Nesta ilha no rio Tejo, há um novo refúgio onde o check-in só é feito com a maré baixa
Maria Lopo de Carvalho, a mais velha de quatro irmãos, recorda com carinho os momentos que passou em pequena na Ilha dos Malagueiros, uma ilha fluvial no concelho de Benavente, a cerca de 50 minutos de Lisboa. O terreno foi comprado pelo seu avô, Manuel, em 1947 e permaneceu na família até aos dias de hoje.
A farmacêutica, hoje com 42 anos, recorda-se de ser miúda e ver as vacas e os cavalos selvagens em liberdade, além do silêncio que prevalecia, com exceção do som do rio. “Cresci com esta paisagem, com o rio e com o privilégio de poder desfrutar do silêncio que aquela ilha proporciona”, começa por contar à NiT. “Sempre senti que esta ilha tinha uma forma muito própria de fazer abrandar o tempo”.
Há cerca de dois anos, numa conversa com o pai, também chamado Manuel, tal como o avô, sugeriu criar ali um refúgio. “Disse-lhe que era uma propriedade única e comecei a pensar que seria bonito, para mim e para outras pessoas, viverem esta sensação de um refúgio num lugar como aquele.”
Nessa altura, a família começou a recuperar a pequena casa que tinha sido construída ainda em 1949 pelo avô Manuel. “Construiu-a recorrendo aos materiais tradicionais que havia, e inspirou-se nas casas Avieira, que eram típicas das comunidades piscatórias da altura, que durante gerações viveram muito ligadas ali ao rio Tejo.”
Ao longo dos últimos anos, a família dedicou-se à recuperação da propriedade. No início de julho, abriu as reservas da Casa Maré, na Ilha dos Malagueiros.
A história da região remonta ao final do século XIX. Nesta altura, era constituída por três pequenas ilhas: Malagueiro Grande, Malagueiro Pequeno e o Poço da Saudade. “Com o passar dos anos e com as cheias que foi havendo no rio Tejo, que antigamente eram muito frequentes, foram depositados sedimentos que acabaram por unir estas três ilhas e deram origem à Ilha dos Malagueiros.”

Uma das particularidades da casa é que o check-in só pode ser feito quando a maré está baixa. Desta forma, os hóspedes conseguem chegar à casa de carro, sem qualquer problema. Caso contrário, podem também optar por uma travessia de barco.
Como as marés estão sempre a mudar, Maria explica que, 48 horas antes da chegada, os hóspedes recebem um guia com todas as informações necessárias, incluindo os horários das marés, as recomendações e os códigos de entrada.
Além disso, a propriedade esconde outros segredos. A área que hoje funciona como sala de estar, por exemplo, era desabitada antigamente e não havia qualquer mobiliário por uma razão: durante as cheias, era por ali que a água passava quando o rio transbordava. Naquela altura, apenas a parte de cima era habitada.
“No fundo, quando recuperámos a casa, tivemos de manter essa filosofia de nos adaptarmos à natureza em vez de a contrariar”, sublinha. Maria partilha que, há cerca de 40 anos, a casa foi também habitada pelos antigos guardas da propriedade, que chegaram a criar ali dois filhos.
“Os miúdos deles todos os dias tinham de atravessar o rio de barco para ir para a escola. É uma realidade que hoje em dia parece saída de outro tempo, mas faz parte da identidade do lugar”, sublinha. “Mais do que um alojamento, aquilo acaba por ser a história da nossa família, onde a natureza, o rio e tudo aquilo se cruzam ao longo do tempo.”
Atualmente, a Casa Maré tem capacidade para receber quatro adultos e dois miúdos. É composta por dois quartos com casas de banho, uma pequena sala de estar, uma cozinha equipada e uma zona exterior, com mesa de refeições.
Para a decoração, a família apostou “no mais simples possível.” “Queríamos elegância, mas sem excessos”, frisa Maria. Foram privilegiados tons mais claros, com apontamentos em madeira.
O verdadeiro encanto está no exterior, onde quase todos os dias é possível ver vários cavalos selvagens, que sempre viveram na propriedade. Maria não sabe dizer quantos equídeos andam por ali, mas o seu pai batizou cada um deles — e cada um tem a sua própria personalidade.
O refúgio também é pet-friendly e aceita até dois animais por estadia por um valor único de 35€. Quanto às diárias, custam 190€ de segunda a quinta-feira e 230€ de sexta-feira a domingo. Podem ser feitas através da página de Instagram do projeto.
Leia também o artigo da NiT sobre a Quinta do Tojal, um espaço de eventos que parece ter saído de “Downton Abbey” e que pertence à mesma família que a Ilha dos Malagueiros.
Carregue na galeria para ver algumas fotografias da Casa Maré, na Ilha dos Malagueiros.
FICHA TÉCNICA
- MORADA
Ilha dos Malagueiros, Benavente
PREÇO MÉDIO
mais de 250€
AMBIENTE
rio