, outros reduziram outras”. A aprovação só chegou em meados de 2025. “Foi quase no fim, muitos disseram ‘já não adianta’, porque já não havia tempo.

Para Nuno Vinhais, as agendas não deveriam ter sido encapsuladas no prazo de três anos, nem com prazos iguais para todos. “Foi pouco tempo e foi, se calhar, demasiado para muitas entidades. Devia ter sido feito de uma forma gradual. Por exemplo, a ideia da EntoGreen é esta. Passado um ano e meio, se conseguiram, muito bem, avança mais um passo. A Thunderfoods não conseguiu? Arruma-se. Não avança no consórcio. E em vez de serem três anos, serem seis ou sete, mas ir eliminando algumas coisas e reforçando outras. E colocar esforços, até financeiros, naquelas que funcionam”.

“Achamos que há empresas [na agenda] que estão de facto a dar passos que podem levá-las a estar no mercado com estas soluções. Mas não é no imediato”, admite Henrique Carvalho, da Embalagem do Futuro. Embora tenha havido uma “preocupação desde o início de concluir projetos com um pendor para o mercado, de ter soluções que possam ser comercializadas”, há mais fatores em jogo. “Agora depende da estratégia, da abordagem aos mercados. E, às vezes, não só da própria empresa, mas dos seus clientes também.”