Netflix perde público entre temporadas e expõe desafio do streaming

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Televisão

Queda de audiência entre temporadas de séries da Netflix amplia a discussão sobre a relação do público com as séries

14/07/2026 02:00

CFOTO/Future Publishing via Getty Images

O excesso de lançamentos, a demora entre novas temporadas e a incerteza sobre a renovação de séries queridas pelo público estão entre as principais queixas dos assinantes dos serviços de streaming. Essas frustrações ajudam a explicar um fenômeno cada vez mais comum: espectadores que abandonam as produções entre uma temporada e outra, ampliando o debate sobre as transformações no consumo de entretenimento.

Uma análise publicada pela Bloomberg, com base em dados da própria Netflix, mostra que até alguns dos maiores sucessos da plataforma têm dificuldade para manter o público nas temporadas seguintes. One Piece, Treta, O Agente Noturno e Avatar: O Último Mestre do Ar, por exemplo, registraram quedas significativas de audiência após a estreia.


Séries que perderam público após a primeira temporada

  • One Piece: perdeu mais de 30% da audiência na segunda temporada.
  • Treta: teve uma queda superior a 70%.
  • O Agente Noturno: perdeu 50% do público na segunda temporada e mais 35% na terceira.
  • Avatar: O Último Mestre do Ar: caiu mais de 60% logo após a primeira semana.

O que pode explicar o fenômeno?

Segundo a Bloomberg, a própria Netflix passou a analisar internamente os motivos que estariam por trás da intensificação desse fenômeno em diversas séries populares. A preocupação surge em um momento de desaceleração da plataforma: em 2026, o tempo total de exibição cresceu menos de 2%, enquanto o catálogo registrou poucos novos sucessos capazes de sustentar a audiência.

Especialistas ouvidos pelo Metrópoles, no entanto, afirmam que a perda de público entre uma temporada e outra está longe de ser um fenômeno inédito. Segundo eles, emissoras de TV já lidavam com esse desafio em produções de longa duração, como Grey’s Anatomy, buscando estratégias para manter o interesse dos espectadores ao longo dos anos.

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Cena da 2ª temporada de Treta, da Netflix

Cena da 3ª temporada de O Agente Noturno

Katara, Sokka, Aang e Toph na 2ª temporada de Avatar: O Último Mestre do Ar, da Netflix

Cena de One Piece da Netflix

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Cena de One Piece da Netflix

Casey Crafford/Netflix

Cena da 2ª temporada de Treta, da Netflix

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Cena da 2ª temporada de Treta, da Netflix

Divulgação

Cena da 3ª temporada de O Agente Noturno

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Cena da 3ª temporada de O Agente Noturno

Nazim Serhat Firat/Netflix

Katara, Sokka, Aang e Toph na 2ª temporada de Avatar: O Último Mestre do Ar, da Netflix

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Katara, Sokka, Aang e Toph na 2ª temporada de Avatar: O Último Mestre do Ar, da Netflix

Katie Yu/Netflix

No caso da Netflix, porém, alguns fatores podem explicar a dificuldade em manter o interesse do público pelas novas temporadas. Segundo Daniel Rios, doutor em Comunicação e pesquisador associado da Universidade Federal Fluminense (UFF), o modelo de lançamento adotado pela plataforma prejudica a retenção da história e a memória do espectador.

“Essa lógica de lançar tudo de uma vez muda um pouco nossa relação com essa mídia. Inclusive, quando surge uma nova temporada, fica mais difícil lembrar o que aconteceu no ano anterior”, explica. Para o pesquisador, a ausência de um contato contínuo com a série também dificulta a criação de um vínculo mais duradouro com a produção.

Já Marcela Soalheiro, professora do curso de Cinema e Audiovisual da ESPM, afirma que a incerteza em torno das produções para o streaming também contribui para afastar parte da audiência. “Encerramos uma temporada sem saber quando a próxima será lançada. Essas sensações de angústia e frustração podem gerar um desengajamento a médio prazo”, destaca.

A especialista acrescenta que a alta taxa de cancelamento de séries, aliada à falta de transparência sobre os critérios para renovação ou encerramento das produções, aumenta a insegurança dos assinantes e pode impactar diretamente a permanência deles nas plataformas.

“Se a plataforma não garante a continuidade da minha série favorita, por que manter esse gasto financeiro se há tanto conteúdo disponível em outras plataformas?”, questiona. A avaliação é reforçada por uma pesquisa da Opinion Box, de 2024, segundo a qual os principais fatores que influenciam a assinatura de um serviço de streaming são o preço e a disponibilidade dos filmes e séries preferidos dos usuários.

Muito além do desinteresse

A queda de audiência entre temporadas é apenas um sintoma de uma transformação maior no entretenimento. Para os especialistas ouvidos pelo Metrópoles, o streaming ainda tenta descobrir como manter o público engajado em um cenário marcado pelo excesso de lançamentos, pela concorrência de outras mídias e por novos hábitos de consumo.

Daniel afirma que o streaming vem reformulando suas convenções de produção, privilegiando temporadas mais enxutas e narrativas fechadas. “Hoje em dia você vê muitas séries desenhadas para se completarem em uma única temporada, sabendo que uma renovação não é garantida”, pontua.

Após anos apostando em temporadas longas e lançamentos em massa, as plataformas também têm adaptado suas estratégias para enfrentar esse novo cenário. Além de investir em novos formatos, como esportes ao vivo e podcasts, a Netflix passou a apostar com mais frequência em minisséries e produções com histórias fechadas.

“O engajamento afetivo dos espectadores deve ser tratado como um ativo importante pelas plataformas. Inundar o mercado com estreias de séries superficiais, desinteressantes, cujos ganchos não geram interesse, não é a solução para a manutenção dos consumidores na plataforma”, afirma Marcela.

Na avaliação de Daniel, essas mudanças refletem uma transformação mais ampla na forma como o entretenimento é produzido e consumido, impulsionada tanto pelo streaming quanto pela popularização de plataformas de vídeos curtos e outras formas de consumo digital.

Para ele, o mercado ainda busca entender quais modelos são mais eficientes para manter o público engajado ao longo do tempo. “As empresas ainda estão experimentando. Elas testam o que faz sentido com base na experiência que já têm com a televisão e o cinema, mas ainda estão entendendo o que funciona para este momento da indústria”, finaliza.