“Não se podem deixar passar as coisas”
1 Apropriei-me desta frase de Marcello Mathias que li no seu último livro (já lá vou) por ter notado como algumas “coisas” são deixadas passar sem interesse ou curiosidade talvez por não terem os favores do espaço público ou o combustível dos ecrãs. É certo que – para além do Mundial, claro – o galope mediático tem estado vorazmente focado em dois ministros sob fogo. Sem surpresa. A sombra vende mais que o sol mesmo que com razão. Vende sempre, com ou sem ela (embora aqui seja obrigatório distinguir entre a natureza de um fogo e a do outro. Parece que só a média não deu por isso.)
2 Julho já quase termina e o Verão é uma questão séria. Parece leve ou leviano, não é. Ruy Belo esperava pelo verão “como por outra vida” e chamava-lhe “a única estação.” Ele sabia que era. No verão o tempo dá tempo ao tempo e que outra estação tem este poder? Tudo se amplia e amplifica como com as boas lentes e percebemos melhor que não podemos “deixar passar as coisas”. Lembro-me de algumas que não beneficiaram do oxigénio do ar do tempo – terão sido provavelmente mencionadas ou noticiadas o que não é de todo o mesmo que contadas. Gostava de delas deixar registo, são lembranças que ficaram em relevo e, quem sabe?, podem interessar alguns leitores.
3 Marcello Mathias é um diplomata-“doublée” de escritor que ama as palavras e talvez por as amar como devem ser amadas, sabe muito bem o que fazer com elas. Acaba de sair (D. Quixote) o seu último livro – “Intervalo” (Diários) e “A Memória dos Outros III” (ensaios e crónicas)
Trata-se de uma talentosa síntese entre os vários registos da escrita que interceptam o voo literário do autor: um largo arco, sob o qual passa “o “diário”, o “retrato”, o ensaio; notas políticas, grandes apontamentos – mesmo quando são breves – sobre a natureza humana, o mundo, a vida. E Portugal e os portugueses, sempre, ao fundo das páginas, sobretudo ao fundo dele próprio.
Uma das grandes seduções deste fluir com substância – ah e que “sense de la formule!”) é um poder de observação sem ilusões que nas mãos de Marcello Mathias se transforma num poderoso instrumento de descrição, análise, elogio ou recusa. Outra sedução: a força motora do “vivido”: Marcello esteve sempre nesse “lá” que ele nos conta “de dentro” como diplomata em países ou instituições; como político no “seu” Ministério; como viajante, como leitor, como homem de amigos, de cultura, da História. E por sobre tudo isso, como grande patriota.
4 Os cinéfilos – e os outros! – deviam agradecer a Paulo Branco a sua desmedida mas tão inteligente paixão pelo cinema: o que pressupõe e exige “estar” no cinema – consagrar-lhe uma vida, produzi-lo, saber dá-lo a ver com sofreguidão e não com imposição, partilhando-o com as plateias. Tudo se passa no Nimas – repleto de cinéfilos incondicionais, simples fiéis, jovens aspirantes a “saber mais” e perceber melhor o cinema. Um santuário onde o Paulo coloca os seus “santos” e os seus “heróis” e depois nos chama para os irmos “venerar”. Um dia de repente damos com Truffaut, como iremos agora dar com Visconti, Agnes Varda, como já demos com Lubitsch, Bergman, Hitchcock, Wes Anderson… Claro que o que escrevo é para todas as estações como a música, um livro, um palco, mas a “única estação” não pode consentir “deixar as coisas passar” – por exemplo no Nimas – sem as contar.
5 Ah mas o Verão é também a gratíssima certeza dos festivais de música. Omnipresentes e diversos, tilintantes cartazes, privilégio da “única estação”.
Não sei se o Festival dos Capuchos é bem contado ou apenas noticiado, sei que tenho um fraco muito forte por ele: sempre musicalmente tão bem idealizado, superiormente dado a ouvir, surpreendente na descoberta dos excelentes músicos convidados, daqui e de fora.
Não duvido que a plateia sentada numa sala do Convento dos Capuchos, de um lado os ciprestes, do outro o mar, se interrogava – como eu – em que circunstância ou lugar se poderia naquele momento ter a impressão de tamanha harmonia, tanta vibração musical, piano, cordas, sopros. Não se imagina melhor “intervalo” entre o temor dos dias e o peso da incerteza com que os vivemos.
Longa vida ao director artístico do Festival, Filipe Pinto Ribeiro – grande pianista, grande músico, grande cidadão e ao “seu” festival aconchegado naquela especialíssima geografia olhando um quieto rio lá em baixo.
“Outra vida”, diria o poeta.
7 Neste caso concreto absolutamente ninguém ali precisa de ser contado: o público que esgota as salas já o fez, num boca a boca contínuo, permitindo às mudas trombetas mediáticas permanecerem mudas. Mas como resistir a cantar também eu no coro dos Hossanas que se ouvem na cidade e fora dela, cantados por quem já foi ao Trindade?
Os “Hossana” são para o “Clube dos Poetas Mortos” em cena há meses, com a bilheteira “fechada” porque esgota sucessivamente. De início prolongou-se a temporada até Setembro. Depois percebeu-“se” que era preciso mais, ficará até Dezembro e está quase esgotado. E agora de repente –acabo de sabê-lo – pondera-se nova temporada em 2027.
Um caso: o que ali ocorre não é mais um espectáculo como os que têm sido bons, ou muito bons no Trindade. Este é especial e em certo sentido, um caso à parte. Diz muito à minha geração que o viu em filme, e o discutiu com os filhos; dialoga com a geração seguinte, e atrai exigentemente a de hoje, perturbando-a e emocionando-a. Talvez não só por isso mas também por isso, a peça começa em estado de expectativa; continua numa muito interessada curiosidade e termina num grande tumulto íntimo. Sem uma falha: a encenação abraça o texto e ambos capturam a interpretação. Os deuses estavam despertos para o ritmo, o acerto, a frescura inicial; o eclodir do conflito, a tensão, a raiva, o dia seguinte…
E claro, há Diogo Infante (sempre ele). Poderosamente magnífico no professor “daquela” turma. Justeza de tom, sobriedade, convicção e uma imensa dignidade. Que dom saber “servir” assim um grande papel…
Era-me impossível não louvar isto, mesmo que apenas noticiado embora nacionalmente sabido.
E que outra forma teria eu de lhes agradecer, (a todos sem excepção, de resto) senão dar testemunho público deste feito teatral?