Na adolescência deixas de ser o herói dos teus filhos

🗓️ 2026-09-09 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

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Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros, mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza de que somos todos malucos. Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio do "Somos Todos Malucos". Uma nova temporada que chega agora também com o início deste ano letivo, que é um recomeço para todos nós, mas neste podcast acaba por ser uma continuidade. Nós já estamos cá há três, quatro anos que eu faço já este podcast, sempre e felizmente com o feedback positivo das conversas que passam por aqui e se calhar por isso é que ele também ainda continua no ar. Repetindo também, de vez em quando, alguns convidados que podem sempre acrescentar algo de novo às conversas. E é o caso de hoje. O Rui Marques é psicólogo, é meu amigo, é um pai viúvo de um miúdo adolescente de 15 anos e no outro dia demos por nós a falar deste desafio que é educar crianças, neste caso, educar adolescentes, impondo limites sem castrar, procurar respostas, mas também tentando ser amigos e pais ao mesmo tempo. E também as diferenças quando se faz isto sozinho com um rapaz ou quando se faz isto, como no meu caso, em casal e não com um rapaz, mas com três raparigas. Obrigado, Rui, mais uma vez por estares aqui num novo cenário. Tu só estiveste no outro estúdio, não foi?

Só.

Sim.

Só.

Só gravámos no outro.

Mas é bom estar aqui outra vez.

Muito obrigado. Olha, as pessoas já conhecem, pelo menos as que veem este podcast, acredito que sim, grande parte, já conhecem a tua história e a da Irina, que também passou por aqui pelo podcast.

Certo.

A Irina morreu há quatro anos.

Certo.

Era muito conhecida também pelo modo positivo como viveu a sua história com a doença, com o cancro. Mas eu acho que é inevitável falar nisto. Faz parte e acho que também acaba por ser, não é bem uma curiosidade das pessoas, mas é entender como é que se vive, como é que se educa uma criança quando se está sozinho. E eu li há pouco tempo um post teu em que tu referias que sentias falta do conceito de família. Claro que és uma família com o Santiago, mas que sentes falta deste conceito de família, de seres mais do que tu e o teu filho. O que tu sentes que é mais difícil?

Tudo.

Pois.

Eu também tinha essa curiosidade quando fiquei viúvo: "Como é que isto vai ser a partir de agora?" Imaginei que ia ser difícil, como é óbvio. Agora com a entrada na adolescência, acho que se tornou mais desafiante ainda, mais difícil. Mas enfim, para ir diretamente à tua pergunta: há muita coisa que muda quando somos só duas pessoas. Não deixamos de ser uma família, como estavas a dizer, e bem. E a propósito disso, até há pouco tempo houve uma petição sobre os direitos das famílias monoparentais, que acho que também é um assunto importante de se abordar e de falar, porque não deixamos de ser famílias. Mas de facto eu estava habituado a uma dinâmica e agora é outra coisa completamente diferente e há coisas que de facto me fazem falta e eu escrevi sobre isso. Essas coisas que me fazem falta são subtilezas, acho eu, do dia a dia. Coisas como, eu no texto descrevi e foi uma coisa que me caiu a ficha quando ele foi fazer a viagem de finalistas, eu fui me despedir dele. Ele estava no autocarro, eram 6h00, ia para Espanha fazer uma viagem de finalistas com os colegas da escola e eu estava lá sozinho. E olhei à minha volta e vi montes de pais, casais, pais e filhos, irmãos a dizerem adeus e a acenarem tchau e diverte. E eu estava ali sozinho, tipo: "Tchau". E não sei, parecia que faltava alguma coisa. E são essas subtilezas, esses detalhes que às vezes me custa. No início, acho que estava mais num tipo de modo de sobrevivência.

Não pensavas muito.

Não pensava muito sobre isso. E agora que as coisas, já há algum tempo que as coisas mais ou menos que acalmaram e acamaram, agora sinto às vezes essas faltas.

Sim. Além das coisas práticas. Daquelas coisas práticas que acredito de o que mudou na tua rotina acaba por ser tudo, porque passaste tu a fazer tudo.

Sim, exatamente. E o que era engraçado era que no início, apesar de ser eu a fazer tudo, o Santi ainda me acompanhava muito, porque era pequenino. Quando a mãe morreu, ele tinha 11 anos, não tinha 12 feitos ainda, e portanto acompanhava-me. Eu ia às compras, ele vinha comigo, eu ia surfar, ele vinha comigo, ia a um jantar à casa de amigos ou qualquer coisa, qualquer evento que existisse, social ou quotidiano, ele vinha comigo. E agora que é adolescente, não. O que é o normal, ele vai à vida dele, tem a sua própria identidade, a sua vida social. Se eu lhe pergunto sempre: "Queres vir às compras com o pai?" A resposta é sempre não.

Claro que não.

Portanto, vou sempre eu e os phones.

Eu estava aqui a pensar numa coisa que se calhar acaba por ser curioso, que nós quando somos um casal, às vezes discutimos quem é que faz o quê. "Eu estou a fazer mais coisas, tu também podias ajudar aqui." E depois, de repente, se calhar quando ficas sozinho, é que tu percebes que no meio disso tudo não importa quem faz o quê.

Certo.

Porque tu acabas depois por sentir saudades é do resto.

É do resto, exato. É isso mesmo.

Só que a gente só se lembra dessas merdas quando já não temos.

Quando não tens, exatamente. Sinto saudades do resto, mas também sinto saudades dessa divisão de tarefas, digamos assim, ou a partilha. Se calhar divisão não é a palavra certa. Dessa partilha de tarefas. Sinceramente, não me custa nada fazer tudo. Custa um bocadinho, mas não é nenhum feito extraordinário. Mas o que me faz falta de partilhar estas tarefas é a presença de outra pessoa, a energia de outra pessoa. Não é porque eu não consiga lavar a roupa, tratar da louça, dobrar a roupa, ir às compras, etc. Consigo fazer isso tudo, mas gosto de sentir que há a energia de outra pessoa ali.

Qual é que é o maior medo que enfrentas ao criar, neste caso, um filho sozinho?

O maior medo, não sei se há um maior do que todos os outros. Há vários medos. Um daqueles que nem era um grande medo meu, mas acho que era um grande medo da mãe dele, e então, como fiquei sozinho com ele, esse medo ficou mais real e então é uma prioridade minha, é por exemplo, o medo de comportamentos aditivos. A mãe tinha muito medo que ele viesse a consumir droga ou álcool, ficasse adicto em alguma coisa na adolescência e que isso se arrastasse para a vida adulta. Eu acho porque a Irina sentia que também ela própria tinha uma tendência para comportamentos aditivos. Ela fumava e teve muita dificuldade em deixar de fumar e ela própria tinha medo de entrar num casino, porque tinha medo de jogar e que gostasse e então não entrava. E ela tinha esta narrativa interna de que ela era muito propensa à adição, então tinha muito medo que o Santi caísse nisso. Eu nunca tive esse medo em relação a ele, mas agora parece que é mais real. Não sei se é porque ela não está e eu também sinto quase a missão de: não posso deixar que ele siga este caminho.

Ou então da idade.

Por ele e por ela. Ou também pela idade, mas esse é um dos grandes medos. Mas eu diria que se calhar, não sei se tenho tantos medos, eu quero é que ele seja feliz, e tenha um bom caráter e independentemente do caminho que ele leve para lá chegar, eu quero que ele esteja em paz. Acho que é isso.

E o medo de acontecer alguma coisa?

Já tive mais do que tenho agora. No início, tinha muito medo que me acontecesse alguma coisa. Eu pensava: "Não me pode acontecer absolutamente nada. Neste momento, o meu filho ia conseguir, claro que ia conseguir", mas na minha cabeça é: "Eu não posso deixar que isto aconteça." Hoje em dia, eu já não sinto tanto este medo.

Por ele estar mais crescido?

Se calhar um bocadinho por ele estar mais crescido, porque já passou algum tempo desde que a mãe morreu, então sinto que o luto está processado de outra maneira. Ele já teve perdas depois da mãe que eu achei que iam criar um impacto muito grande nele e afinal vi que ele lidou bem com essas perdas. Também talvez a ideia que eu próprio não sou tão vulnerável à morte, se calhar isto também é um bocado arrogante da minha parte dizer, como eu achava que era naquela altura. Imagina, agora sou capaz de ir andar de mota e ir da Ericeira até às Caldas de mota para passar o fim de semana lá em casa da minha mãe. E antes não faria isso, se calhar, com medo de ter um acidente e morrer. Percebes?

Tu chegaste com esse receio a deixar de viver uma data de coisas? Com medo de acontecer alguma coisa.

Eu não deixava de viver, mas acho que era muito mais cauteloso.

Ok.

Estava mais em alerta. Hoje em dia sou mais livre. Acho que me entrego mais despreocupado. Imagina, se calhar antigamente eu ia correr uma ultramaratona. Eu lembro que a primeira vez que fui correr uma ultramaratona de 50 quilómetros, pensei: "E se...?

Isso me dá uma travadinha.

"E se eu tiver um ataque cardíaco pelo caminho, no meio da montanha, uma merda qualquer." Hoje em dia já não, na minha cabeça é impossível. Eu não vou morrer, só vou correr e vou terminar isto e vai ser muito fixe. Sou muito mais livre, não estou tão refém do receio de te deixar sozinho.

Tu alguma vez tiveste medo da morte? Porque acho que nunca falamos disto.

Sim.

Tu és um bocado medricas. Eu lembro-me de a gente a te falar às vezes, também tens medo de algumas coisas.

Não.

No sentido médicos e coisas, não é?

Não, o que eu já fui em tempos, hipocondríaco.

Exato. Eu lembro de a gente falar disso.

Hoje em dia sou exatamente o oposto.

Por quê? Será pela história que viveste com a Irina?

Se calhar. Acho que foi um bocado também a história que eu vivi com a Irina. Acho que também é o conhecimento que eu hoje tenho.

Se calhar é um bocadinho aquela cena tipo: "Não vale a pena estar a me preocupar com essas merdas".

Exato. É um bocadinho disso tudo. Eu sou muito mais despreocupado nisso. Ter medo de morrer, sim, é lógico. Se calhar estou a falar por muita gente que não devia estar a falar, mas eu acho que toda a gente tem medo da morte. Eu uma vez tive uma conversa, estive num evento onde estava uma doula da morte e ela estava a dizer que lidava com a morte todos os dias, acompanhava as pessoas em fase terminal, e ela dizia que não tinha medo nenhum da morte. E quando chegasse a morte, chegava. Mas eu acho que isso é uma narrativa bonita e acho que todos nós acabamos por dizer isso de certa forma, mas porque nós não temos ideia que vamos morrer neste preciso momento. Portanto, nós olhamos para a morte como um evento mais ou menos distante, porque se calhar, se te dissessem agora: "Olha, neste momento, tens mais um minuto de vida. É garantido, vais morrer daqui a um minuto." Tu entravas em pânico. Há muita coisa que tu ainda querias fazer. Agora, durante este minuto, tu não querias morrer, tu ias ter medo de morrer. Tu ias querer falar com pessoas, fazer coisas, tu não ias estar tipo: "Ok, whatever. 60 segundos, fico aqui, na boa, não tenho medo. Let's go." Então eu acho que esta ideia de que não temos medo da morte vem um bocadinho da ideia distante de que a morte ainda não está aí.

Isso é como a história de nós sabermos que houve em Lisboa um sismo em 1755 e que há uma grande probabilidade de voltar a acontecer e que ninguém sabe quando é que vai acontecer e vivemos despreocupados sem pensar nisso.

Exato. Acho que é um bocado isso.

Mas na realidade, ele pode acontecer a qualquer momento.

E a propósito disso, ainda hoje, acho que nada é por acaso. Estava a ler a notícia de um indivíduo que se tentou suicidar, acho que em São Francisco, atirando-se da ponte, só que ele não morreu. Mas ele diz que quando se atirou, estava completamente convicto que não queria mais viver e que só queria morrer. E durante aqueles quatro segundos de queda até à água-

Arrependeu-se

...mudou de ideias. Foi quando ele ganhou, ele percebeu que afinal ele quer muito viver. E então, eu acho que às vezes acontece isto. Eu acho que nós não temos medo da morte porque achamos que é uma coisa mais ou menos distante, mas quando ela está iminente à nossa frente, nós não queremos e temos medo.

O gajo atirou-se e naqueles quatro segundos fez: "Ah, foda-se! Não era isto."

Mas é interessante isso.

É um grande susto.

Mas então sim, para te responder, eu tenho medo de morrer, mas não vivo refém da ideia que vou morrer.

Por que eu perguntei isso? Porque eu sempre tive esse medo. Aliás, o medo de morrer foi o mote para o meu espetáculo novo, que ainda está em cena, quem quiser ver, basta ir a antonioraminhos.pt, estão lá as datas todas.

E se calhar o mote dessa tatuagem que tens que eu vi.

E dessa também.

A que diz: "Volte já".

Do "volte já", que é o nome do espetáculo também. Volte já, da campa. Mas curiosamente, por que eu fiz esta pergunta? Porque eu relaciono-a com as minhas filhas. Eu continuo a ter medo de morrer, vou tendo medo menos à medida que elas vão crescendo. Porque é aquela ideia de não se vão esquecer de mim. Eu tinha muito medo que elas se esquecessem de mim.

Ah, é isso? Ok. Interessante.

Era por aí, de não se lembrarem do pai. Porque, por exemplo, às vezes eu penso: "Se eu morresse hoje, como é que as minhas filhas iriam reagir?" Espero eu que sofressem, no sentido que fizessem o luto, que sentissem essa falta, mas eu acho que iam ficar bem. Percebes? Por tudo aquilo que falamos e que procuro passar, iam ter a minha memória. Eu acho que era um bocadinho por aí, esse medo.

Acho que sim, eu percebo o que estás a dizer e eu senti isso com o Santi também. Na verdade, quando a mãe dele morreu, lógico, ele sofreu e bastante. Eu lembro-me, eu já falei sobre isso, acho que a coisa mais difícil que eu fiz na minha vida foi dizer-lhe que a mãe tinha morrido e foi o maior choque de dor que eu alguma vez vi na minha vida. Foi a reação dele naquele momento, mas ele ficou bem. Ficou bem por tudo aquilo que nós fomos falando e pelos valores que fomos dando. Eu acho que a minha presença também, e o amor e a segurança que ele sentiu em mim, e portanto, se tu morresses, elas iam ter isso com a Catarina, como é óbvio. Portanto, eu concordo contigo, iam sofrer, mas iam ficar bem. E eu acho que é isso que também se pretende. É que eles fiquem bem, não é suposto nós vivermos para sempre.

Sim, eu estou a pensar nisso, mas nem sempre acontece. Infelizmente, é suposto tu ires depois, ou melhor, antes dos teus filhos.

Exato.

Infelizmente, às vezes acontece o contrário. Mas a ordem natural das coisas é essa, não é? É que tu faças o teu caminho e eles depois continuam cá e fazem o deles e por aí fora.

Tal e qual.

Mas eu acredito que a Irina, tu és um pai solteiro, neste caso viúvo, mas sozinho em casa, mas acredito que a Irina ainda está sempre presente, de alguma maneira, ou não?

Está, claro, lógico. As memórias que eu tenho e que o Santi tem e que nós temos Com a Irina e com a vida que vivemos juntos como família são para sempre. Obviamente, não há tempo que apague isso. E a saudade que temos das pessoas que nos são próximas e que fizeram parte da nossa vida e que nós amamos profundamente, que foi como o caso dela, também não se apaga com o tempo. E as memórias, outro dia estávamos a conversar e perguntavas se nós mantínhamos vivas as memórias dela e foi aquilo que eu te disse: as memórias têm vida própria, elas vivem por elas. Eu não preciso fazer nenhum esforço para manter viva a memória de alguém como a Irina, que foi tão importante na nossa vida e que tanto nos disse. Elas vivem por elas próprias e essas memórias são, efetivamente, acho que eternas. Elas são verdadeiramente eternas, porque quando eu morrer, elas continuam no Santi e quando o Santi morrer, continuam nos netos do Santi, porque eu hão de ter transmitido, portanto, elas são transgeracionais. A memória da Irina vai viver para sempre, na verdade.

Sentes falta dela na educação do Santi?

Sinto, claro.

Sentes falta de alguém com quem tomar decisões?

Sinto.

Aquela coisa: "Será que eu deveria fazer desta maneira?"

Sim, muito. Eu acho que sou bom a tomar decisões, eu acho que sou capaz, mas de facto há momentos em que me questiono, faço essa pergunta: "Será que isto é o mais certo? Será que isto é o melhor? Precisava aqui de alguém para me dar uma segunda opinião."

Para assumir a responsabilidade.

Não é tanto assumir a responsabilidade, porque eu sou o primeiro a assumir a responsabilidade quando há merda. E eu acho que também faz isso de mim bom pai. Faz de mim um bom pai, porque eu quando faço merda, reconheço que faço merda e faço. E então o reconhecimento que fiz merda permite eu corrigir e fazer diferente, porque se eu não reconhecer que fiz merda e não tomar responsabilidade, eu vou perpetuar aquilo, não vou mudar nada. E, portanto, eu acho que eu sou capaz de fazer isso, mas de facto questiono. A Irina sim, faz falta nesse sentido, porque era a mãe dele. Ela conhecia o Santi como ninguém. É mãe, e não só é mãe, era uma mãe presente, porque há mães que são mães biológicas, mas não estão presentes, nem emocionalmente, nem nada, nem às vezes nem fisicamente. Mas ela era uma mãe muito presente na educação e no amor ao Santi. E por isso, lógico que faz falta ter uma pessoa como ela do meu lado para tomar decisões, às vezes difíceis, outras mais fáceis, whatever. Quando eu comecei uma nova relação, que foi pública, depois da Irina, com a Joana, eu senti que mais uma vez, consegui ter ali alguém que me ajudava também, porque a Joana ajudava-me nestas tomadas de decisões, tinha também uma visão de mãe, não é mãe do Santi, mas tem também um filho, e tem aquela energia feminina e materna que às vezes nos falta, a nós homens e pais. E então eu sentia que muitas vezes ela tinha uma perspectiva diferente da minha e que me ajudava na tomada de decisão. E por isso, sim, acho que como pai solteiro, é uma coisa que faz falta ter alguém para dar uma segunda opinião.

A quem é que recorres? A ninguém?

A ninguém.

Nem à tua mãe?

A minha mãe, não.

Enquanto avó.

Não.

Não é bom exemplo a tua mãe.

É, ela é uma excelente mãe.

É muito castiça.

É uma excelente mãe e é uma excelente avó. O Santi adora ir para casa dela, para casa da minha mãe, passar lá o fim de semana. E eles conversam imenso, falam imenso. Ela liga-lhe durante a semana, ele liga-lhe a ela, às vezes eu nem sabia. Acho que já falam mais um com o outro do que eu falo com a minha mãe, porque a minha mãe liga-me e eu passo uma semana e só uma semana depois é que devolvo a chamada.

Será que ele vai buscar aí alguma figura materna?

Vai, acho que sim. Ainda por cima, neste momento é a única, porque ele ia buscar isso também à Joana, na altura que eu e a Joana estávamos juntos. Mas agora a única figura materna é a mãe, a minha mãe, a avó dele, portanto, acho que vai buscar isso também. E a minha mãe é uma pessoa que tem muito jeito com os netos. É uma pessoa super comunicativa, é divertida, mas ao mesmo tempo séria. Não sei, acho que ela sabe buscar ele.

Sim. O que tu tens aprendido mais sobre ti que entraste nesta jornada de pai sozinho?

É que eu não sei nada.

Mas isso não precisa. Eu também tenho uma mulher em casa e também não sei nada.

Não, mas olha que eu acho que quando comecei esta jornada, eu tinha uma ideia que sabia mais do que sei.

Porque depois tu tens a tua faceta de psicólogo.

Pois, que às vezes também é uma armadilha. Exato.

Podes achar que estuda isto.

Tal e qual. Entrou na adolescência, eu pensei assim: "Não, mas eu sei, eu reconheço os sinais, eu sei como abordar estas situações."

E afinal não sabes.

É, não, estou a navegar na maionese muitas vezes. É difícil e às vezes eu penso que estou a fazer certo e estou a fazer errado, outras vezes acho que estou a fazer errado e na verdade estou a fazer certo. Eu acho que é um bocado apalpar terreno à medida que vamos indo. E é isso, eu acho que a principal virtude que nós podemos ter nestes momentos é É reconhecer quando estamos a fazer merda e tentar outra coisa diferente. E eu tentei tantas vezes mudar de rota, porque eu percebi que eu estava a ir por um caminho que não estava a dar frutos. E se eu insistisse por aquele caminho, acho que só fazia mais mossa. Então é reconhecer: "Epá, não está a dar por aqui, vou por ali, vou tentar. E se sinto que também não está a dar por ali, então vou por acolá." Vou tentando vários caminhos até conseguir.

Esta conversa que nós decidimos ter era muito sobre esta questão do que é ser pai, sobretudo neste período da adolescência.

Sim.

Mas era obviamente, conhecendo a tua história e as pessoas também conhecendo a tua história, era importante perceber também o enquadramento.

Sim.

Este enquadramento.

Claro.

Mas entrando mais nessa questão da parentalidade. Era mais fácil quando eles eram pequenos, não era?

Muito mais fácil.

É que a ideia que eu tenho, quando a malta é pai, agora eu digo sempre na brincadeira: "Não te preocupes, que isto só vai piorar."

Certo. De acordo.

Não melhora.

Piora para nós, melhora para eles.

Sim.

Sabes o que eu costumo dizer? A sensação que eu tenho, se calhar exagerado, mas é: estás a ver os países, as ditaduras?

Sim.

Pronto. As ditaduras correm bem naquele princípio. Tu mandas e toda a gente faz o que tu dizes, como tu dizes, toda a gente cumpre. Mas chega uma altura que aquilo começa a criar mal-estar e então o povo começa a se revoltar e começa a levantar a voz e depois há um golpe de Estado e tu vais abaixo. Percebes? E aquele poder que tu tinhas, o conforto daquele regime para ti, acabou. Neste momento, toda a gente se insurgiu e o sistema foi abaixo. É isso que eu sinto. Quando eles são pequeninos, a ditadura corre bem. Eles fazem o que tu queres, como tu queres, quando queres, vestem aquilo que tu queres, comes. Há momentos em que, se calhar, contestam.

Sim, mas tu levantas a voz, se for preciso, levantas a voz ou dizes algo e sabes que aquilo vai correr de certa maneira. Fazes um certo olhar e aquilo vai correr de certa maneira. E está resolvida a questão. "Mas, pai." "Mas é assim porque eu quero."

Exato.

E está feito, está resolvido.

Depois há um dia que se insurgem e acabou-se, o regime acabou. E tu ficas desorientado e percebes que é um golpe de Estado e que já não tens poder nenhum ali.

Para mim, pelo menos, o mais difícil é manter a calma. Não sei se concordas ou não.

Absolutamente.

Mas para mim o mais difícil é manter a calma.

E como é que tu fazes para manter a calma? Porque tu tens três.

Sim. Elas são todas muito diferentes.

Por isso. Mas os stresses acontecem em momentos diferentes ou se calhar no mesmo dia, com assuntos diferentes, não?

Acontecem, sim, momentos diferentes, alturas do dia diferentes, situações diferentes. E eu acho que o pior de tudo é obrigar-me a reagir de modo diferente com as três. Ainda ontem, eu ia refilar com a mais pequena e a Catarina disse-me uma coisa que foi importante, eu ia e ela disse-me assim: "Respira antes de falares." E para mim foi o suficiente, porque eu ia refilar com a miúda, resultante da conversa que tinha tido com a outra, o estresse era da outra.

Ok. E estavas mais sim.

Estava mais estressado por causa da outra. Ia falar com aquela porque estava a fazer uma asneira qualquer ou porque já lhe tinha dito qualquer coisa, mas a minha reação intempestiva era resultado da conversa que eu tinha tido anteriormente. Ou seja, é preciso fazer separadores.

Pois, por isso é que eu te perguntava, porque eu não tenho essa dificuldade, porque é só um. Então foco toda a minha energia só naquele.

Sim.

Mas é interessante o que estás a dizer, porque eu já reparei que há momentos em que eu estou estressado com outras coisas na minha vida.

Pois.

E que depois ele faz alguma coisa ou diz alguma coisa e a minha tolerância está muito mais fina. Sou mais uma granada já pronta.

Sim, mas a minha questão é, por exemplo, por serem só vocês os dois, como é que tu equilibras a história de ser amigo e ser autoridade? E ser pai, pai e amigo. Fazer essa distinção.

Não é fácil.

Ainda por cima és um cara jovial, não é?

Sim, e eu sempre tive uma relação muito próxima com o Santi, muito de amigo. Ou seja, é lógico, ele sempre percebeu que eu sou pai e ele é filho. Eu também sempre percebi que ele é filho, não é meu amigo, não é meu colega da escola, não é meu melhor amigo. É meu melhor amigo, mas como filho. Mas fazíamos tantas atividades lúdicas juntos, porque às vezes há pais que não fazem, mas eu por acaso fazia. Andávamos de skate juntos, surfávamos juntos, jogávamos basquete juntos, portanto, havia uma série de coisas lúdicas que fazíamos muito juntos e que iam para além do brincar. Ou seja, já são coisas, atividades desportivas, por exemplo, em que fazíamos os dois a mesma coisa com mais ou menos o mesmo nível, já ultrapassa a brincadeira, então já é uma coisa quase mais de amigo do que propriamente um pai a brincar aos Legos ou a montar Legos com o filho. Estás a ver?

Sim.

E eu acho que isso às vezes também fez com que as águas ali se misturassem e ele próprio não percebesse muito bem os limites. Aí tive que ser eu, em certos momentos, relembrar-lhe: "Olha, atenção, eu não sou teu colega da escola, eu não sou teu amigo da escola, há coisas que tu não podes falar assim comigo ou não deves fazer isto ou não deves fazer aquilo assim comigo, porque eu sou teu pai." Isto para responder, não é fácil. Agora, com um adolescente, na verdade, eu acho que até é mais fácil do que quando ele era mais pequenino, porque ele próprio também já separou um bocado as águas. Ele ao entrar na adolescência também acabou por se desagregar da minha identidade, criar a própria identidade dele e perceber: "Eu tenho a minha crew, tenho os meus amigos, tenho as minhas atividades, são diferentes das tuas e das tuas coisas." Então ele próprio realizou: "Tu és meu pai, eu sou teu filho, somos amigos, mas não somos besties."

O que ao mesmo tempo para nós, se calhar, acaba por ser um luto.

Sim.

Porque tu deixas, de certa maneira, de ser o herói.

Sim.

Não é?

Sim, senti isso. Por acaso foi das coisas que me custou mais no início. Logo no início, que eu comecei a sentir esse desapegar de mim e ele a criar a própria identidade, a ouvir a música dele e deixar de ouvir a música que nós gostávamos os dois e começar a usar um corte de cabelo que eu próprio não gostava nele, mas que ele gostava e a roupa que ele queria usar já não era a roupa que eu achava que ficava-lhe muito bem. Ou a mãe achava que ficava muito bem. Aos poucos ele começou a fazer isso e é natural que no início tu penses: "Mas ele não confia nos meus gostos, ele não gosta das minhas coisas. Mas eu já não sou o cool dad, eu já não sou o pai fixe. Ele já não gosta de mim, ele já não quer estar comigo." Então tens que perceber que sim, já não és o Rei Sol da vida dele. Mas quando tu percebes que isso é ele a ganhar asas por ele próprio e ele a criar a sua própria identidade para ser a sua própria pessoa. Eu pelo menos senti isso. Senti uma espécie de admiração.

Sim, tipo: "Fogo, está..."

"Olha para ele, está a crescer, está a ficar um homem bonito, está a ficar um homem com caráter, com a sua própria cena, com os seus próprios gostos." De tal maneira que ele até há pouco tempo, porque ele está naquela fase escolar em que vai decidir a área que vai seguir, estávamos a conversar sobre o que é que ele gostava de seguir e ele disse: "Eu por acaso acho superinteressante a psicologia." E até fui eu que disse assim: "Santi, mas tu não tens de seguir psicologia porque o pai seguiu psicologia. Tu podes seguir a tua própria cena." E ele disse assim: "Não, mas não é porque tu seguiste psicologia, é porque eu de facto gosto muito de ajudar as pessoas, sinto que consigo ajudar as pessoas, consigo perceber porque é que as pessoas fazem certas coisas. E eu acho isso interessante e por isso é que eu acho que é uma área interessante, não é porque tu fazes." E eu fiquei mais descansado. Portanto, agora até sou eu que admiro que ele faça a sua própria cena e não faça as mesmas coisas que eu faço.

Sim, é interessante essa questão desse luto. Como eu tenho três e acabam por ser três gerações, se bem que a mais velha tem 15, a outra tem 13 e a pequenina tem 10. De 10 ainda é muito a que está mais ligada a nós. As outras já vão também criando a sua identidade, o seu estilo e tendo a sua vida. Mas eu acho que às vezes, se calhar, há pais que quando começa a surgir esse afastamento, podem levar isso para uma cena pessoal, tipo de: "Não gosta de mim." Eu nunca senti isso. Eu nunca senti isso, não foi por me darem provas. Eu procuro sempre nas minhas interações, seja em questões de problemas ou o que quer que seja, eu procuro sempre lembrar-me de como é que eu era. Por exemplo, a mais velha agora passa bué, clássica adolescente, bué tempo no quarto. Enfia-se no quarto.

Sim, igual.

Ouve música e whatever. É a casa dela. E eu às vezes estou na sala e penso: "Fogo, esta gaja parece que vive sozinha."

Exato.

E tento pensar assim: "Como é que eu era quando era puto?" Eu era igual. E eu sei que isso não queria dizer que eu não gostava dos meus pais.

Isso mesmo

Não é pessoal.

Exato. Eu sinto exatamente a mesma coisa.

Faz parte do processo.

Eu vejo que, por exemplo, eu estava-te a ouvir falar sobre elas e o meu filho é igual. Entra no quarto, fica no quarto o tempo todo fechado, sai para ir jantar, acaba de jantar, levanta-se, eu fico sozinho na mesa, pede com licença, vai à vida dele, volta para o quarto. Entra no carro, sempre que eu vou dar boleia para os treinos, etc., põe os fones, eu sou tipo um Uber para o gajo. O gajo vai no carro com os fones, faz a viagem, sai. Só não ganho dinheiro com isso.

Exato.

Não era mal pensado.

Isso era fixe, o Uber de adolescentes.

Podes crer. Eu sou o MB Way dele. Às vezes eu recebo uma chamada dele. No início, tocava o telefone e dizia-

E tu pensavas: "Já houve porcaria."

Não. Na altura era tipo: "Santi!" E eu ficava superentusiasmado: "O meu filho está-me a ligar." E ele: "Pai, podes mandar um código MB Way para eu levantar dinheiro?" E então, começou a ser um bocado, eu sou o MB Way dele e agora quando toca, eu já sei que ele precisa de um código de MB Way para levantar dinheiro, para comer ou para lanchar com os amigos ou whatever. Mas está tudo bem. Mas é o que tu dizes e está certo. E há uma terapeuta, que é a Lisa Damour, especialista em adolescência, que diz exatamente a mesma coisa, que é: pensar sempre não é pessoal Não é que eles não gostem de nós, não é que não nos queiram bem, é a cena deles, são adolescentes.

Mas não é nada fácil.

Não.

Já me passei muitas vezes, sobretudo com a mais velha. E depois é essa desvantagem, neste caso, para ti também porque é filho único e no meu, porque eu vou vivendo as experiências também pela primeira vez. E é essa a desvantagem, tu vais vivendo as coisas sempre pela primeira vez. Tens o primeiro filho, vives o que é ser pai pela primeira vez e os primeiros desafios, etc. Há sempre os primeiros desafios. E na adolescência é a mesma coisa, tu estás a viver os primeiros desafios. Se calhar, com a segunda ou com a terceira, já vou perceber certos sinais de certas coisas: "Ok, como é que eu fiz?" Mas tu estás a fazer tudo pela primeira vez, é tudo uma experiência nova. E por isso é que eu procuro tentar lembrar: "Como é que eu era? Como é que a minha mãe, se calhar, lidou também determinadas situações?" Porque eu sou o terceiro filho, ou quarto filho, tive um irmão que morreu, mas eu nasci depois e eu sou o terceiro filho. Os meus pais já tinham vivido as experiências com os meus irmãos.

Exato.

Portanto, se calhar, já estavam também muito mais relaxados.

Pois.

Por exemplo, a cena passiva ou agressiva, a mim fazia-me muita confusão até eu perceber. Passar-se da cabeça do nada. "Está bem, então não queres?" E depois passar de cinco minutos já estava tudo fixe. Isto fazia-me uma confusão do caraças. Eu não sei se com ela é assim ou não, mas as minhas, sobretudo as mais velhas, é isto: querem qualquer coisa, eu digo: "Não." "Nunca deixas e não sei o quê. Não posso fazer nada e não sei o quê." E eu: "Sabes que isso não é verdade. Na realidade, tu podes fazer muita coisa, mas eu acho que isso não dá jeito, não consigo ou whatever." Passado cinco minutos: "E se fôssemos..." Passa num instantinho.

Sim.

E era difícil para mim perceber como é que se passava. "Esta gaja não se lembra que há cinco minutos me estava a insultar?"

Exatamente.

"E agora está tudo espetacular."

Exatamente. Acontece a mesma coisa. Se calhar com o Santi, eu não sinto que aconteça tanto essa flutuação, mas também acontece. Eu lembro-me que nós tivemos uma vez uma discussão até bastante acesa e séria, e já no fim da discussão, ele no meio da frustração toda dele, virou-se para mim e disse: "Odeio-te, és o pior pai do mundo." Disse-me coisas que eu nunca tinha ouvido e nunca esperava ouvir do meu filho. E eu naquele momento olhei para ele e disse assim: "Olha, sabes de uma coisa, filho? Estou muito feliz de me teres dito isto. Muito feliz, porque o facto de sentires que me podes dizer que me odeias e que eu sou o pior pai do mundo, teres a liberdade de dizer isso, significa que confias tanto no meu amor que sabes que eu não vou embora. Sabes que eu nunca te vou virar as costas, que não te vou rejeitar, mesmo que digas a pior coisa que me podes dizer. E isso é tudo. Confiares no meu amor dessa maneira, é tudo. E eu estou feliz. Obrigado por teres-me dito isso." Ele ficou completamente desarmado. Mas isto para te dizer, nesse mesmo dia, exatamente, nem foi no dia seguinte, nesse mesmo dia, mais ao final do dia, ele disse: "Pai, és o melhor pai do mundo, amo-te muito, obrigado por tudo o que fazes por mim." E ele, horas antes, no mesmo dia, tinha dito: "Odeio-te, és o pior pai do mundo." Portanto, sim, essa cena passiva ou agressiva e essa mudança repentina de opiniões, acho que faz parte.

E há uma questão que eu acho que tu, enquanto pai, aprendes desde novo, ou que é importante aprender desde novo, é que há muito amor na palavra não.

Muito.

Em dizer não.

Sim.

Não podes ou não deves fazer isto, ou não quero que faças isto. É importante tu teres essa capacidade e não ter medo de dizer não.

Exato. E sem embelezar o não. Sabes o que eu vejo? Vejo isso muito à minha volta nos outros pais. Pais que têm muita dificuldade em dizer que não, mas que eventualmente vão ter que dizer, porque ninguém passa por esta vida sem dizer que não a um filho. Mas a forma como dizem o não, embelezam tanto os argumentos à volta do não.

Não, porque sabes...

Justificam tanto e há pouca assertividade no não e pouca clareza no não. Então é um não "mei ni", e os miúdos também percebem que é um não, mas não é um não muito certo. Então, às vezes negoceiam com isso ou até usam isso para poder manipular de acordo com os seus interesses. Não é por mal, mas é para ir de encontro aos seus interesses. E eu vejo que as pessoas têm muita dificuldade, mesmo quando dizem que não, porque têm que dizer que não, de dizer um claro não. E eles muitas vezes vão dizer aquilo que as pessoas disseram: "Mas nunca deixas nada e isso é injusto e não sei o quê." E às vezes é: "Mas eu não quero que tu faças isto ou não vais fazer isto, porque isto é o melhor para ti, neste momento." Ponto final. Eu não tenho que estar a embelezar e arranjar uma hora ou 30 minutos de argumentação para explicar porque eu estou a dizer que não.

Eu noutro dia, a esta altura, nós estamos a gravar isto ainda no início do verão Portanto, começam as saídas. E praia, e saídas com os amigos, e não sei o quê. E a minha mais velha no outro dia estava a dizer, imagina, tinha saído quinta à noite e tinha saído sexta à noite, era sábado e queria ir sábado à noite. E eu estava a dizer assim: "Não podes sair todos os dias." "Mas por que eu não posso ir todos os dias se estou de férias?" Eu assim: "Porque tu tens 15 anos e não podes sair todos os dias." "Mas por quê? Se nós não vamos fazer nada." E eu a tentar explicar: "Porque existe uma família, há um conceito de família, e o simples existir e estarmos juntos em casa faz parte do conceito de família. E é por isso que tu não podes sair todos os dias." E ela não estava a encaixar esta ideia. E eu tive que dizer: "Pronto, não sais. Não estás a entender, mas não vais sair. Não pode estar a sair todos os dias."

Tem que ser um bocadinho mais assertivo e ser claro no não.

E não quer dizer que há outros pais que se calhar podem sair todos os dias, não há estresse nenhum, mas na minha cabeça não faz sentido sair todos os dias. E não é que haja uma justificação, eu não ia dizer plausível. Lá está, não há esse embelezamento de conseguires arranjar aqui uma justificação, "não, porque vamos fazer isto", ou ter que arranjar desculpas, tipo: "Não, porque eu estou a pensar que vamos jantar e vamos fazer isso." Não, porque é assim.

Porque eu quero-te em casa, eu quero estar contigo agora, neste momento. Mas eu também percebo a situação, eu percebo a posição delas, deles. Porque repara, também, o que nós nos habituamos a dizer quando eles estão na escola? "Não podes sair porque amanhã tens aulas ou para a semana tens aulas." Então na cabeça deles é: "Então agora se não tenho aulas, posso sair todos os dias." Mas nós também preparamos esse caminho para eles ouvirem estas coisas.

É por isso que eu te digo, eu vou buscar sempre muito à minha adolescência e às experiências, porque lá está, os nossos pais fizeram muita asneira, mas também fizeram muita coisa bem, tal como nós vamos fazer muita asneira e fazemos muita asneira e algumas coisas haveremos de acertar. E eu lembro-me quando eu era puto, por exemplo, lá está, agora praia, e vão jantar à casa de amigas e vão dormir em casas de amigas e no dia a seguir: "Por que vais dormir à casa da tua amiga?" "Porque amanhã de manhã vamos para a praia outra vez." Portanto, e eu fico naquela: "Não vou deixar." Mas depois penso: "Espera aí, eu coitado dela, eu aparecia em casa à noite para jantar e era quando aparecia para jantar. E estava tudo bem." Portanto, é também às vezes lembrar-nos um bocadinho daquilo que nós fizemos e se calhar ter consciência de que tínhamos essa vida e mesmo assim, não estava subjacente aquela ideia de eu estou a fazer isto para fazer porcaria. Não, estávamos simplesmente a conviver. Não íamos fazer nada de mau por fazer essas coisas.

Mas isso não significa que não possa haver regras, percebes? O que eu tento explicar ao Santi é: estávamos a falar da ditadura, vamos imaginar uma democracia. A democracia traz com ela a liberdade, portanto, tu podes fazer mais ou menos aquilo que queres, mas há regras. A democracia para funcionar, não pode ser também 100% livre arbítrio para toda a gente. Ou seja, tem que haver regras, tem que haver leis para que tudo consiga funcionar bem. E essas regras e essas leis são balizas, são linhas orientadoras para nos ajudar a ser mais felizes. Não é suposto serem castradoras como numa ditadura, mas são supostas a nos ajudar a encontrar equilíbrio, eu acho. Então eu tento que o Santi perceba isso, é tipo: "Ok, tu és livre de fazer estas coisas, mas há regras, há limites." Porque imagina se tu me agora dizes: "Porque eu não tenho aulas amanhã, então eu posso sair todas as noites até às 04:00 da manhã, se eu quiser." "Não, não podes." "Mas qual é o problema? Se eu no dia seguinte não tenho que acordar cedo, posso dormir até ao meio-dia." "Ok, mas não te faz bem. Eu não quero, não é isso que vais fazer." Portanto, há regras. Podes ser livre de fazer algumas coisas, mas há regras mínimas. Não podes estar de domingo a domingo a dormir fora de casa, só porque estás de férias e porque o amigo vive mais perto da praia. Percebes? Não faz sentido, então não vens para casa, nunca. Ou seja, ele até pode dizer: "Mas qual é o problema? Eu apeto na mesma, ligo-te na mesma, posso ir à casa buscar roupa e depois volto para casa de um amigo." Eles podem arranjar N argumentos que qual é o mal? Não estou a fazer mal a ninguém, não tem escola. Então e vais deixar o teu filho estar fora de casa todos os dias?

O Eduardo Sá disse uma coisa que eu nunca mais me esqueci. Ele diz que é na adolescência que os pais começam a desistir dos filhos. E faz sentido, porque é muito cansativo. Porque é na altura em que eles começam a arranjar capacidade argumentativa, capacidade de justificar as coisas, têm essas atitudes passivo-agressivas e eu percebo perfeitamente porque é que há pais que desistem, entre aspas, dos filhos na adolescência, porque é muito difícil. Tu estás num constante embate que muitas vezes é desnecessário.

Sim, eu percebo isso. Eu acho que é preciso abrir mão de controle, que acho que também há pais que desistem. Não sei se é só da tensão que existe, porque também há tensão quando os miúdos são pequeninos.

Sim, mas sentem aquela coisa de não consigo fazer nada dele.

Exato. Mas repara Quando eles são bebés e crianças também não conseguimos fazer nada deles. No fundo, eles fazem o que querem, gritam aquilo que querem, mas há um outro sentido de controle sobre eles. Aqui não, porque já há uma certa independência. Percebes? Imagina um bebé ou uma criança muito pequenina que faz uma birra tremenda e tu não tens controle sobre aquela birra, porque ela continua a chorar, grita e atira-se para o chão. Ela não diz a qualquer momento: "Olha, mas eu vou sair de casa e não volto."

Exato.

E tu dizes: "Não, não vais." Um adolescente diz-te isto, o que é que tu vais fazer? Vais prendê-lo à cama, concordas?

Pois.

Vais ficar refém em casa todos os dias a olhar para ele à espera que ele não saia? Não, vais ter que sair eventualmente da vossa casa e rezar para que ele naquele momento não decida sair com uma mochila às costas e fugir de casa. E tu não sabes onde é que ele vai. Portanto, há uma perda de controle. E acho que muitos pais desistem na adolescência, porque sentem que se perderam o controle sobre aquela pessoa, então já perderam tudo. E eu acho que não é isso que acontece, na verdade. Eu acho que nós temos que abrir mão do controle, mas estar presentes.

Sim. E vigilantes.

É isso. Mas se eu estiver presente, eu estou vigilante. Percebes?

E mesmo assim, nós estávamos a falar disso há bocado, não é garantido que as coisas corram bem.

Não, não é. Depois eu acho que também há aqui um elemento de sorte.

Era isso que nós estávamos a falar. Lá está, eu cresci nos Olivais, nos anos 80. Eu tenho muito orgulho de ser dos Olivais. Mas era um bairro tramado. Era uma mescla de pessoas de vários meios. Tive muita droga naquele bairro, muita heroína. E eu tinha o meu grupo de amigos, alguns estão bem, outros já morreram, outros tiveram vidas mais complicadas. E eu penso: em que fase é que eu decidi que não queria ir por determinados caminhos? E não consigo encontrar o momento que eu tenha dito: "Ai, não, eu não quero nada disto." Terá sido pela educação? Não sei, porque lá está, acredito que sim, mas os meus pais também não sabiam o que eu andava a fazer. Porque eu ia para a rua e andava lá a curtir com os meus amigos. E, portanto, houve ali qualquer coisa, um clique qualquer que fez com que eu não fosse por determinados caminhos, mas também não te sei dizer o que é que foi.

Sim, eu concordo contigo.

Portanto, por muita boa educação que tenhas, porque eu também conheço outros, tive amigos que eram filhos de advogados, de juízes, ou o que quer que seja, e depois foram por caminhos mais complicados.

Sim, também eu. E falávamos ainda há pouco. Eu conheço pessoas que três filhos do mesmo casal tiveram todos mais ou menos a mesma educação, as mesmas oportunidades, os mesmos desafios. E uns seguiram um caminho complicado e um dos irmãos não. Um caminho completamente diferente. O que é que faz um seguir um caminho e outro, outro? Não sei. Eu acho que é um bocadinho de tudo, obviamente, há um bocadinho de genética, há um bocadinho de trauma, há um bocadinho de experiências adquiridas, de educação, é um bocadinho de tudo. Mas há também um elemento de sorte e acho que há um elemento aleatório e qualquer, que também nos escapam, porque repara, se fosse uma coisa tão fácil de entender e de controlar as variáveis, ninguém tinha problemas. Percebes? Eu tinha que arranjar outro emprego. Os psicólogos não existiam, os terapeutas não existiam, as prisões não existiam, os centros de reabilitação não existiam, de adições.

Basta evitar isto e a pessoa fica bem.

Mas nós não sabemos. Percebes? Não é só boa educação, não é só más companhias ou boas companhias, não é só sorte, é um bocadinho de tudo e não se sabe muito bem o quê. E o que é que faz um seguir um caminho e outro, não sabemos. Porque se soubéssemos, conseguíamos prevenir tudo isto.

Porque lá está, até tu tendo consciência e sendo vigilante e falando com, neste caso, seja com o teu filho ou com um amigo do teu filho, tu percebes que não está a ir por um caminho seguro. E tu dizes: "Olha, eu já passei por isso" ou "Eu já vivi isso, sei que isso vai te trazer problemas." A derradeira decisão é sempre dele.

Sempre.

Isso é uma grande merda.

O que é que o leva a tomar uma decisão em vez de outra? Não sabemos ao certo. Isto é o que eu tento fazer. Eu tento fazer o melhor que posso e o melhor que sei. Eu tento não ser demasiado controlador, mas também não posso ser demasiado despreocupado e deixar tudo nas mãos dele. Tento lhe dar ferramentas para ele conseguir lidar com as coisas que a vida lhe vai atirar. Além das ferramentas que eu lhe dou, a própria vida já lhe deu algumas ferramentas. Ele teve que passar por um trauma brutal com a perda da mãe. Não fui eu que escolhi pôr-lhe isso em cima da mesa, como é óbvio, ninguém escolheu isso para ele, mas foi uma coisa que ele teve que lidar e aprendeu muito, eu acho, com isso também. Eu tento fazer o melhor que posso, dou-lhe as ferramentas que tenho, mas depois é um bocado rezar que dê certo.

Ele, por exemplo, tem alguma revolta em relação ao que aconteceu à mãe ou não?

Nunca, nenhuma.

Porque às vezes pode acontecer isso.

Pode, mas no caso dele, não.

De abandono.

Não, nunca sentiu revolta. Ele lida muito bem com a morte, já teve situações de morte depois da mãe, que foram significativas para ele, e ele lidou muito bem. Tem amigos que perderam os pais entretanto, e ele é sempre uma pessoa que dá apoio, que fala, conversa e dá força. Não é um miúdo amargurado nem angustiado com isso. E nunca o ouvi dizer: "Tenho um azar do caraças" ou "Tive um azar do caraças e por que os outros têm pais ou mães e eu não tenho?" Nunca se revoltou, mesmo na entrada na adolescência. A única coisa que eu senti quando ele entrou na adolescência, em relação a esse assunto da morte da mãe, foi que a certo momento eu comecei a senti-lo muito triste e com sinais que pareciam já muito-

Depressivos.

Pré-depressão. E voltou para a terapia, que acho que também ajudou imenso, porque ele tinha um terapeuta. Eu também estava muito presente e eu tentava falar com ele, ele não se abria muito, mas houve uma altura que ele depois acabou por partilhar. Então, o que aconteceu foi, repara, quando a mãe morreu, ele tinha 11 anos. Há muitas coisas que quando ele tinha 11 anos que ele não se questionava. A mãe morreu, teve câncer, estava doente. Não há muito mais a dizer. Aceitou de uma forma também muito mais natural. Quando ele entra na adolescência, ele agora revisita esse acontecimento agora com novas questões típicas da adolescência. Por que ela morreu? Como é que eu fui enquanto filho? Será que eu fui um bom filho? Será que eu causava estresse? Será que eu contribuí para que a doença piorasse porque eu se calhar enervava-a? E ele chegou-me a dizer isto. Houve novas questões que apareceram juntamente com a adolescência que fizeram ele questionar aquele acontecimento, que à partida parecia que estava resolvido internamente, mas não estava. E percebi que havia ali um sentimento de culpa, e ele próprio disse que se sentia culpado, que achou que às vezes fazia coisas que enervava a mãe e também acabou por confessar que tinha receio de não ter vivido muita coisa com a mãe. Tivemos uma boa conversa nesse momento, expliquei-lhe que não, que a mãe não morreu por causa de qualquer estresse ou irritação, que ela possa ter sentido em momentos que ele possa não ter arrumado o quarto ou aquelas coisas quotidianas. E ao mesmo tempo também fiz uma coisa que acho que foi muito importante, eu relembrei-o que ele tinha vivido muita coisa incrível comigo e com a mãe, e em particular com a mãe, neste caso.

E eu acho que ele tem uma vantagem, ou melhor, estas gerações têm uma vantagem, nem que seja só pelas memórias, que é as fotografias, os vídeos.

Era aí que eu ia chegar, exatamente. E o que eu fiz? Fui ao Instagram dela e escolhi os posts que ela tinha escrito especificamente sobre ele e sobre a vida em família com ele e connosco.

Isso é muito fixe.

E comecei a ler e disse: "Estás a ver? Eu vou te ler as coisas que a mãe escreveu sobre ti e sobre nós, e as coisas que nós vivemos." E depois mostrei-lhe as fotografias de férias, quando fomos aqui, fomos acolá, as nossas atividades até quotidianas, no dia a dia. Fui mostrando tudo e eu senti que isso acalmou. E eu depois até lhe disse: "Olha, tu segues o Instagram da mãe. Então sempre que tu tenhas dúvidas, sempre que esta coisa te inquieta, vai ao Instagram da mãe, vai ler os posts que ela escrevia sobre ti, vê as fotos que ela tirou contigo. Ela foi muito feliz durante o tempo que ela viveu contigo. Ela amava-te mais que tudo no universo e na vida e, portanto, ela foi muito feliz contigo. E tu foste também muito feliz com ela. É normal que à medida que vais ficando mais velho, algumas coisas começam a dissipar na memória, mas felizmente podes sempre vir aqui ver e lembrar-te o quão importante tu foste para a mãe, o quão ela gostava de ti, o quanto ela gostava de ti e o quanto nós éramos felizes, os três. E isso era exatamente o mesmo que ela quereria para ti hoje em dia, igual."

Sim, eu acho que isso é uma vantagem do caraças.

Sim. E eu sempre fui uma pessoa que também registei muito, felizmente. Eu já tive muitos comentários no Instagram, pessoas a mandarem mensagem dizendo: "Tu tens imagens tão lindas e tens fotografias tão lindas e vídeos tão bonitos e não sei o quê, vossas." E eu lembro-me que na altura que eu gravava estas coisas, e às vezes eu gravava momentos, detalhes, eu não sou muito de tirar fotografias ou filmar pose. "Olha, fiquem lá, agora vamos tirar uma fotografia aqui à frente do Palácio de Versailles." Não, eu não fazia muito isto. Havia momentos, detalhes, às vezes eles estavam distraídos e eu gravava tipo 3s de vídeo ou tirava uma fotografia ou whatever. E tenho muitas coisas destas que depois compiladas são lindas porque são momentos supernaturais, detalhes da nossa vida juntos. E eu lembro-me que na altura as pessoas criticavam-me. Houve tanta gente que me dizia: "Estás sempre com o telefone na mão, aprecia o momento e não sei o quê." E eu dizia sempre: "Mas eu estou a apreciar o momento." Não é por eu tirar o telemóvel, estar a gravar durante 3s ou 4s esta viagem de barco com o vento a bater no cabelo, o cabelo a voar ao vento. Não é por isto que eu não estou a viver o momento. Eu estou a viver o momento. Eu gosto de registar as coisas. Isto é uma maneira, para mim, também de eternizar a memória. E juro-te, muita gente criticava isso. E é das coisas que eu mais orgulho tenho de ter feito e que não me arrependo nada de ter feito. E agora é o contrário. Muitas pessoas dizem: "Quem me dera ter tanta coisa." Eu sempre registei assim e gosto. Ainda bem, porque eu agora tenho uma herança de imagens e de momentos, mas particularmente de momentos, que o meu filho pode revisitar sempre que quiser.

Sim, isso é muito fixe. Mas em relação à adolescência, acho que há aqui uma coisa diferente, e que eu não sei como é que será, porque tu tens um rapaz, eu tenho raparigas, que é exatamente quando começam os interesses amorosos. Não sei como é que vou lidar com isso.

Eu posso dizer como é que eu lido, porque comigo já começaram.

Mas é diferente.

Mas por que é diferente?

Porque é uma mulher.

Em que sentido?

O sentido é aquele clássico, eu sou homem, eu sei o que é que os gajos pensam.

Percebo.

É um bocadinho isso. É um estereótipo.

Os gajos são os malandros e elas vão ser vítimas. Estás a dizer que o meu filho é um malandro? Se o meu filho sair com a tua filha, não.

Não, tem uma vantagem, podemos falar sobre isso à vontade.

Pois, exato.

"Olha, fala lá com o puto, porque eu quero saber o que é que eles andam a fazer."

Exato.

Mas é essa cena. É um estereótipo, como é óbvio, mas é a cena de nós acharmos que os rapazes querem é quantas mais gajas melhor.

Sabes o que eu acho sobre isso? Eu acho que isso é um estereótipo da nossa geração.

Achas? Não sei.

Ou então o feedback que eu tenho recebido do meu filho e dos amigos dele não é bem esse.

Que são apaixonados?

São. E até se inverteu um bocado.

Elas é que são umas grandes badalhocas?

Não, não diria badalhocas. Mas eu vejo, hoje em dia, uma geração de miúdas da idade do Santi, que-

Querem é curtir

...querem é curtir e estar com vários namorados e ter várias experiências com vários rapazes. E não têm vergonha nenhuma disso, e até têm orgulho disso. E eu acho que isso é muito mais aceitável hoje do que era, se calhar, na nossa altura.

Era o contrário.

O nosso estereótipo era um bocado assim, que os putos eram os malandros. Hoje em dia não acho isso. Com o meu filho, ele fala sobre as relações, as paixões e o "gosto desta, não gosto desta", etc. Mas felizmente ele fala de uma forma mais ou menos natural comigo. Nunca de uma forma muito profunda, porque lá está, não somos amigos, não somos besties.

E tu nunca vais saber tudo.

Eu não vou saber tudo, também não é suposto e também não estou à espera que ele abra o jogo todo comigo, nem sei se isso sequer é saudável. Portanto, eu reservo sempre a privacidade dele. Ele sabe que sempre que quiser pode falar comigo, naquilo que ele quiser. Eu respondo sempre dentro daquilo que eu acho que é o razoável. Eu nestas coisas das relações amorosas digo sempre a mesma coisa. Para mim o mais importante é que ele seja sempre respeitoso e que todas as decisões sejam consensuais, não só na relação emocional em si, não forçar ninguém a gostar dele ou ser namorada dele, porque às vezes podem entrar em situações de chantagem, depois falam mal de um ao outro e depois tentam minar a imagem de outra pessoa, seja na parte sexual de quando iniciam vida sexual, as coisas têm que ser consensuais. Ninguém tem que fazer nada contrariado, um não é um não, seja do rapaz ou da rapariga, porque também há esta ideia que só as raparigas é que podem dizer que não, mas um rapaz também pode mudar de ideias a meio da cena. Ou antes de começar, também pode pensar: "Não estou à vontade para isto acontecer agora". E é importante que ele perceba que ele tem o direito de dizer isso e ela tem o direito de dizer isso, e a qualquer momento que há um não, para, acabou. Isto na parte física. Na parte emocional, a mesma coisa, as coisas têm que ser consensuais e com respeito. Eu acho que isso, para mim, são os valores principais. Agora, que ele vai sofrer por amor, vai.

Isso é suposto.

Que ele vai fazer sofrer por amor, vai. Vai partir corações, vai ter o coração dele também partido, vai se desiludir, vai achar que a vida dele terminou e não faz mais sentido. E depois vai perceber que afinal foi o maior disparate ter pensado isso. Tudo isso é a viagem dos namoros de nós.

Já te apareceu alguma namorada lá em casa?

Já. Ele não assume como namorada.

"Minha amiga".

"A minha amiga". Mas isso a culpa também é minha, porque eu também tive "amigas".

Exato. Para seguir o exemplo.

Não, é sério. Eu lembro-me que no início, a primeira pessoa com quem eu estive depois da Irina ter falecido, ele perguntava: "Mas ela é tua namorada?" E eu dizia: "Não, é minha amiga". Aliás, eu disse: "É minha amiga", e ele disse: "Ok, a tua amiga". Ele é que fez as aspas.

Lá em casa também ainda não apareceu nenhuma, mas também é essa liberdade e sobretudo respeito. E é isso que eu digo, não é só ele respeitar-te, tu tens que respeitar o rapaz ou rapariga com quem estiveres. Respeitar, para mim isso é o mais importante. Respeito, consentimento. Aqui talvez um bocadinho ligado a essa ideia, infelizmente, como tu estavas a dizer, um rapaz também pode dizer não, mas aqui os números mostram isso, há sempre nos casos ou de violência no namoro ou São mais perpetuados pelos homens.

Exato.

Isso são factos. E há uma coisa que eu faço questão de dizer, que é: a partir do momento que algum rapaz ou algum namorado te obriga a fazer algo, ou te diz que algo tem que ser assim, ou que tens que te vestir desta maneira, ou que diz que a vida dele depende de tu gostares dele, isso é um sinal que a coisa tem que acabar ali.

Certo.

E que não há volta a dar.

Certo.

Eu sei que eu estar a dizer isso, se calhar, não vai valer de grande coisa, mas eu acredito que se alguma delas-

Vale. Acho que vale

...mas se alguma delas passar por isso, eu acredito que isto ao menos esteja lá.

Sim, elas vão se lembrar das tuas palavras.

Que se vão lembrar, de alguma maneira, isso. A importância de se, de alguma maneira, há uma violência ou uma tentativa de controle e há um pedido de desculpas a seguir, esse pedido de desculpas, e a ciência e a psicologia mostram isso, geralmente não é verdadeiro.

Não, lógico. Às vezes é uma forma de manipular.

É outra forma de manipulação.

Exato.

E é isso que eu procuro lhe dizer: "Vocês têm que ter o olho muito aberto".

Mas estás a ver, eu acho que fazes um bom trabalho nessa comunicação e nessa educação.

Mas ao mesmo tempo, lá está, dar-lhes a liberdade pra experimentarem o que tiverem que experimentar.

Exato. Mas eu acho que o principal trabalho é junto dos rapazes. E por isso é que eu tento fazer esse trabalho com eles.

Mas isso é uma merda, porque eu não tenho rapazes.

Não está nas tuas mãos. Nas tuas mãos está empoderar as tuas filhas e dar ferramentas às tuas filhas para conseguir marcar a sua posição com assertividade e com confiança. Mas acho que mais importante do que isso, porque de facto, como tu dizes, e bem, os números da violência no namoro demonstram que são mais perpetuadas por rapazes sobre raparigas, homens sobre mulheres, o trabalho tem que ser com os rapazes. E esse trabalho tem que ser feito em casa desde que eles são muito pequeninos, e foi uma coisa que eu sempre fiz com o Santi, e que infelizmente eu ainda vejo. Eu tenho amigos meus que eu ouço fazerem comentários completamente estúpidos. Não deixam de ser meus amigos por isso, mas são comentários estúpidos e quando eu os ouço, eu digo que são estúpidos. Quando os miúdos são pequeninos: "É um grande garanhão, olha, tens as miúdas todas aos teus pés". Isto começa logo aqui.

Sim.

E às vezes os miúdos têm três, quatro, cinco anos e já estão a ouvir isto.

Sabes que eu tinha uma piada de stand-up, que não imaginas a quantidade de vezes que eu já ouvi isso.

Sim.

Tipo: "Ai, tens três filhas?" Ou: "Tens uma filha? Olha que eu tenho lá uma em casa pras tuas". Estás a ver? Esse tipo de coisas.

Esse tipo de coisas. Então, isso tem que ser desmontado e tem que ser desmontado pelos pais e os encarregados de educação dos meninos. Entendes? E por isso é que eu digo sempre ao Santi: "Nas relações, o mais importante é o respeito e o consentimento. Ponto final. Não há nada que tu devas fazer que seja contra a vontade da outra pessoa. Total respeito por ela, total respeito por ti próprio também". E isto é uma coisa que ele aprendeu desde muito cedo e muito pequeno. Se ele vai sempre tratar bem uma rapariga, não sei. Se vai ser sempre respeitososo, não sei. Eu não sei, mas eu quero acreditar que todas as ferramentas que eu lhe estou a dar é precisamente para que nunca exista sequer a mais pequena dúvida da rapariga que estiver com ele, que ela não é livre de fazer o que quer, como quer, quando quer.

E o cometer erros, lá está, todos cometemos, mas eu acho que tu ao transmitires essas ideias, mesmo que se cometa um erro, é ter a capacidade de aceitar que se cometeu um erro. Eu estou a pensar, por exemplo, nessas questões do respeito. Imagina que tem uma namorada. Ou a minha tem um namorado ou uma namorada, whatever. Está com essa pessoa, mas de repente pode se interessar por outra, e ter uma corte no meio e estar a enganar a outra. Isso, obviamente, é um erro, mas o reconhecer o erro e o saber falar sobre isso e o poder aceitar que se cometeu um erro, nesse registro, também é um sinal de crescimento.

Claro.

E eu acho que passa dessa mensagem. Agora, eu acho que, por exemplo, quando um rapaz ou uma rapariga é violento perante um namorado ou uma namorada, eu acho que aí já envolve outras questões. Acho eu, não sei, que já apresenta outros problemas, de alguém que não teve realmente um background. Eu não acredito que o teu filho alguma vez vá ser violento com uma mulher.

Também não. Eu também acredito que não.

Pode acontecer, mas eu duvido. Mas eu acredito que se acontecesse, ia ser muito estranho.

Exato.

Mas também se calhar acredito que ele ia perceber isso.

Exato.

Mas não estou a ver.

Não sei, eu também não.

Nem estou a ver uma filha minha ser violenta ou com um namorado ou com uma amiga, de partir pra violência e pra agressão.

Exato.

É neste sentido que eu digo que se calhar quando um puto adolescente tem estas questões, se calhar há muita coisa que não está a ser feita em casa.

Sim, sem dúvida. Eu acho que há aí muita coisa que está errada num rapaz ou numa rapariga, não estamos a falar da violência dos rapazes sobre as raparigas, para chegar a esse ponto. Mas acho que a disfunção, não diria que é exclusiva da educação, mas é em grande parte da educação e começa desde pequeno com ideias e narrativas misóginas.

E daquilo que vê em casa.

Machistas.

Se calhar já assistiram violência em casa.

Exato, se calhar até já assistiu, mas mesmo que não assista violência direta, ele percebe A forma como o pai visualiza a relação com as mulheres e a visão que ele tem das mulheres. "Tenho lá este para ti", este tipo de comentários, ou: "O meu filho é um grande garanhão, tem as gajas todas que quer, ele é que sabe". Todo este discurso misógino acaba por criar, mesmo que não seja diretamente violento. Ninguém está a dizer assim: "Puto, quando for assim, tu dá-lhe uma chapada ou agarra pelo cabelo." Não, ninguém está a dizer isto, mas o discurso e a narrativa é um discurso e narrativa misógina de uma assimetria de poder entre homem e mulher e de um desrespeito pelos direitos da mulher. E eu acho que isto tem que mudar logo desde que eles são pequenos. Porque um homem não é mais homem por causa disso, pelo contrário, acho que é um frouxo, na verdade. E é isso que infelizmente tem acontecido muito através das redes sociais e do manosphere e esta propagação destes ideais. Mas eu fico feliz de perceber, e fui percebendo isto aos poucos, que eles não são a maioria. Parece que são, porque há muita gente a seguir.

E por estar nas redes, lá está, ganha dimensão.

É muito visível e alguns destes gajos têm YouTubers e Instagramers, etc. Influencers, porque de certa forma também influenciam. Têm muitos seguidores, mas não são a maior parte. Eu já falei com o meu filho sobre algum destes gajos, dos Andrew Tates e dos números desta vida. Já falei com ele sobre isto e ele acha que eles são ridículos. E os amigos do meu filho a mesma coisa. Portanto, obviamente, essa amostra também é muito pequenina, o meu filho e os amigos dele, mas daquilo que eu vou percebendo, não é a maior parte. Mas infelizmente ainda existe e acho que tem que ser desmontado e estes gajos têm que ser mesmo erradicados. E quando eu digo erradicados não é matá-los, obviamente, mas erradicados das redes sociais e da construção social do que é ser um rapaz ou um adolescente ou um homem hoje em dia.

O que é que tu transmites ao teu filho que achas que faltou na tua própria educação?

Porra.

Eu sei o que é que-

Tanta coisa. Amor de pai, porque eu não tive. Da forma como eu dou o amor ao meu filho é exclusivo. Portanto, foi uma coisa que eu não tive, que eu dou a ele. Presença. Eu fui miúdo que vivi muito sozinho, no sentido que vivi muito tempo sem a minha família nuclear, fui para um colégio, vivi com os meus amigos do colégio, basicamente, era a minha família na altura. Depois via os meus avós ao fim de semana, etc. Fui sempre um miúdo muito independente desde muito cedo, desde os nove anos de idade. E então, por um lado, isso foi bom. Essa independência trouxe-me também, se calhar, já as bases da resiliência, da capacidade de lidar com a adversidade. Mas ao mesmo tempo trouxe-me carência de segurança.

Claro, um porto de abrigo.

Porto de abrigo, exato. Achei sempre que o meu porto de abrigo sou eu e ponto final. Vou ter que me desenrascar. Acho que depois em adulto aprendi a ser de outra maneira e então hoje em dia eu sou muito defensor da ideia que ninguém faz nada sozinho e que precisamos todos uns dos outros e amor, etc. Mas o meu filho não cresceu assim. Portanto, o meu filho cresceu com uma família desde que nasceu, até à perda da mãe, mas enfim, depois da mãe morrer continuou comigo e até com a Joana na altura quando estávamos juntos e depois da Joana sair da nossa vida como casal, porque ainda somos amigos, continuou da mesma maneira. O meu filho sempre viveu porto seguro conosco. Portanto, é uma coisa que eu não tive da mesma maneira que lhe dou a ele. Ou que demos a ele, se calhar demos.

Eu, por exemplo, acho que no meu caso é a capacidade de podermos falar sobre tudo e de dizer que nos amamos, que é uma cena que não existia muito no nosso tempo.

Também, exato.

Sobretudo essa capacidade de dizer: "Amo-te, eu gosto de ti, eu adoro-te". E o falar, o poder falar sobre as coisas.

Mas isso que tu disseste agora sim, muito importante. Bom ponto que tu tocaste aí, o dizer amo-te, o dizer que amamos as pessoas. Eu nunca ouvi isso de ninguém. Até a minha mãe, que me ama muito.

Claro.

Eu não me lembro. Mãe, desculpa .

Também posso dizer que não é exclusiva.

"Sorry, mom".

Não é exclusiva.

Eu sei que tu me amas muito.

Eu acho que os nossos pais foram todos assim.

Mas ela não verbalizava muito.

Mostrava de outra maneira.

Hoje verbaliza mais.

Exato.

Mas na altura não, e é uma coisa que eu sempre disse muito ao meu filho: "Amo-te muito." À mãe também. Dizia todos os dias. E é engraçado que o meu filho também, do nada, às vezes durante o dia, vira-se para mim, olha para mim e diz: "Pai, amo-te muito." Assim do nada. E então ficou essa liberdade de expressar. E eu lembro-me que quando a Joana e o filho dela, que também se chama Santi, curiosamente, viveram conosco, eu tinha essa atitude também com o filho dela. Então eu também lhe dizia: "Amo-te muito, és um miúdo incrível, porque é. E tenho muita sorte de ser teu amigo e tu seres meu amigo, obrigado pela tua presença na nossa vida." Eu era muito grato a isso e verbalizava muito isso. E eu acho que isso é importante, nós enquanto pessoas. E lá está, agora voltando ao manosphere Enquanto homens, porque há também esta ideia que as mulheres dizem isto, mas os homens não podem ser tão vulneráveis ou tão soft para se expressarem assim, especialmente com um enteado, neste caso, que nem sequer era meu filho. É um erro. Eu acho que os miúdos têm que aprender a ouvir que são amados e que são apreciados. E nós, enquanto homens, não deixamos de ser homens por dizer: "Amo-te muito e estou grato por teres na minha vida".

Ficamos frouxos.

Eu sou tudo, menos frouxo. Eu digo muitas vezes: "Amo-te muito e tenho muito orgulho em ti e obrigado por estares na minha vida". É isso.

Sim, eu acho que é sobretudo isso. Enquanto estavas a falar, estava-me a lembrar disso. Essa ideia que pode tornar as pessoas moles ou os homens moles ou as crianças moles, ouvirem essas coisas, ou tentar protegê-las de algumas coisas. Por exemplo, as minhas filhas têm liberdade para experimentar o que quiserem, seja em termos de experiências com outras pessoas, seja de desporto, seja o que for. Quando vão, por exemplo, sair com amigos, eu claro que fico preocupado e dou as minhas recomendações: "Tenham atenção a isto e aquilo", mas deixo-os ir. Ou seja, não é por lhes dar amor e carinho e falarmos sobre isso, que elas se vão tornar mais frouxas.

Claro que não.

Ou que temos que criar esse distanciamento para elas serem rijas, porque o mundo é muito difícil e nunca vão ouvir das pessoas: "Eu amo-te".

É o contrário. Amor fortalece as pessoas. Amor é uma energia incrível, fortalece. Amor é o que move tudo. Eu acho que demonstra frouxidão, não sei se essa palavra existe, quando temos medo de amar e quando temos medo de dizer "amo-te".

E medo de falar das coisas.

Medo. A frouxidão está aí, está nesse medo. Se tens coragem para dizer "amo-te", se tens coragem para dizer: "Eu amo esta pessoa, eu sou grato por esta pessoa", isso é uma força tremenda.

Sim. Por isso é que, para mim, é o ponto essencial, é falar, porque eu acho que faltou tanto isso em minha casa, podermos falar sobre as coisas. E não era que eu tivesse sequer consciência. Não é aquela coisa: "Ai, não posso falar sobre isto". Era tipo, não falavas.

Sim, era só assim, era a realidade.

Tu não falavas sobre as coisas.

Exato. Em casa era a mesma coisa.

Eu acho que, por exemplo, ter a liberdade, se eu vejo uma filha minha que está com ar preocupado e eu perguntar: "O que se passa? Está tudo bem?" E ela: "Epá, não, tive isto na escola" ou "Aconteceu-me isto" ou "Estou preocupada com uma nota" ou "Hoje fui treinar e não correu bem o treino". É do caraças tu teres essa possibilidade. E eu fico grato. Ainda há pouco tempo, as questões da frustração. Uma das minhas filhas teve uma prova, e a prova correu-lhe mal. E ela saiu da prova a chorar. E eu não fui lhe dizer: "Olha, já passou, não chores". Eu disse um bocadinho aquilo que tu disseste de quando o Santi disse que te odiava. Eu disse: "Ainda bem. Não me interpretes mal, eu vou te explicar, mas eu estou grato e estou feliz por tu estares aqui a chorar, a falar disto". E ela ficou assim a olhar para mim e eu estava a dizer: "Porque é importante tu sentires essa frustração. É importante tu sentires que as coisas não correram como tu querias, mas também perceberes que não veio nenhum mal ao mundo. Que a vida segue, não há nada que vá mudar".

A vida segue, não termina ali.

A vida não vai mudar por causa disso.

Exato.

E segues. E vai te acontecer mais vezes. E tu à medida que vai acontecendo mais vezes, tu vais aprendendo a lidar melhor com isso.

Exato.

E isto não existia.

Pois não.

Não existia esta merda.

Não. Eu acho que isso é importante. O Santi teve essa lição e eu também, logo de forma hardcore com a morte da Irina, mas é isso: a vida segue. O nosso coração vai partir, nós vamos chorar, mas vamos seguir. E o que nos ajuda a seguir é de fato esse amor e a capacidade de estarmos cá uns para os outros. É isso.

Para terminarmos, o que é que tu queres que o teu filho se lembre de ti quando ele for adulto?

Boa pergunta.

Ou quando fores velhinho e tiveres partido. Imagina o teu filho adulto, pode ser com filhos ou não, mas com os amigos, como é que gostavas que ele falasse de ti?

"Foi uma pessoa que esteve sempre lá para mim". É isso que eu gostava que ele se lembrasse sempre. "O meu pai esteve sempre lá para mim".

Sim, acho que é isso. A mim surge aquela coisa do: "Era o meu melhor amigo", mas isso é uma falsa ideia.

Exato. Não, o meu pai esteve lá sempre para mim, no bom e no mau, nos meus melhores momentos e nos meus piores momentos. O meu pai nunca foi embora.

Sim, acho que é por aí.

Eu ficava muito feliz que ele se lembrasse de mim dessa maneira.

E com um sorriso, para mim.

Isso.

Que se lembrasse sempre com um sorriso e quando pensasse em mim, eu gostava que elas não pensassem com saudade de dor. Aquela saudade que às vezes tu vês pessoas a sentirem dos pais, tipo partiu. E é por gostarem das pessoas, por terem sentido essa falta, mas eu gostava que elas se lembrassem de mim com um sorriso E com boas memórias apenas. Que eu continuasse presente.

Posso te dizer na perspectiva de alguém que perdeu alguém importante na vida. Isso vai inevitavelmente acontecer. Da forma como tu és para as tuas filhas, o dia que tu partires, que tu morreres, vai chegar o momento que elas vão se lembrar de ti dessa maneira. Mas é um processo, leva tempo. No início, é a dor, não há volta a dar. Só que essa dor transforma-se com o amor, e é isso que tu tens presente na vida com elas, é amor. Esse amor vai permitir que esse sentimento de perda meia sufocante e meio dolorosa, e quando se lembra, chora, mas chora de tristeza, se transforme depois numa saudade boa de memórias com sorriso na cara. E às vezes até podem surgir lágrimas, mas são umas lágrimas meias nostálgicas, mais do que melancólicas. Nostálgicas de uma saudade boa e não uma melancolia, uma saudade triste.

Sim. Olha, Rui, muito obrigado por mais esta conversa. Foi a maior que nós tivemos.

Foi? Sabes que eu sou das maratonas e das ultramaratonas.

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