Na terra guarani, futebol transcende a dimensão esportiva - 18/09/2026 - Txai Suruí - Folha

🗓️ 2026-09-18 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

O futebol brasileiro sempre foi gigante. Gigante antes das bets, gigante apesar delas. As recentes polêmicas mostram que o esporte que deveria salvar vidas, para muitos tem se tornado um caminho de destruição. Não é possível aceitar que o futebol dependa de um sistema de financiamento sustentado pelo vício em jogos e por tudo de ruim que ele causa às famílias. O futebol é para salvar, não para acabar com a vida de ninguém.

Mas se há um lugar onde o futebol ainda significa salvação, esse lugar é a Terra Indígena Jaraguá, em São Paulo. Ali, para as mulheres guarani mbyás, o futebol transcende a dimensão esportiva. Ele se constitui como território de resistência, espaço de afirmação identitária e instrumento de luta política.

O time feminino Xondarias Guarani (guerreiras, em guarani) utiliza o campinho da aldeia não apenas para o lazer, mas para defender seu modo de vida no contexto urbano paulistano.

Para as mulheres indígenas, o futebol é um espaço de reconhecimento. Como afirmou Roseane
Reté, curadora da exposição "Jaraguá Kunhangue Ouga’a – O Jogo das Mulheres do Jaraguá", realizada no Museu do Futebol, e ela própria jogadora: "Os homens já possuem o espaço e o reconhecimento deles no futebol. A mulher não indígena tinha pouco espaço e começou a crescer agora. Então imagina como é para a mulher indígena, que não tem espaço nenhum? E agora aqui vamos mostrar não só o futebol, mas também a cultura indígena, nossas tradições e nossa vida dentro da aldeia".

O futebol tem desempenhado um papel transformador na construção da liderança dessas mulheres. A professora Jandira Martim expõe isso: "O futebol me ajudou no meu posicionamento, na minha visão como mulher".

Para comemorar seus dez anos de existência, o Xondarias Guarani realiza neste sábado (19) o Torneio Xondaria Guarani, evento que traz reflexão para os times do entorno sobre racismo e fortalecimento das mulheres. Jacileide Martins, sua organizadora, nos diz que "o futebol é um momento de lazer, de bem-estar, onde as mulheres podem compartilhar suas dores e alegrias umas com as outras. Mas é também um espaço de luta contra o racismo". Martins conta que diversas vezes, quando foram jogar com times de fora da aldeia, sofreram preconceito, xingamentos e até ameaças.

Apesar dos avanços, as jogadoras guaranis enfrentam desafios significativos. Desde 2003, lutam contra a falta de apoio para praticar o esporte. A luta pela demarcação do território como Terra Indígena é outro eixo central dessa resistência, entrelaçando o futebol à luta histórica do povo guarani mbyá pelo reconhecimento e garantia de seus direitos territoriais. O futebol constitui-se então prática que articula esporte, saúde, gênero e política.

Enquanto o futebol profissional se debate com os males das apostas e da mercantilização desenfreada, as jogadoras do Xondarias Guarani nos mostram o que o esporte pode ser quando recupera sua dimensão comunitária e libertadora. Elas têm um sonho: ver uma jogadora guarani na seleção brasileira. E esse sonho é alimentado todo dia, chute a chute, no campinho da aldeia.

Que o futebol brasileiro saiba olhar para elas e reaprender o que significa, de fato, ser gigante.

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