Nepal: "O que querem que façamos com pensos se não temos roupa interior?"

🗓️ 2026-09-01 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -

Sem teto, sem víveres, sem água ou quase nada foi como ficaram muitos dos que sobreviveram à onda de água, gelo, lama, rochas e detritos que matou mais de mil pessoas no Nepal e na China.

Dezenas de mulheres deslocadas numa escola transformada em centro de acolhimento no distrito de Nuwakot aguardavam hoje de manhã em fila para receber um 'kit' de higiene pessoal.

"Há sérias preocupações de privacidade e de higiene", comentou uma delas, Anju Bhujel, 40 anos, à agência francesa AFP.

Bhujel não teve outra alternativa senão juntar-se ao campo improvisado com os dois filhos desde que a cheia destruiu a casa da família.

"Só há três casas de banho para mais de 400 pessoas", lamentou.

Como nenhuma está ligada à água corrente, a higiene íntima tornou-se um problema grave para todas as residentes forçadas do campo.

"Uma ONG [organização não-governamental] está a distribuir-nos pensos higiénicos, mas não sabemos o que fazer aos que já foram usados", disse Anju Bhujel.

Contou que encontram "alguns espalhados pelo chão em redor das casas de banho".

"Dão-nos pensos, mas não nos dão roupa interior", acrescentou Yogita Tamang, cuja família inteira de 20 pessoas vive apertada numa única sala de aula.

"O que querem que façamos com pensos se não temos roupa interior?", desabafou, à beira das lágrimas.

Como muitos outros sobreviventes, Anju Bhujel e a família tiveram apenas alguns minutos para escapar à forte vaga de água e destroços que destruiu a aldeia.

Deixou para trás tudo o que fazia a sua vida sob um mar de lama.

As autoridades, as ONG e as agências das Nações Unidas asseguram o acolhimento e a alimentação básica, mas, dada a dimensão da catástrofe, o abastecimento continua frágil.

"Não só não há água nas casas de banho, como também há escassez de água potável. As ONG dão-nos garrafas, mas nem sempre de forma regular", disse Yogita Tamang.

A situação das mulheres e raparigas deslocadas preocupa particularmente as organizações humanitárias.

A sobrelotação dos campos de acolhimento de emergência e a falta de privacidade que lhes impõe podem aumentar os riscos de assédio e reduzir o acesso das vítimas à ajuda, alertou a ONU Mulheres.

A fundação privada Golyan, que assegura a gestão diária do campo, reconhece a situação e garante estar a fazer o melhor que consegue para satisfazer o maior número de pessoas.

"Também distribuímos roupa interior, mas a procura é muita e não conseguimos satisfazê-la por completo", disse uma das representantes, Jyoti Gaihre.

"Distribuiremos mais dentro de dois dias", prometeu, mas a lista de necessidades parece infinita.

As famílias deslocadas devem também receber apoio psicológico "para recuperar alguma normalidade nesta situação difícil", defendeu Abiodun Banire, do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Muitos receiam já ter de abandonar a escola que os acolhe quando as aulas recomeçarem.

"Para onde é que vamos nessa altura?", questionou Maina Nepal, uma deslocada de 50 anos.

"Vamos ter de dormir na rua...", respondeu ela própria.

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