Caso Aida Freitas. Mulher de coordenador da PJ que denunciou diretor nacional Carlos Cabreiro tem vitória judicial
É um caso que envolve indiretamente Carlos Cabreiro, diretor nacional da Polícia Judiciária (PJ), e vai ainda dar muito que falar. Para já, a defesa de Aida Freitas, inspetora da PJ que entrou em rota de colisão com Cabreiro e a equipa que investigou o ex-hacker Rui Pinto, teve uma vitória judicial significativa: conseguiu convencer o juiz André Marques dos Santos, titular dos autos nos quais Aida Freitas está a ser julgada pelo alegado crime de falsas declarações, a adiar a leitura da sentença que estava marcada para esta 6.ª feira.
Mais: o juiz titular dos autos admitiu a prova carreada pelo advogado Miguel Matias, notificou a PJ a juntar os documentos originais e a explicar por que não o tinha feito antes e ordenou a audição de seis inspetores da PJ como testemunhas, segundo o despacho desta quinta-feira a que o Observador teve acesso.
Diretor da PJ alvo de denúncia por mentir em tribunal e ordenar escuta proibida no caso Rui Pinto
Está em causa um conjunto de documentação com mais de 10 anos que foi descoberta por David Freitas, coordenador da investigação criminal da PJ e marido de Aida Freitas, nos arquivos da Judiciária e revelada recentemente pelo semanário Expresso.
Os documentos da PJ que viraram o caso
Trata-se de um relatório de vigilância ao advogado Aníbal Pinto, então representante de Rui Pinto e que veio a ser arguido no mesmo caso do ex-hacker, e de uma ordem de missão que alegadamente indicia que um encontro entre Aníbal Pinto e representantes da Doyen, fundo de investimento de futebol que estaria a ser alegadamente alvo de extorsão por parte de Rui Pinto, em 2015 terá sido alvo de escutas ambientais à revelia do Ministério Público.
Ora, Carlos Cabreiro, enquanto diretor da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica e líder da equipa que investigou o caso de Rui Pinto, testemunharam no julgamento do ex-hacker que não tinham sido feitas escutas ambientais desse encontro de 2015 numa bomba de gasolina da A5 — declarações que foram corroboradas por outros inspetores da PJ que investigaram o caso do ex-hacker. Todos testemunharam que a informação que recolheram baseava-se na audição in loco da conversa entre Aníbal Pinto e os representantes da Doyen.
Tal encontro terá sido fundamental para descobrir a identidade de Rui Pinto — então desconhecida — e descobrir-lhe o rasto que levou a PJ até à Hungria, país onde o ex-hacker estabeleceu residência após sair de Portugal.
Coordenador que denunciou diretor da PJ por mentir em tribunal foi transferido pela direção da Judiciária
A única pessoa que destoou entre as testemunhas da PJ foi precisamente Aida Freitas, garantindo em tribunal que tinha assinado de cruz o relatório da missão e que não tinha ouvido nada do que Aníbal Pinto e os representantes da Doyen disseram. Tal decisão valeu-lhe um processo disciplinar e uma queixa — queixa que levou o Ministério Público a acusá-la do crime de falsas declarações, tendo sido julgada nos últimos meses.
Contudo, David Freitas, marido de Aida Freitas, apresentou no final de agosto uma queixa criminal contra Carlos Cabreiro e outros responsáveis da PJ por alegados crimes de abuso de poder e de falsas declarações com base em documentação que o próprio Freitas descobriu nos arquivos da Judiciária. A Procuradoria-Geral da República confirmou a abertura de um inquérito criminal — procedimento obrigatório quando estão em causa crimes públicos, como é o caso.
Juiz notifica PJ a apresentar documentação e a explicar porque não o fez antes
Foi com base em todos estes factos que o advogado Miguel Matias, defensor de Aida Freitas, requereu nos autos do caso de Aida Freitas a junção da documentação descoberta por David Freitas nos arquivos da PJ, o adiamento da leitura da sentença, a reabertura da audiência de julgamento e a audição como testemunhas dos inspetores José Tiago, Moisés Martins, Fernando Figueiras e João Jardim.
Constatando que tem vindo a seguir a jurisprudência dos tribunais, segundo a qual o facto de a produção ter sido encerrada não impede a reabertura de audiência para avaliação de nova prova relevante para a “boa decisão da causa”, o juiz André Marques dos Santos decidiu admitir toda a documentação junta pela defesa porque tem uma “conexão” com o caso que está a julgar.
Fazendo questão de realçar que tal decisão foi tomada “independentemente da apreciação crítica da prova a realizar em sede de sentença”, o magistrado que preside ao julgamento de Aida Freitas tomou quatro decisões:
- determinou a “reabertura de audiência”;
- ordenou à Polícia Judiciária que envie para o tribunal os documentos originais que comprovem a veracidade das cópias que foram juntas pela defesa de Aida Freitas;
- instou a PJ “a esclarecer porque razão, em cumprimento do determinado pelo Tribunal, não remeteu os mesmos [documentos]” quando já tinha sido notificada para o fazer;
- e determinou a audição de seis testemunhas da PJ para a “descoberta da verdade material”, nomeadamente David Freitas (coordenador da PJ autor da denúncia contra Carlos Cabreiro e marido de Aida Freitas), de José Amador, José Tiago, Moisés Martins, Fernando Figueiras e João Jardim — todos elementos da PJ envolvidos na investigação a Rui Pinto, nomeadamente no encontro de 2015 na A5 que terá sido alvo de alegadas escutas ambientais.
Aguarda-se a marcação das datas para audição das testemunhas — o que dependerá da resposta da PJ à notificação para juntar os documentos originais solicitados.