Nova base aérea chinesa no Laos gera preocupação no Vietname e levanta alertas sobre expansão militar de Pequim no Sudeste Asiático
O aeródromo dispõe atualmente de uma pista de cerca de dois mil metros, suficientemente longa para receber caças, uma pista de circulação paralela e espaço de estacionamento para cerca de 24 aeronaves
Uma nova instalação militar chinesa no Laos, inaugurada em setembro, está a suscitar preocupações no Vietname e entre analistas de defesa, devido ao potencial de expansão da infraestrutura e à crescente projeção militar de Pequim no Sudeste Asiático.
Segundo uma análise da agência Associated Press (AP), baseada em imagens de satélite, o aeródromo de Ban Keun, situado cerca de 50 quilómetros a norte da capital do Laos, Vientiane, continua parcialmente em construção, apesar da inauguração oficial.
A instalação, gerida conjuntamente pela China e pelo Laos, é a primeira infraestrutura militar chinesa no estrangeiro centrada no poder aéreo, juntando-se à base chinesa no Djibuti e à presença naval de Pequim na base de Ream, no Camboja.
O aeródromo dispõe atualmente de uma pista de cerca de dois mil metros, suficientemente longa para receber caças, uma pista de circulação paralela e espaço de estacionamento para cerca de 24 aeronaves.
As imagens de satélite indicam que existe espaço para prolongar a pista em pelo menos mais mil metros, o que permitiria a utilização por aeronaves de maiores dimensões, incluindo bombardeiros.
Na inauguração, o ministério da Defesa chinês afirmou que o Centro Conjunto de Apoio e Treino China-Laos e a Academia de Aviação da Amizade China-Laos destinam-se a reforçar a formação dos pilotos militares laosianos e "não são dirigidos contra terceiros".
Pequim não esclareceu, contudo, se pretende estacionar permanentemente aeronaves e militares chineses na instalação.
O diretor da Iniciativa de Transparência Marítima da Ásia, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), Greg Poling, considerou que a infraestrutura não altera radicalmente o equilíbrio militar regional, mas poderá preocupar particularmente o Vietname, que mantém disputas territoriais com a China no mar do Sul da China.
Um responsável vietnamita, citado pela AP mas que pediu para não ser identificado, afirmou que Hanói encara oficialmente o projeto como um centro de treino e assistência humanitária, mas considera que a iniciativa visa também reforçar a influência chinesa no Laos.
"O destacamento de forças militares chinesas no Laos colocaria naturalmente uma pressão militar adicional sobre o Vietname", afirmou.
O Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), um 'think tank' norte-americano, alertou que, embora a instalação não permita ainda realizar grandes operações militares, a localização poderá oferecer às forças aéreas chinesas rotas alternativas para alcançar áreas disputadas do mar do Sul da China e contornar o espaço aéreo vietnamita.
A Tailândia, que partilha uma fronteira com o Laos, afirmou não considerar a infraestrutura uma ameaça imediata à sua segurança.
O porta-voz do ministério da Defesa tailandês, Surasant Kongsiri, sublinhou que o Laos tem o direito soberano de celebrar acordos militares com outros países, mas garantiu que Banguecoque continuará a acompanhar a evolução do projeto.
Evan Laksmana, analista do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), considerou que a base poderá também complicar o planeamento militar norte-americano num eventual conflito em torno de Taiwan, ao oferecer uma pista alternativa para aeronaves chinesas danificadas e instalações de reparação.
A infraestrutura poderá ser abastecida através da ligação ferroviária entre a província chinesa de Yunnan e Vientiane, construída no âmbito da iniciativa chinesa Faixa e Rota.
O Laos, um dos países mais pobres do Sudeste Asiático e fortemente endividado perante a China, dispõe atualmente de apenas sete aeronaves com capacidade de combate, segundo o relatório anual Military Balance, do IISS.
Para Laksmana, o principal benefício para Pequim poderá residir menos na capacidade de combate e mais na experiência adquirida na operação de instalações militares em território estrangeiro.