Não tapes os olhos: eclipse e conspirações
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Feitas. Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo, boa tarde.
E tu não me digas que há por aí teorias da conspiração sobre o eclipse.
Há teorias da conspiração sobre tudo. Tinha que haver sobre o eclipse e não surgiram, pelos vistos, só este ano.
E também o eclipse é daqueles fenómenos que está a pedi-las, não é?
Pois está mesmo. É uma coisa que também já vem da antiguidade, as pessoas achavam que era um prenúncio do fim do mundo. Portanto, realmente não é exatamente uma novidade. Agora, a forma como são congeminadas e partilhadas, talvez seja uma coisa mais dos nossos tempos. Só para dar um contexto a isto, em termos de teorias da conspiração, há para todos os gostos. Normalmente são partilhadas e elaboradas por pessoas que não se limitam a duvidar daquilo que lhes é dito, mas discordam sempre, duvidam sempre radicalmente de tudo o que o poder político, a ciência e o mainstream dizem. Há os terraplanistas, que defendem que a Terra é plana, apesar das provas em contrário, que eu julgo que serão suficientes. Há aquelas teorias dos chemtrails, aqueles que acham que os aviões estão a lançar uns químicos para envenenar o ar, não sei bem com que objetivo, mas deve ser para nos matar a todos. Há as teorias de que os Estados Unidos, a Apollo 11 não chegou à Lua e foi tudo feito pelo Stanley Kubrick num estúdio em Hollywood. Está provadíssimo que foi assim. Há aquelas histórias dos reptilianos, que os líderes mundiais são uns lagartos que vieram do espaço. Esta é particularmente engraçada. Há teorias para tudo. Há teorias sobre que os dinossauros nunca existiram e os respetivos vestígios são fabricados para nos convencer das teorias de Darwin, que obviamente também são falsas. Portanto, tudo o que a ciência diz é mentira e essas pessoas têm acesso, só elas têm acesso ao segredo que os outros tentam esconder, mas não conseguem competir com a inteligência e a astúcia destes conspiracionistas. E, lá está, isto aplica-se aos eclipses. Ricardo, vou só ler um bocadinho de um texto partilhado nas redes sociais, que foi escrito por um português, não sei quem é, mas um senhor aí qualquer, e que é representativo destas correntes e, no caso, aplicadas ao eclipse. Diz o senhor em causa: "Não acham estranho a comunicação social estar super preocupada em avisar a população para não olhar para o eclipse de quarta-feira sem óculos especiais? São exatamente os mesmos que criaram a narrativa de que tomar a picadinha de abelha durante o Covid-19 te ia proteger a ti e à tua família. Isto deixa-me logo a pulga atrás da orelha, o que é que os preocupa assim tanto a ponto de insistirem para ninguém olhar diretamente para um eclipse sem proteção. Será que a natureza produziria algo sabendo que nos ia cegar?" Depois vai por aqui fora. Em relação a esta última frase, é particularmente notável este senhor não acreditar que a natureza possa produzir alguma coisa que nos fizesse mal. Era capaz de haver uns milhares de exemplos em sentido contrário, mas pronto, a pessoa está convencida disto, está convencida de que, e volto a citar, há algo por trás desta história que não me cheira bem. Pronto, podemos dizer que isto é apenas um excêntrico, e com certeza é um excêntrico. Mas é um excêntrico que partilha esta opinião com inúmeros outros excêntricos, e a excentricidade perde um bocadinho a sua definição, porque há muitos excêntricos em Portugal e no mundo empenhadíssimos em mostrar que a eles ninguém toma por parvos e que eles têm acesso a uma verdade ou, no mínimo, a uma dúvida que os mortais comuns, coitados, não alcançam. Isto já aconteceu nos eclipses totais anteriores, o anterior foi 2024. Amanhã eu sei que vou participar num painel, eu posso falar sobre isto. Eu estive presente num dos lugares do mundo em que se via a 100% este eclipse. Também tinha havido um eclipse total em 2017, pelos vistos. Esse eu não estive presente, que eu saiba. Mas a lógica por trás desta teoria, isto varia de excêntrico para excêntrico, mas costuma apostar em dois pontos principais. Por um lado, é que o olhar para o sol durante o eclipse poderia emitir, juro que eu li isto, frequências de iluminação que abrem o terceiro olho, aquela história deve ser do Lob Sangrampa ou não sei o quê, que era um canalizador escocês, mas que depois se transformou num místico. Abrem o terceiro olho ou descalcificam a glândula pineal. Portanto, o governo e as entidades de saúde alegam perigo apenas para impedir que a população atinja esse novo nível de consciência. E depois há outra versão destas teorias da conspiração, que é mais pragmática, que é apenas: querem vender óculos. Pronto, é o negócio dos óculos, é uma versão puramente financeira de que os avisos de saúde pública não passam de uma estratégia para enriquecer empresas que fabricam óculos de proteção descartáveis. Com certeza que haverá empresas a fazer dinheiro com isto. Não parece especialmente misterioso. Mas o conspiracionismo é assim, com jeito e muitas vezes sem grande jeito, arranja sempre maneira de transformar qualquer recomendação científica, ou às vezes nem é preciso ser científica, qualquer recomendação de bom senso, num plano maquiavélico, para nos complicar a vida ou mais habitualmente, para nos subjugar. Isto claro que é ridículo, claro que até pode ter graça e claro que, em geral, acontece com maior frequência em determinado tipo de personalidades. Não vou avaliar esse tipo de personalidades, não sou psiquiatra nem psicólogo clínico, mas também é preciso notar, eu estou aqui emperrado, peço desculpa, Ricardo, e vou terminar já. É preciso notar que este ceticismo radical e sem qualquer fundamento também só existe porque existe a tendência contemporânea, que noutros tempos também havia de outras maneiras, para que o poder político, que muitas vezes é coadjuvado pela ciência e pelos media Insistem em assustar as pessoas com calamidades que estão iminentes ou que vão ser iminentes, vão acontecer daqui a três dias ou coisa parecida, e depois nunca acontecem. Eu acho que não é preciso dar exemplos desses apocalipses que já nos tentaram impingir. Acho que basta dizer que a componente anedótica do conspiracionismo, que é óbvia, acaba por não ser muito diferente do inverso, ou seja, dos que tomam à letra tudo o que lhes é dito, sem qualquer hesitação, sem qualquer reticência, sem qualquer dúvida. E não acreditar em nada acaba por ser o mesmo que acreditar em tudo. Parece-me. E no meio, se não está a virtude, não sei se é aí que está a virtude, mas está pelo menos a noção de que olhar o sol sem proteção, acho que isto devia ser uma coisa que convinha lembrar, é capaz de causar danos irreversíveis à retina. Não quer dizer que cause sempre, mas pode causar e é melhor amanhã as pessoas que estejam interessadas em ver o eclipse e que tenham possibilidades de ver o eclipse realmente protegerem os olhinhos. Senão, são capazes de depois ter um desgosto umas horas depois ou nos dias seguintes.
É melhor sim. E falaste aí da glândula pineal. Lembro-me sempre de René Descartes, que dizia que era aí que no fundo residia a alma e era aí que, através da glândula pineal, que a alma e o corpo comunicavam.
Conseguiste estabelecer um nexo entre o Descartes e o Lobo Sangrampa com o terceiro olho.
Exatamente.
O que só mostra que o "Ideias Feitas", em colaboração contigo, também é cultura, também é conhecimento.
Olha, até amanhã, Alberto. Amanhã vais ter visão privilegiada. Estou um pouco curioso.
É, se não houver nuvens e não parece que haja.
Vai estar limpinho e calor.
É que o calor está bastante já hoje.
Exato. Um abraço.
Ricardo, um abraço. Até amanhã.
Até amanhã.
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