Muros mais altos: cenas caóticas em Ceuta aumentam aversão aos imigrantes na Europa

🗓️ 2026-08-07 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -
DESESPERO - Africanos no enclave: eles cruzaram a fronteira a nado e em barcos
DESESPERO - Africanos no enclave: eles cruzaram a fronteira a nado e em barcos  (Mohamed Siali/EFE)

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As imagens são chocantes. Rastejando pelas praias, subindo dunas, escalando muros, saltando cercas e avançando sobre a polícia, uma multidão de africanos vindos do Marrocos em poucas horas desativou os controles de fronteira de Ceuta, um território espanhol no Norte da África. Uma semana depois, a Espanha já havia deportado a imensa maioria dos 72 000 estrangeiros que chegaram a nado e em barcos ao enclave, sob o olhar complacente da polícia marroquina, num frenesi que levou à morte ao menos 77 deles. Mas as cenas caóticas seguiam mobilizando principalmente a extrema direita europeia, um segmento que passou décadas nas franjas da política, ganhou força nos últimos anos denunciando a presença de indocumentados e, agora, dita uma agenda continental.

Mais potente do que nunca, a bandeira anti-imigrantes deixou de ser exclusividade dos ultranacionalistas e foi abraçada pelos conservadores em geral e até por partidos moderados, conectados à insatisfação do eleitorado com os forasteiros que não param de chegar. “Não podemos permitir que travessias em massa descontroladas criem a percepção de que entrar ilegalmente na União Europeia é possível”, dispararam, em carta conjunta, 22 dos 27 governos do bloco. Apesar de ninguém ter ido além de Ceuta — para chegar à costa europeia, seria necessário ainda atravessar 14 quilômetros de mar no Estreito de Gibraltar —, a multidão serviu prontamente de argumento para lideranças diversas denunciarem uma “invasão” da Europa.

Mapa da Espanha e Marrocos, destacando Ceuta e Melilla, cidades espanholas no norte da África, e o Estreito de Gibraltar. Um mapa-múndi menor no canto superior direito mostra a localização da região em relação à Europa e África

França e Portugal despacharam tropas de reforço para a fronteira com a vizinha Espanha, onde o primeiro-ministro socialista Pedro Sánchez, que recentemente autorizou a regularização da situação de 500 000 imigrantes ilegais, virou saco de pancadas (o decreto, mesmo contemplando apenas quem está no país há pelo menos cinco meses, foi citado na mesma carta como um “fator de atração” para Ceuta). A Comissão Europeia alertou que “as fronteiras espanholas são fronteiras europeias” e passou a pressionar o país a aceitar mais agentes da Frontex, a polícia de imigração do bloco. Até Donald Trump aproveitou o ensejo para atacar a oposição democrata antes das eleições ao Congresso, em novembro. “Lembrem-se dessas imagens. A mesma coisa vai acontecer conosco se os republicanos não forem eleitos, só que pior”, bradou.

A primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, ultranacionalista eleita pregando contra os imigrantes, foi mais longe: suspendeu por um mês a aplicação do acordo de Schengen com Madri, impondo restrições inéditas à livre circulação de pessoas, um dos pilares da UE. “A Itália não ficará de braços cruzados diante de ameaças à segurança de nossos cidadãos”, declarou ela. Em nova e cabal mostra da força desse discurso, antes criticado por esbarrar na xenofobia, Meloni foi apoiada por governos de matizes diversos, da centro-esquerda dinamarquesa aos ultraconservadores da República Tcheca.

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OPORTUNISMO - Manifestação em Ceuta: militantes xenófobos se unem aos moradores
OPORTUNISMO - Manifestação em Ceuta: militantes xenófobos se unem aos moradores (Oscar Gonzalez/Sipa USA/Fotoarena/.)

A reação às cenas em Ceuta comprova que, uma década depois de mais de 1 milhão de refugiados sírios, iraquianos e afegãos cruzarem o Mediterrâneo — ponta de lança do avanço da extrema direita —, o movimento que faz subir muros físicos e jurídicos para manter estrangeiros do lado de fora veio para ficar. “A imigração não é mais um tema nacional, mas uma questão estratégica para toda a União Europeia”, diz a advogada Ana Carolina Brittes, especialista em direito migratório. Para boa parte do mundo, aliás — conectadas pelas redes sociais e estimuladas por grupos criminosos cada vez mais organizados, caravanas de desesperançados em situação crítica em seus países deixam tudo para trás e partem para outras terras, inclusive o Brasil (leia o quadro).

O gatilho imediato para o nado desesperado de milhares na África foi um parecer do Supremo Tribunal da Espanha sobre uma lei que permite a deportação imediata de gente que, tanto em Ceuta quanto em Melilla, outro território espanhol na África, consiga cruzar as barreiras postadas na linha divisória com o Marrocos. A corte argumentou que a regra não se aplica aos que chegam por mar, uma vez que não rompem, tecnicamente, nenhuma barreira. A notícia fez as redes sociais pegarem fogo no Marrocos e deu no que deu. Mal chegou, a maior parte dos estrangeiros, exausta e sem recursos, percebeu que não teria a menor chance de conseguir abrigo na cidade de 85 000 habitantes e voluntariamente voltou para casa. Para controlar a crise, Sánchez enviou o Exército a Ceuta e mandou instalar uma cerca flutuante de 500 metros de extensão no oceano para desestimular outras travessias.

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A extrema direita espanhola não perdeu tempo — políticos e ativistas viajaram para Ceuta com o propósito de divulgar e ampliar os protestos dos moradores contra a situação e contra o governo da Espanha. “Cada futuro caso de estupro ou esfaqueamento terá sido importado por Pedro Sánchez”, exagerou Santiago Abascal, líder do ultranacionalista Vox. O primeiro-ministro, por sua vez, culpou as fake news disparadas por coiotes pela “inaceitável violação da integridade territorial” e ressaltou que, na prática, Ceuta está fora da zona de Schengen: quem chega de lá, precisa apresentar passaportes e visto para adentrar a Europa.

OPOSTOS - Sánchez (à esq.) e Meloni: ela atacou o colega e fechou a fronteira
OPOSTOS - Sánchez (à esq.) e Meloni: ela atacou o colega e fechou a fronteira (Ballesteros/EFE; Marco Iacobucci/SOPA Images/Getty Images)

Não foi o primeiro, nem o segundo episódio do tipo por aquelas bandas. Ceuta e Melilla permanecem sob tutela espanhola desde o século XVI, resultado da Reconquista cristã, que retomou territórios da Península Ibérica dominados por reinos muçulmanos. Hoje, são ambas cidades autônomas, mas continuam demarcando as duas únicas fronteiras terrestres da UE com a África, solo fértil para atritos migratórios. Em 2021, 8 000 pessoas chegaram a pé a Ceuta em meio a um desentendimento entre os governos marroquino e espanhol, gerando cenas semelhantes às de agora. A diferença é que, na época, a UE apoiou o governo espanhol, enquanto agora o bloco se juntou contra Sánchez, tachando sua anistia, assinada no início do ano com o objetivo de dar impulso à economia do país, como um convite à invasão. Em resposta, o primeiro-ministro qualificou a reação europeia de “egoísta, polarizadora e ilegal” e comprovou com números que as fronteiras europeias estão sob controle: no ano passado, as travessias caíram 26% em relação a 2024, o número de irregulares na UE diminuiu 22% e as deportações saltaram 20%. “A verdade, no entanto, importa menos do que as imagens. Esta crise foi um presente para quem defende fronteiras fechadas e deixa Sánchez mais isolado”, avalia Deniz Torcu, professora de estudos culturais na Universidade IE, em Madri.

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Após os discursos inflamados, houve um ensaio de desescalada. Uma reunião de emergência na terça-feira 4 produziu uma declaração conjunta dos 27 Estados-membros afirmando que a UE é unânime em “sua profunda solidariedade com a Espanha”, enquanto Magnus Brunner, comissário europeu para questões migratórias, minimizou os problemas na cooperação (“poderia melhorar”). Mas ficou claro que as tensões devem perdurar. “Schengen é o maior símbolo da integração europeia. Ameaçar esse acordo abre um capítulo sombrio na história do bloco”, diz Alberto Alemanno, professor de direito na HEC Paris. A questão migratória será crucial nas eleições que se avizinham na Alemanha, França, Espanha, Polônia e Itália — até Meloni pode ser superada por rivais ainda mais radicais. “Para vencer, os centristas não podem dar a impressão de que estão ficando para trás no controle das fronteiras”, afirma François Gemenne, especialista em geopolítica da Universidade de Liège, na Bélgica. De portas fechadas a ideias e pessoas de fora, vai se construindo uma Europa muito diferente da sociedade acolhedora e humanitária que emergiu da II Guerra Mundial.

Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007

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