Nervosismo e generalidades marcam presidenciáveis na Globo - 30/08/2026 - Política - Folha
A entrevista para a TV Globo, na esteira do Jornal Nacional, é uma disputa de pênaltis, como definiu um estrategista de uma das principais campanhas presidenciais.
Ou seja, um momento de máxima tensão para o candidato, que teme arruinar suas chances por alguma bobagem que disser, como um jogador que manda a bola por cima do travessão.
Na série que se encerrou no sábado (29), não chegou a haver um momento Roberto Baggio, mas alguns candidatos passaram perto.
A maior bola fora foi de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao negar que tivesse estado com a lobista Roberta Luchsinger, desmentido minutos depois por fotos ao lado dela.
A estratégia de ir para o ataque contra a amiga de seu filho, chamando-a de pilantra e malandra, foi incoerente com a defesa de que Lulinha tenha o benefício da dúvida. Se ela é pilantra, por que Fábio Luís ou Marcola, seu ex-chefe de gabinete, não seriam?
Desde que se tornaram parte do calendário eleitoral, as entrevistas com os apresentadores do JN adotam o formato "hard talk", popularizado pela britânica BBC, com perguntas duras.
A ideia é gerar desconforto desde o primeiro momento, e isso funcionou com o presidente, claramente incomodado com a artilharia pesada sobre o caso que envolve seu filho. Sua estratégia foi fazer uma relação com a Lava Jato, dizendo que foi perseguido e alvo de ilações.
Nos poucos minutos que sobraram para outros temas, disse algo que acabou ficando em segundo plano, mas poderá ter consequências até maiores: não está preocupado com a dívida pública, contrariando seu próprio ministro da Fazenda, Dario Durigan.
Flávio Bolsonaro (PL) também não se saiu bem ao falar sobre o seu próprio escândalo, o do Banco Master. Visivelmente nervoso, balbuciou em alguns momentos ao tentar explicar por que renegou a promessa de dar transparência aos recursos repassados por Daniel Vorcaro para o filme sobre seu pai. Mas pelo menos não desmaiou dessa vez.
Na parte das propostas, também relegada a um apêndice da entrevista, Flávio recorreu a platitudes.
Sobre a política de aumento real do salário mínimo e das aposentadorias (que aliados, à boca pequena, dizem ser insustentável), disse que não fará economia com o povo mais sofrido. Seria curioso encontrar um candidato que prometa em campanha lascar a parte de baixo da pirâmide.
Ao responder se acredita em aquecimento global, falou que o mundo vive extremos climáticos, o que qualquer pessoa que lê jornal pode atestar.
Proferir generalidades foi também a tônica de Ronaldo Caiado (PSD), com suas longas respostas sem vírgula ou ponto de corte. A justificativa para não ser mais específico, de que não estava em uma mesa (ou banca) examinadora, acabou sendo a parte que chamou mais a atenção.
Já Augusto Cury (Avante) destacou-se (modo de dizer) por suas propostas exóticas, como o drone antifeminicídio e os influenciadores nas embaixadas. Apertado sobre detalhes, chegou a recuar das promessas, algo pouco comum num candidato.
Como convém a um guru de autoajuda, povoou suas falas com mensagens "reflexivas", como "a polarização adoeceu a nação brasileira" e "estou destruindo muros e pegando os tijolos para construir pontes". Disse ainda que tem a mente de direita e o coração de esquerda, e aparentemente os dois convivem de forma harmoniosa em seu corpo pacificador.
Se ninguém destruiu completamente a reputação nas entrevistas, também não houve grandes vencedores.
Dois chegaram mais perto. Romeu Zema (Novo), conhecida fonte de gafes, pelo menos não comprometeu e respondeu de forma educada ao ser pressionado sobre as contradições entre suas promessas de Estado mínimo e a dificuldade de colocar a casa em ordem em Minas Gerais.
E Renan Santos (Missão) cumpriu seu papel de reforçar o discurso antissistema com promessas e frases feitas para chocar, da construção da bomba atômica ao banho de sangue na segurança pública. Se isso vai se traduzir em intenção de votos, saberemos em breve.