Museu de História da Cidade de Viseu - 1

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Olá, sejam muito bem-vindos. Esta é a História das Histórias. Eu sou o João Paulo Secadura e estou aqui a acompanhar Jorge Adolfo Marques, o historiador que nos vai trazer por estes segredos e estes destinos, se calhar, muitas vezes pouco conhecidos da região Centro, concretamente do distrito de Viseu. Hoje vamos falar do Museu Arqueológico do Alto Paiva. Esta semana vamos fazer um circuito por alguns museus e alguns espaços. Museu Arqueológico do Alto do Paiva, em Vila Nova de Paiva. Jorge, o que nos pode trazer este museu? Bem-vindo, boa tarde.

Olá. Hoje vamos fazer uma incursão até às chamadas Terras do Demo, que foi como baptizou Aquilino Ribeiro, e vamos até ao Alto Paiva. Apesar de serem Terras do Demo, do ponto de vista literário, é uma paisagem muito bonita, com gente muito acolhedora. É uma região muito interessante de ser visitada e, nomeadamente, o Museu Arqueológico do Alto Paiva, pois estamos na região onde nasce o rio Paiva. Rio esse que vai depois desaguar no Douro, a norte. Portanto, é um daqueles rios que corre sensivelmente de sul para norte.

Era isso que eu ia dizer, é daqueles rios que contraria a nossa visão intuitiva.

Exatamente. Portanto, corre de sul para norte, um bocado como o Nilo. Nós damos sempre o exemplo do Nilo. Mas há um outro rio, na mesma região, que também corre de sul para norte, que é o Távora. Um pouco mais a oriente, mas também corre de sul para norte. Ora, o Museu Arqueológico do Alto Paiva localiza-se em Vila Nova de Paiva, precisamente na sede do concelho, e é um museu que foi inaugurado em março de 2019. Portanto, é um jovem museu que reúne uma coleção arqueológica. É um museu de arqueologia, com uma coleção arqueológica muitíssimo importante daquela região. Claro, incidindo, sobretudo, sobre o concelho de Vila Nova de Paiva. E por quê? Porque é um território que foi muito estudado nas últimas décadas por arqueólogos, sobretudo pré-historiadores, que estudaram os seus monumentos megalíticos. O território foi inventariado desde há umas décadas a esta parte e depois alguns desses monumentos foram intervencionados. São monumentos que depois foi possível recolher um espólio importante de objetos, quer objetos líticos, quer objetos cerâmicos. Alguns monumentos foram levados para o interior do edifício onde se localiza este museu. Gostava de referir que é o edifício do Auditório Carlos Paredes, também em homenagem ao músico Carlos Paredes. Reúne um conjunto de objetos que vão desde o Neolítico, dos monumentos megalíticos, alguns deles que foram escavados precisamente no território, como a Orca de Pendilhe, a Orca de Seixas, que já fica no concelho de Moimenta da Beira, a Orca dos Juncais, um dólmen muito importante porque tem uma cena de caça a veados, onde nos esteios da câmara estão pintados essa cena de caça, em que há vários caçadores empunhando arcos com flechas, acompanhados de cães e que perseguem veados. É uma imagem muito interessante porque comprova que embora sendo já comunidades agricultoras, que produziam alimentos, mas que ainda se dedicam à caça e à recoleção no seu território. Mas também temos vestígios da Idade dos Metais, nomeadamente da Idade do Cobre, da Idade do Bronze. Isto desde o terceiro milênio antes de Cristo, até à Idade do Bronze, à Idade do Ferro. Portanto, objetos de povoados que ali existem na região, como o povoado dos Canedotes, que fica muito pertinho da sede do concelho, até ao Castro de Vila Cova à Colheira, que fica junto ao rio Covo. Esses materiais encontrados nesses locais foram levados e musealizados neste importante museu, e que depois destes períodos mais antigos da pré-história, recolhe também elementos do período romano, nomeadamente das minas da Cairiga, que eram umas minas onde se explorava ouro e estanho. Encontra-se lá uma ânfora, que era uma ânfora que foi reutilizada para ser uma urna cinerária.

Urna cinerária é o quê?

Cinerária. Onde eram depositadas as cinzas depois da cremação do corpo, quando os romanos tinham esta prática ritual, antes de passarem à fase da inumação do corpo. Um pouco à semelhança do que nós fazemos hoje.

Pô-lo no túmulo.

Na maior parte, porque hoje já voltámos também à incineração.

À cremação, exato.

À cremação. E, portanto, essa ânfora Era utilizada como urna cinerária, portanto, onde eram recolhidas as cinzas do indivíduo que foi cremado.

Isso, que tu saibas, era uma tradição? Isso acontecia?

Era uma tradição romana.

Guardar as cinzas também em ânforas. Eu associo logo as ânforas ao garum ou ao azeite ou ao vinho.

Sim, eram utilizadas também com este propósito, embora aquilo que define fundamentalmente a sua utilização era precisamente para o garum, para a pasta de peixe, para o azeite, para o vinho. Era fundamentalmente para isso. Portanto, nós encontramos estes objetos que foram recolhidos no território deste Alto Paiva, que engloba Vila Nova de Paiva, Moimenta da Beira, fundamentalmente, e que se reúnem agora ali num museu moderno, muito interativo também, muito apelativo até aos mais jovens, com discurso museográfico muito contemporâneo e que nos permite, num dia de muito calor, agora no verão, estar ali uma horinha pelo menos a apreciar todos esses objetos que contam a história desta região no período mais antigo do território e que vem até à Idade Média, no caso concreto deste museu.

Jorge, diz-me só uma coisa. Falaste desta Horca dos Juncais, a tal que tem cenas de caça de aviários e uma cena de caça com caçadores e com cães. Esta horca é visitável e ainda tem lá esses teios com essas pinturas?

Sim. Todos estes monumentos que eu referi, a Horca de Pendilhe, a Horca Grande da Serra da Nave, no planalto da Nave, já no conselho de Moimenta da Beira, mas na fronteira entre os dois conselhos, um pouco a norte de Vila Nova de Paiva, a Horca dos Merouços, das Seixas, dos Juncais, a Horca do Picoto do Vasco.

Essa também tem pinturas, não tem?

Também tem pinturas, muito importante este monumento. É um sítio extraordinário, com uma vista fabulosa sobre o território. Aliás, de lá avista-se um outro monumento que eu referi antes, que era a Horca de Pendilhe, numa zona mais baixa, em terrenos mais baixos, em bons terrenos de lameiro, zonas de lameiro, portanto, zonas onde se produzia e ainda se produz alimento para o gado e não só. Estes monumentos são todos visitáveis. Claro que temos que ter em consideração que estão numa área que impede que se vá de carro até ao monumento, ali mesmo à porta do monumento. Mas caminham-se umas dezenas de metros.

Mas também no verão, sabe bem. Jorge, é um bom convite.

Exatamente.

Para as pessoas também darem o seu passeio. É incrível.

Qualquer pessoa, sem dificuldade nenhuma, visita estes monumentos, estão muito sinalizados no território, há percursos muito bem indicados e que hoje se podem visitar com toda a facilidade.

Fica aqui este convite a visitar este museu arqueológico do Alto do Paiva, ali em Vila Nova de Paiva. Por nós, estamos conversados por hoje e amanhã vem aí outra sugestão, já estou curioso. Jorge Adolfo Marques, um grande abraço. Até amanhã.

Um abraço.