Não normalize o extraordinário: o que aprendi com Jim Collins

🗓️ 2026-09-20 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

Foi Jim Collins quem nos chamou ao Colorado. E entender por que ele fez isso diz muito sobre como ele se transformou num dos maiores pesquisadores do mundo sobre gestão empresarial e liderança.

Há décadas, Collins recusa quase tudo. Receber uma empresa, só de um jeito: a liderança inteira viaja até o laboratório dele em Boulder para dias de perguntas afiadas e pouquíssimas respostas.

Antes de nós, do iFood, poucos brasileiros fizeram essa peregrinação: Jorge Paulo Lemann e seu time, e Abilio Diniz e o dele.

O combustível de Collins é a curiosidade. Ele mesmo descreve a própria vida assim: o topo do seu flywheel pessoal é curiosidade, e ela só acaba quando ele parar de respirar.

Ao estudar o iFood, o que acendeu essa curiosidade foi uma tese: a de que a empresa tem o potencial de ajudar a elevar o Brasil a outro patamar. Foi isso que abriu a porta de seu laboratório. Não fomos nós que o convencemos. Foi uma pergunta sobre o Brasil que o capturou.

Na parede da sala dele há uma frase: “grandeza não é fruto das circunstâncias. Grandeza é uma questão de escolha consciente e de disciplina.” Li essa ideia pela primeira vez há quase vinte anos, num livro que mudou meu jeito de pensar. 

Agora, entrei na sala onde ela está pintada e o autor entrou logo depois, às 7h40 da manhã em ponto, rindo de alguma coisa.

Pelos dois dias seguintes, ele fez perguntas até às cinco da tarde, e a liderança do iFood continuou discutindo as respostas até onze da noite. Em nenhum momento eu quis que acabasse.

Li todos os livros de Collins. Livros que moldaram a forma como penso empreendedorismo, liderança e vida. Durante vinte anos ele foi para mim o que um compositor favorito é para um músico: uma referência inatingível, alguém que existe na dimensão das ideias que sobrevivem ao autor. De repente ele estava ali. Perguntando. Escutando. Rindo de si mesmo.

A primeira coisa que me desmontou: ele é engraçado. Quando alguém travou em uma explicação, ele soltou que às vezes se faz de bobo para forçar o raciocínio dos outros – e às vezes é bobo mesmo. E que nós nunca saberíamos a diferença. 

A sala riu, e dali saiu uma das discussões mais profundas do dia. Sabedoria de verdade não pesa. Ela alivia o ambiente para que o pensamento difícil caiba nele.

A segunda discussão foi, de novo, a parede, agora pelos cartazes – dois papéis simples: as horas criativas dele nos últimos 365 dias e o placar dos últimos cinco anos: 88% de dias líquidos positivos.

O homem que ensinou o mundo a medir empresas mede a própria vida, todos os dias. Eu conheço muitos empreendedores que medem tudo, menos a si mesmos. Eu me meço há anos, e mesmo assim saí dali com a régua ajustada para cima.

E nada disso é performance. Ele carrega no bolso um cronômetro de três marcadores, acionado a cada troca de atividade, alimentando a planilha que confere sua regra de dedicar metade dos dias úteis ao trabalho criativo.

De presente de 50 anos para si mesmo, estudou um século de padrões climáticos de Yosemite e escalou o paredão El Capitán em 19 horas. Constância, para ele, não é conceito de livro. É rotina. 

“Sou completamente socrático,” ele nos disse. Foi o que vivemos: Collins não nos deu respostas, nos obrigou a construí-las.

Na sala, contou de suas conversas com Steve Jobs sobre por que o interior invisível do computador precisava ser tão bonito quanto o exterior. Contou da Amazon em 2001, quando deixou com Jeff Bezos e  time o desafio que ajudou a moldar o flywheel da empresa: não reajam como crise, respondam com um plano.

Contou as conversas com Reed Hastings sobre por que os primeiros 100 milhões de assinantes foram apenas um passo na direção de algo maior para a Netflix. Isso não se normaliza.

Mas o que eu quero mesmo dividir é o frio na barriga. Porque sentir importa mais do que a nossa geração de empreendedores admite. Eu tive frio na barriga. 

Aos 43 anos, CEO de uma empresa que atende dezenas de milhões de brasileiros, sentei naquela cadeira com o coração acelerado. A reação que treinaram em todos nós seria disfarçar. Tratar o extraordinário como mais um compromisso da agenda. 

Esse é o absurdo. Passamos a vida construindo repertório para chegar a momentos assim. Quando chegamos, gastamos energia fingindo que não é nada demais. Normalizar o extraordinário é uma forma sofisticada de desperdício: você paga o preço inteiro da experiência e recusa a entrega. 

Eu pratico o contrário: sentir tudo. Ficar encantado sem pudor. Encantamento tem má fama no mundo corporativo, parece ingenuidade. Discordo.

Encantamento por inteligência, por sabedoria, por uma vida de rigor, é discernimento. É reconhecer o raro quando ele está na sua frente. Quem não se encanta com nada geralmente parou de distinguir as coisas. 

Os dois dias também deixaram nítida a diferença entre conhecimento e sabedoria. Conhecimento se transfere por livro, e por isso eu li todos. Sabedoria é conhecimento que passou por uma vida e só se transmite por presença: a qualidade do silêncio dele enquanto escuta, a honestidade de dizer que não sabe, a energia de quem, no fim de um dia inteiro, ainda propõe mais um grande tema. Estude sempre. Mas quando puder, sente-se perto da sabedoria. São nutrientes diferentes.

Em um momento, ele nos falou sobre bilhetes. Cada ano da sua vida é um bilhete de passagem que você entrega e nunca recebe de volta. Você não sabe quantos bilhetes restam no seu bloco. A pergunta que ele deixou no ar é: “para onde você está viajando com os seus?”

E houve a cena que levarei comigo. No fim de uma das tardes, contamos a ele que era aniversário do Flávio Stecca, o sócio e CTO do iFood. Collins não disse parabéns para seguir em frente. Dobrou o corpo para a frente, olhou nos olhos dele e perguntou a idade. Quarenta e sete.

A resposta veio na forma da história de Benjamin Franklin: pegue as grandes biografias dele e mais da metade das páginas acontece depois dos sessenta anos. E então a frase, olho no olho: você está a treze anos de terminar o seu aquecimento.

A sala inteira sentiu o peso. Nós estamos há pouco tempo construindo o iFood. O que parece uma jornada longa ainda é aquecimento, e temos bilhetes demais pela frente.

No encerramento, uma troca de símbolos. Ele nos apresentou Tuesday, o gato vermelho gigante que mora no laboratório. O nome carrega uma filosofia inteira: todo dia deveria ser como uma terça-feira comum, um dia normal, bom, bem vivido.

Nós deixamos com ele o Johnny, o elefante de pelúcia que é símbolo do iFood, o compromisso de sempre nomear o elefante na sala. Johnny ficou em Boulder, morando em cima da cabeça de Tuesday. O totem de encarar as verdades duras descansando sobre o totem do dia comum bem vivido. Não existe resumo melhor do que aprendemos.

Diego Barreto é CEO do iFood.

Diego Barreto