No Norte o passado e presente dos verbos soam igual. Porquê?
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Está de regresso também à quarta-feira o "Português Suave", sempre na Rádio Observador. Eu sou o João Costa e Silva. Marco Neves, já tínhamos saudades de falar também à quarta-feira, não é?
É verdade. Estamos a voltar às quartas-feiras, finalmente, depois de umas férias em que saltamos a quarta-feira, mas as pessoas hão de compreender que, de vez em quando, é preciso descansar um pouco. E não interrompemos o-
As dúvidas, não é? Era isso que eu ia dizer.
Nós não interrompemos as dúvidas, nem o "Português Suave", continuamos a falar das dúvidas. E hoje temos três dúvidas, três sugestões de tema. A primeira é do Joaquim Paulo, eu vou ler a mensagem: "Acompanho o vosso podcast desde que tive conhecimento dele, há relativamente pouco tempo, por isso não sei se este assunto já foi abordado. Na zona de Minde, em Mira de Aire, existe um falar que penso chamar-se minderico, a piação dos xaraldos do ninhô, que entendo era utilizado pelos comerciantes locais. Minha pergunta é: não sendo o minderico uma língua, o que é? Um dialeto ou apenas uma linguagem codificada? Parabéns pelo programa e pela forma como democratiza o conhecimento da língua." Muito obrigado, Joaquim. Nós temos de fazer um episódio maior sobre o minderico. Um dia, já perguntamos aqui várias vezes outras viagens, mas quem sabe, um dia vamos a Minde. O minderico tradicionalmente é visto como um código de comerciantes, começou como um código de comerciantes, mas devo dizer que, entretanto, começou a ser usado pessoalmente por várias famílias naquela zona, penso que desde o século XIX, não tenho conhecimentos muito profundos, mas já li algumas coisas sobre isso, e acabou por se tornar mesmo uma língua falada com algumas regras distintas do português, algumas, não muitas, com um léxico claramente distinto, e já foi estudado por vários linguistas como língua própria, que está em diminuição muito acelerada de utilização. Portanto, devo dizer que estes códigos que por vezes surgem para que só um grupo compreenda aquilo que está a ser dito, são códigos que existem em vários pontos do mundo. Nem todos, depois, se transformam num falar real. Não é que o código não seja real, num falar do dia a dia entre as pessoas, com o objetivo apenas de comunicar entre si. No caso do minderico, parece ter sido isso que aconteceu. A origem daquela variedade linguística é o código, mas depois tornou-se noutra coisa um pouco mais alargada, e tornou-se naquilo que podemos chamar uma língua, por estranho que pareça. E, como eu disse, o minderico já foi estudado como língua. Havemos de voltar a este tema e ir lá mesmo a Mira de Aire.
Com mais tempo. Precisa de mais tempo para desenvolver.
E agora temos uma dúvida de António Noronha, que são, na verdade, duas dúvidas. Ele diz que ficou admirado com a celeuma do uso do você. Parece-me muito fácil, se tenho intimidade, trato por tu, se não tenho, trato por você ou pelo senhor. É verdade, é fácil, parece, mas como eu disse naquele episódio em que falámos disto, o que parece fácil para algumas pessoas levanta muitas questões para outras. Por exemplo, a diferença entre tratar por você ou usar o senhor é muito grande para muitas pessoas. E acaba por levar a todas aquelas confusões de que falámos no episódio anterior.
Sim, há pessoas que levam mesmo como falta de respeito, tratar por você.
Sim, há pessoas que veem isto como falta de respeito e há outras pessoas que veem o você como uma forma de respeito. Portanto, a confusão é polarizadora. E é difícil. Ele agora diz outra coisa muito curiosa, que é uma dúvida que também já recebi muitas vezes. O António Noronha continua: "Há um outro mistério na nossa língua que me transtorna. No Norte, suprimem tempos verbais. Exemplo, caminhamos e caminhámos, passa a ser 'caminhamos caminhámos', ou 'caminhámos caminhamos', aliás, com a vogal aberta. O presente e o passado, que eu saiba, não são a mesma coisa", diz o António, "presta-se muitas vezes a confusões, não encontro explicação." Eu posso então agora explicar o que se passa. Nós já falámos disto.
Eu sofro disto. Por exemplo, ainda falámos em off, estava-te a dar o exemplo de falamos. Eu digo falamos, mesmo sabendo que quero dizer isso noutro tempo verbal, quando devia dizer falámos.
Sim. Eu devo dizer que há uma distinção do Sul do país, de facto, e é uma distinção que se faz no Sul do país e não só, no Norte também há pessoas que fazem esta distinção. Entre dizer "nós hoje falamos" ou "nós hoje falámos". Eu devo dizer aqui duas coisas. A diferença entre o A e o À, na grande maioria dos casos, em português, não distingue significado. Na maioria dos casos. Portanto, eu dizer padeira ou padeiro, eu não ouvi padeira, estás a dizer padeiro, mas as pessoas não vão achar que isto são duas palavras diferentes. A mesma coisa acontece com vacina e vacína. Ou seja, são apenas formas diferentes de dizer a mesma palavra e é assim que o nosso cérebro interpreta esta distinção. Na sílaba tónica é um pouco diferente. Quando esta distinção aparece na sílaba tónica, em geral, nós fazemos uma distinção de sentido, mas é uma distinção fonológica, portanto, tem que ver com esta distinção de sentido relativamente fraca. Há muito poucos casos em que as duas vogais, o A e o À, distinguem, de facto, dois sentidos diferentes. E a verdade é que, por exemplo, mesmo no caso dos verbos, nos verbos como falamos e falámos, esta distinção faz-se apenas por alguns falantes da língua portuguesa, uma minoria desses falantes, a grande maioria, no Brasil, no norte de Portugal e noutros países, não faz esta distinção. E algumas pessoas ficam horrorizadas a dizer: "Como é que é possível não distinguir o presente do passado?" Eu devo dizer que esta distinção é relativamente recente, provavelmente, até porque nós quando temos verbos acabados em ir ou em er, também não fazemos essa distinção. Eu digo: "Nós comemos", e posso querer dizer "nós comemos ontem", ou posso querer dizer "nós comemos hoje, todos os dias, nós comemos todos os dias". Com os verbos terminados em ir, portanto, da segunda e da terceira conjugação, no caso dos verbos em ir, nós também fazemos exatamente a mesma coisa. Nós partimos Pode ser hoje ou pode ser ontem. Eu parto, tu partes, ele parte, nós partimos. Eu parti, tu partiste, ele partiu, nós partimos. Como vemos, quando as pessoas não fazem distinção, também não sentem falta dela. Não há ninguém a queixar-se dessa falta de distinção nos verbos acabados em E e nos verbos acabados em IR. Só nos queixamos dos verbos acabados em AR, porque há uma parte dos falantes que criou esta nova distinção, que dá jeito. Eu faço a distinção e ela dá jeito, mas não é impossível ter uma língua em que estes dois tempos verbais são iguais, que é precisamente o que nós fazemos nos verbos acabados em IR e acabados em R. As distinções parecem-nos essenciais quando nós as fazemos, quando não as fazemos, são rapidamente resolvidas pelo contexto. Eu não estou a defender que as pessoas passem todas a dizer "nós falamos" em vez de "nós falamos". Eu continuo a fazer a distinção, acho que é uma distinção útil para aquele conjunto de verbos que acabam em AR. Só estou a explicar de onde é que vem isto. Historicamente, no caso da primeira pessoa do plural, os verbos em português não se distinguem entre o pretérito perfeito e o presente, os dois do indicativo. É normal na nossa língua, é uma das características da nossa língua. Há esta exceção, no caso dos verbos acabados em AR e em certas zonas de Portugal.
E eu falo por experiência própria, eu também tenho dificuldade às vezes em fazer essa distinção. Não sei se é por ser do norte do país.
Uma região onde ela não se faz tradicionalmente.
Exatamente. Mas para mim faz toda a diferença também fazer essa separação entre um e outro.
Nos verbos só acabados em AR.
Exato.
Não sei se temos tempo para mais uma questão.
Dois minutos.
A questão é difícil em dois minutos. Eu vou só dizer qual é que é e talvez voltemos a ela mais tarde. Pedro Barros Viegas mandou uma mensagem pelo Instagram em que me perguntava: se a Reconquista foi de norte para sul e se a língua portuguesa veio de norte para sul, como é que as palavras de origem árabe conseguiram prevalecer? E eu aqui devo dizer que é muito habitual, quando há uma substituição linguística, que palavras da língua que estava antes se mantenham. Mas se calhar vamos ter de explicar isto num episódio um pouco mais longo, porque em poucos minutos não consigo. Mas fica aqui já a pergunta como promessa para um episódio futuro.
E que chegou via Instagram. Podem chatear-te por lá também, Marco Neves.
Exatamente.
O certo é que é mais fácil para nós às vezes organizarmos através do nosso e-mail, que tu vais dizer e muito bem.
[email protected] ou do telefone. Nós gostamos sempre de ouvir as pessoas a falar e a dizer as dúvidas de viva voz.
Exatamente. É o 91 002 41 85. Áudios, mensagens de voz entre 30 a 40 segundos. Já sabe que eu e o Marco queremos um dia apanhar uma discussão em pleno direto.
Em direto, não, mas gravada.
Exato. Eu digo direto, ou seja, no momento exato em que estão a discutir a origem de uma palavra, se diz assim ou assado, é gravar e enviar-nos. Nós vamos gostar muito de ouvir. Marco, regressamos no domingo, não é?
Até domingo, exatamente.
Um abraço. Até lá.
Lá estaremos.