Na Região Vinhateira do Douro há uvas a mais e stocks por escoar. Como se chegou aqui?
Do excesso de uvas à dificuldade de escoamento face à quebra de vendas do vinho, até ao disparar dos custos de produção e perda de rentabilidade dos viticultores, a crise que se instalou no Douro.
A crise no Douro não é de agora. Há 26 anos que as vendas de vinho do Porto recuam, enquanto a área de vinha aumentava para reforçar a aposta nos vinhos tranquilos com Denominação de Origem Controlada (DOC) Douro. A oferta cresceu, mas o ritmo do mercado não acompanhou, deixando um excedente de stock que o território já não consegue escoar. A cada vindima, cava-se um fosso cada vez maior entre os viticultores que não conseguem vender as uvas para lá do “benefício”, e os comerciantes que asseguram não ter mercado para lhes comprar mais.
O diagnóstico é unânime entre os vários protagonistas da fileira do vinho ouvidos pelo ECO/Local Online, desde o comércio à produção até ao território, onde grande parte dos 18.000 viticultores vive da vinha. E numa região Vinhateira que, em 2025, gerou cerca de 365 milhões de euros em vendas de vinho do Porto e 235 milhões de euros de DOC Douro, menos 0,2% e menos 1,5% do que no ano anterior, respetivamente, de acordo com dados do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP) divulgados em maio.
Adrian Bridge, CEO da The Fladgate Partnership, em entrevista ao ECO
Ricardo Castelo/ECO
Comecemos por Adrian Bridge, CEO da Fladgate Partnership, que recua ao ano de 2000 para explicar como a mais antiga região demarcada do mundo chegou a esta “crise existencial”, como a classifica. Na sua opinião, o desequilíbrio entre a oferta e a procura, que foi ganhando escala ao longo dos anos, encontra raízes precisamente no facto de a vinha ter crescido mais depressa do que o ritmo do mercado vitivinícola conseguiu acompanhar. “Desde 2000 a área de vinha do Douro aumentou cerca de 25%“, sobretudo a par da expansão dos projetos de vinhos DOC Douro, calcula o empresário.
Durante algum tempo, os vinhos tranquilos funcionaram como uma espécie de almofada para absorver parte das uvas produzidas e compensar a quebra de vendas do vinho do Porto, um dos grandes embaixadores internacionais de Portugal, também conhecidos como vinhos generosos ou fortificados.

Entretanto, esse segmento de mercado também começou a perder terreno, não resistindo a um contexto económico internacional de incerteza. “No final de junho deste ano, estávamos com quebras superiores a 10% também nos DOC Douro”, revela ao ECO/Local Online António Filipe, presidente da Associação das Empresas de Vinho do Porto (AEVP).
Já “as vendas de vinho do Porto estão hoje cerca de 34% abaixo do nível de 2000″, assinala, por sua vez, Adrian Bridge, dono do grupo que detém marcas de vinho do Porto como a Croft, Fonseca ou Taylor’s e outras de vinho de mesa, apoiado em números divulgados pelo IVDP.
As vendas de vinho do Porto estão hoje cerca de 34% abaixo do nível de 2000.
António Filipe, da Symington Family Estates — um dos maiores grupos produtores de vinho do Porto, tal como a Fladgate Partnership –, estima mesmo que, “na última década, as vendas [do fortificado] tenham recuado, em média, mais de 100 milhões de euros por ano”. A razão é simples, enfatiza: “Nós vendemos menos porque os mercados estão a consumir menos“. Entre os socalcos de videiras e aquilo que o mercado consegue absorver abriu-se um fosso que não pode ser ignorado nem tampouco empurrado para a vindima do próximo ano.
A gestão de stocks e a aposta em vinhos com indicação de idade — 10, 20, 30 ou 40 anos — foi outra estratégias dos grandes operadores para tentar amortecer a queda das vendas do vinho do Porto, segundo conta António Filipe. Mesmo assim, a região — que até tinha conseguido produzir mais e encontrar novos mercados, além de armazenar o que não vendia — esbarrou num mercado mundial em retração. Enquanto isso, na paisagem íngreme de socalcos da região Vinhateira continuou a produzir-se mais uvas e, garantem os dois empresários, em excesso.
“Estamos a produzir mais uvas do que aquilo que necessitamos para vender vinhos do Douro e do Porto. Estamos em crise no sentido em que há uma sobreprodução”, alerta António Filipe. E é este desequilíbrio que, na sua leitura, está a estrangular o setor.
António Filipe, COO Symington Family Estate
A campanha deste ano, que começou 15 dias mais cedo do que é habitual, não é exceção. “Há quem diga que iremos produzir à volta das 240 mil pipas de uvas de vinhos DOC Douro e do Porto”, quando seriam necessárias entre 180 mil e 190 mil para responder às vendas, aponta o presidente da AEVP. Portanto, nota, “o excedente rondará os 20%”.
E é esse excesso que, em plena vindima, bate à porta dos viticultores e dos operadores de forma preocupante. Há uvas para colher, mas nem todos os grandes operadores as querem ou podem comprar.
É aí que reside parte do protesto de muitos viticultores que ganha eco na voz do presidente da Casa do Douro, Rui Paredes, quando denuncia que vários agricultores já receberam cartas das grandes empresas exportadoras a informar que não pretendem comprar mais uvas além das contratualizadas para o “benefício”. Este sistema, que fixa a quantidade de mosto generoso que cada produtor do Douro pode destinar para vinho do Porto, ganhou um peso decisivo na sobrevivência económica dos agricultores. E acaba por ser a tábua de salvação de muitos deles.
Nós vendemos menos porque os mercados estão a consumir menos
Mas António Filipe, em representação das empresas de comércio do setor, rejeita a ideia de que sejam apenas as grandes casas exportadoras a fechar a porta aos viticultores. “O fenómeno é transversal” às grandes, médias, pequenas empresas e até cooperativas“, assegura ao ECO/Local Online, explicando que “o comércio não consegue comprar aquilo que não consegue vender”, sob pena de colocar o negócio a crédito.
“Uma empresa que gaste mais do que aquilo que recebe, acaba por colocar em causa a sua própria sobrevivência. E temos empresas para gerir, além de salários, faturas a fornecedores, juros e empréstimos bancários a pagar”, argumenta o presidente da AEVP.
O ministro da Agricultura e do Mar também já reconheceu a fragilidade económica de muitos viticultores, a existência do desequilíbrio entre a oferta e a procura, o aumento dos níveis de stocks, a pressão sobre o preço pago pelas uvas e a fragmentação da estrutura produtiva. Falta agora saber quando será travada esta crise que Manuel José Fernandes diz ter herdado do anterior Governo.

É neste contexto que “o benefício” continua a ser uma das principais fontes de rendimento dos viticultores, apesar de o valor pago pelas uvas ficar muito aquém face à escalada dos custos de produção, sublinha, por sua vez o presidente da Câmara Municipal de São João da Pesqueira.
Há cerca de duas décadas que o preço das uvas destinadas a vinho do Porto se mantém nos mil euros por pipa de 750 quilogramas (550 litros), apesar da subida dos custos de produção, denuncia o autarca Manuel Cordeiro. Já as uvas destinadas a DOC Douro podem valer 150, 200 ou, no máximo, 400 euros por pipa, um valor ainda mais irrisório, contesta o edil que também tem uvas para vender.
A agravar, aponta, o “benefício” tem vindo a descer das 104 mil pipas em 2023, para as 90 mil em 2024 e as 75 mil em 2025, numa quebra em três anos de 29 mil pipas. A exceção à regra é este ano: o IVDP autorizou a produção de 76 mil pipas de vinho do Porto na Região Demarcada do Douro, o equivalente a 57 milhões de quilogramas de uvas. Mas não o suficiente para tranquilizar os agricultores que dizem ser o “elo mais fraco” da cadeia comercial. “Só a região do Douro contribui com cerca de 44% do valor total das exportações portuguesas de vinhos“, realça o presidente de câmara.
Só a região do Douro contribui com cerca de 44% do valor total das exportações portuguesas de vinhos.
Já do lado das operadoras, Adrian Bridge contesta o sistema do “benefício” há mais de duas décadas, por entender que limita a possibilidade de transformar as melhores uvas em vinho do Porto, precisamente numa altura em que o crescimento do setor depende cada vez mais das categorias de maior valor. Em 2025, contabiliza, a Fladgate Partnership faturou 60 milhões só no setor dos vinhos do Porto e DOC Douro.
Perante este cenário, o presidente da Casa do Douro, Rui Paredes, teme que muitas uvas voltem a ficar ao abandono nas videiras, como aconteceu em 2024 e com tudo o que esta decisão acarreta para a sobrevivência económica do viticultor e da região. Depois de meses de árduo trabalho no campo e dinheiro investido, podem não ter quem lhes compre as uvas. “Estamos a entrar num processo muito dramático”, avisa.
Esta preocupação é partilhada pelo autarca de São João da Pesqueira que receia que a falta de escoamento e de rendimento torne a vinha economicamente inviável para muitas famílias, conduzindo ao abandono das vinhas, com graves impactos económicos e sociais para um território classificado como Património Mundial da Unesco.
Estamos a entrar num processo muito dramático.
À quebra do consumo e perda de rendimento dos pequenos e médios viticultores, o presidente da Casa do Douro acrescenta o aumento dos custos de produção e as alterações climáticas. Soma ainda a pressão das campanhas contra o consumo de álcool e aquilo que Rui Paredes considera ser uma crescente desvalorização do vinho no discurso público. Vindima após vindima, os sinais está lá todos para formar a “tempestade perfeita”, alerta.
Este diagnóstico é unânime entre os quatro entrevistados pelo ECO/Local Online que defendem uma intervenção cirúrgica urgente para curar um Douro há muito “doente”. “Não é possível manter o passado, e esperar que daqui a dois ou três anos as coisas mudem e que tudo volte ao normal”, avisa, por sua vez, António Filipe, na liderança da AEVP.
O viticultor “desprotegido”
Já Rui Paredes recua aos anos 1990, quando a Casa do Douro que preside perdeu peso e capacidade de intervenção no mercado e de defesa do viticultor, para explicar como é que a região chegou a este cenário crítico. Nessa ocasião, nota, “o viticultor ficou, de alguma forma, desprotegido“, elucidando que, “durante anos a instituição ajudava-os a saber o que produzia, vendia e como vendia”.
Depois, vieram os anos 2000. Mudou o consumo, o negócio do vinho e também a própria região. “A vinha cresceu, os vinhos tranquilos ganharam espaço e o vinho do Porto foi perdendo mercado“, recorda Rui Paredes. A crise foi-se instalando vindima após vindima, até chegar a uma situação que considera insustentável.
Ainda agora o responsável diz-se de mãos atadas por a instituição não ter “condições financeiras e administrativas para poder trabalhar”. Resta-lhe fazer pressão junto do Governo que já tem na sua posse, garante, “uma solução para 2027 desenvolvida pela Casa do Douro“, cujo teor não adiantou.

“Excesso a nível global”
A explicação não se esgota, porém, no excesso de oferta nem sequer é um problema exclusivo da Região Demarcada do Douro, avisa, por sua vez, António Filipe em representação das empresas de vinho do Porto e DOC. “Há excesso de uvas a nível global. Há claramente um excesso sistemático da produção sobre o consumo”, realça.
Os números ajudam a perceber a dimensão do problema. O consumo global de vinho caiu 2,7% no ano passado para 208 milhões de hectolitros, atingindo mínimos de 1957, assinala, por seu lado, Adrian Bridge. Ainda assim, Portugal teve “o maior volume de consumo alguma vez registado”, como já divulgou a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) este ano.
Na realidade, enfatiza o CEO da The Fladgate Partnership, “não há muita gente com dinheiro no bolso”, associando a quebra do consumo à perda de poder de compra e à incerteza económica.
A agravar esta pressão no Douro Vinhateiro, há uma maior concorrência entre regiões vinícolas mundiais, e somam-se os impostos sobre bebidas alcoólicas, as novas exigências de rotulagem, concordam os dois empresários.
Os custos de financiamento mais elevados, num contexto económico agravado pela inflação e pelas tarifas impostas pela Administração Trump, e por uma sucessão de guerras e conflitos, tornaram o negócio ainda mais imprevisível.
Os Estados Unidos são particularmente importantes nesta equação. Adrian Bridge aponta para uma “quebra de 26,6% nas importações de vinho pelos EUA, em valor, no primeiro semestre de 2026”, num contexto em que as tarifas terão levado consumidores e distribuidores a adiar compras. Face a este problema, o CEO de The Fladgate Partnership defende que cabe ao Governo português pressionar a administração norte-americana para eliminar essas tarifas. Ainda que no seu caso, frisa, a queda seja ainda mais acentuada no mercado do Dubai devido à tensão no Médio Oriente.

Tudo isto alimenta uma “tempestade perfeita” num mercado mundial em retração, resume Adrian Bridge. O CEO de The Fladgate Partnership coloca, assim, a tónica num dilema cada vez mais difícil de resolver e que não se pode adiar: “Se continuarmos a produzir mais uvas do que a nossa capacidade de vender, para onde vai todo este vinho?”.