China: Plano reduz espaço para petróleo do Brasil até 2030 - 21/08/2026 - Igor Patrick - Folha
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, confirmou na segunda-feira (17), ao lado de Lula (PT), a descoberta de petróleo no poço Morpho, na Foz do Amazonas. Coincidentemente, no mesmo dia a China publicou a parte do novo plano quinquenal que trata de petróleo e gás. São 16 páginas em nove capítulos com mudanças que devem impactar o mercado energético (e as exportações) do Brasil.
A alfândega chinesa registrou 5,03 milhões de toneladas de petróleo vindas do Brasil em março, alta de 154% em um ano. Segundo o Conselho Empresarial Brasil-China, os chineses levaram 57% das exportações brasileiras em valor no trimestre, contra 45% em 2025. O salto colocou o país em quinto lugar entre os fornecedores da China no ano passado, atrás apenas de Rússia, Arábia Saudita, Malásia e Iraque.
O documento responde à pergunta sobre a origem do óleo até 2030 com uma lista quase inteiramente interna. Fixa oferta doméstica de 440 milhões de toneladas equivalentes de petróleo, manda erguer sete bases produtoras estratégicas e exige reposição consistente de reservas cuja dimensão ninguém sabe exatamente.
Pequim também determina bases de carvão para líquidos e gás em Ordos, Yulin, Zhundong e Hami, classificadas como reserva de capacidade e de tecnologia. O plano manda ainda encolher o parque de refino e, ao mesmo tempo, preservar folga (classificada como "camada industrial de amortecimento da segurança petrolífera"), e fixa o pico do consumo chinês de petróleo dentro deste quinquênio.
Mas surpreendente mesmo foi o pouco destaque dado à importação. O tema, crucial nas últimas décadas para sustentar a indústria, ficou restrito a um capítulo de um parágrafo só.
China, terra do meio
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A ausência do Brasil poderia ser atribuída ao estilo e à pouca especificidade do texto, mas o anexo do próprio documento desmente essa leitura. Dos 16 projetos de duto listados, dois cruzam a fronteira, e os dois trazem gás russo —a linha do Extremo Oriente até Shijiazhuang e a duplicação do trecho entre Heihe e Daqing.
O economista Lin Boqiang, da Universidade de Xiamen, resumiu a lógica do documento como um esforço para "derrubar a dependência externa de petróleo e gás". Parece protocolar, mas é resposta direta ao risco escancarado pela crise no estreito de Hormuz.
A China importou 578 milhões de toneladas de cru em 2025, alta de 4,4%, e o consumo entra em platô, não em queda. O instituto de pesquisa da CNPC, a maior estatal chinesa do setor, projetou em fevereiro dependência externa em torno de 70% até 2030.
Mas derrubar não vai significar zerar, e o barril brasileiro não será expulso do mercado chinês. A consequência direta, então, será menos imediata, concentrada na perda da rota de crescimento dos últimos dois anos. Estamos nos posicionando para disputar um volume que vai parar de subir em breve.
A instrução do plano que toca o Brasil de forma mais direta é a de otimizar a carteira de ativos no exterior. A própria CNPC e a CNOOC, outra estatal chinesa, já são sócias da Petrobras no pré-sal, com 5% cada uma em Búzios e 10% em Libra e Mero. Otimizar carteira significa decidir onde ampliar e de onde sair.
A margem equatorial é a resposta da Petrobras ao próprio pico, projetado para 2028, com 2,7 milhões de barris de óleo equivalente por dia e recuo a 2,6 milhões até 2030. Morpho entra em avaliação no mesmo intervalo em que o maior comprador do país planeja seu platô e fará a revisão intermediária das metas de médio e longo prazo.
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