Nas praias privadas de Itália é proibido comer as sandes que se trouxe de casa?
Estalou mais uma polémica em Itália: os banhistas, que pagam por um chapéu de sol e cadeiras de praia, queixam-se das regras apertadas dos concessionários
Depois das praias para onde não se pode levar chapéu de sol e das zonas balneares onde não se pode andar em tronco nu, existe uma nova polémica a ensombrar o verão italiano: em Vieste, na região de Puglia, no passado fim de semana, uma mãe foi advertida por um funcionário da concessão balnear onde se encontrava por ter dado ao filho uma sandes que trouxera de casa. O empregado disse-lhe que ali só se podia consumir o que fosse comprado no restaurante.
“Com dois filhos não posso permitir-me comprar todos os dias sandes no bar ou comer no restaurante”, explicou ao jornal Rosaria, de 35 anos, ao jornal Corriere della Sera. “Cada sandes [no bar da concessão] custa cinco euros, para quatro pessoas são logo 20 euros, aos quais há que acrescentar as bebidas e talvez um gelado”, queixa-se Rosaria. Por isso, traz quatro sandes de casa para os filhos de 10 e 12 anos. “Quando chega a hora de almoço, dou de comer às crianças enquanto passeamos ou sentados à beira-mar", evitando assim chamar a atenção dos funcionários do resort.
“É algo comum nas praias daqui”, comentou Luca Pernice, jornalista do Corriere della Sera, que por acaso estava na mesma praia. “As pessoas não querem ser obrigadas a gastar no restaurante todos os dias, não têm condições.”
Rosário não é a única a indignar-se com a polémica das sanduíches. Beatrice Bordo, que alugou um chapéu de sol e duas espreguiçadeiras para toda a estação no Il Tirreno, um clube de praia privado em Montalto di Castro, na costa do Lácio, indigna-se: "Paguei 850 euros pela época e gasto dinheiro no bar – em café, gelado, granita [um tipo de granizado]", disse ao jornal The Guardian. “Por isso, não podem esperar que eu gaste até 50 euros por dia para comer no restaurante deles. Não é uma obrigação. Eles podem fazer o que quiserem no seu resort, mas eu farei o que quiser debaixo do meu guarda-sol.”
Embora não exista nenhuma lei nacional que proíba os clientes dos clubes privados de levarem comida e bebida, os concessionários estabelecem por vezes as suas próprias políticas, como foi o caso em Vieste.
Nicola Ragno, presidente da unidade local da Assoturismo, associação que representa os concessionários de praia, afirmou que os almoços embalados “prejudicam a imagem” dos clubes de praia, alegando que muitos frequentadores da praia não se limitam a uma simples sanduíche. “Muitas vezes, vemos refeições completas – massas, pratos principais, fruta, sobremesas, bebidas – todo o tipo de comida”, disse Ragno ao Corriere della Sera. “Isto cria problemas de higiene, gestão de resíduos e organização geral, além de complicar os serviços que os proprietários de estabelecimentos oferecem com investimentos significativos e funcionários dedicados.”
Antonio Decaro, presidente da região da Puglia, também entrou no debate. “Ninguém o pode impedir de comer na praia a comida que trouxe de casa”, disse numa publicação no Facebook, lembrando os seus seguidores das regras em vigor. “O custo das espreguiçadeiras e dos guarda-sóis já é exorbitante. O mar é um bem comum e não se deve tornar um luxo.”