Nova versão de 'A Leste do Éden' é delicada e subversiva - 08/10/2026 - Luciana Coelho - Folha
Quando se propôs a escrever a versão em minissérie de "A Leste do Éden", saga familiar que atravessa décadas definidoras da história norte-americana, Zoe Kazan sabia ter duas sombras a superar.
A primeira é a do livro de John Steinbeck, lançado em 1952 e considerado pelo autor de "As Vinhas da Ira" sua obra-prima. A segunda é a de Elia Kazan, diretor do clássico de 1955 que lançou James Dean, "Vidas Amargas", adaptado do mesmo romance.
Elia é avô de Zoe e uma figura divisiva: sua produção, que inclui "Sindicato dos Ladrões" e outros filmes magistrais, foi em parte ofuscada pelo fato de ele ter denunciado colegas ao temível Comitê de Atividades Antiamericanas. Essa terceira sombra, da mácula familiar, é tão discreta quanto incisiva na série.
Com a minissérie no ar desde o dia 1º, Zoe Kazan superou os três desafios graças a algumas escolhas.
Enquanto o avô se concentrou na parte final do livro, sobre os mais jovens da família Trask, a neta deu ênfase à geração anterior —o romance cobre dos anos 1860 até o fim da Primeira Guerra, em 1918.
Assim, amplificou a personagem Cathy Ames e fez dela objeto central, deslocando a narrativa e suscitando questões.
É com Cathy, vivida por Florence Pugh com ares de Capitu no início e como uma vilã barroca depois, que Zoe abre a série; quando ela, desfigurada por uma surra, chega se arrastando às portas dos irmãos Adam (Christopher Abbott) e Charles Trask (Mike Faist).
Descrita como demônio por Steinbeck, trata-se de uma mulher arrivista e pragmática, que usa o sexo para manipular geral e demonstra um tino para negócios incompatível com os papéis de gênero da época.
É Cathy, mais que os pares de irmãos Trask, que melhor representa o livre-arbítrio, tema do livro, na nova versão.
Está aí a reviravolta de Zoe Kazan: encarnado por uma mulher, esse livre-arbítrio se confunde com vilania. Afinal, falamos de alguém que, nos anos 1900, repele a maternidade, abandona os filhos, enriquece na prostituição e comete crimes para driblar obstáculos.
É como se Cathy precisasse quebrar não só os costumes como as leis e a ética que restringiam suas possibilidades então. Nesse jogo de sombras, Pugh constrói a personagem ora como psicopata, ora como anti-heroína vingadora (há um parentesco acidental com outra grande série recente, "Fúria").
Outro acerto é desenvolver Lee, o erudito empregado chinês dos Trask, cujo passado ganhou peso. Com atuação impecável de Hoon Lee, sua história com os horrores da imigração chinesa para a Califórnia valeria, sozinha, uma série.
A roteirista decidiu reduzir o espaço dos Hamilton, a outra família que sustenta a trama e é inspirada na história do avô de Steinbeck. Felizmente, há cenas suficientes para a grande atuação de Ciaran Hinds.
E há, por fim, os irmãos. Adam e Charles, e depois Aron e Cal (Joe Anders e Joseph Zada, este muito bem no papel que foi de Dean). É a eles que se deve o título, alusão ao local para onde a humanidade foi expulsa após Caim matar Abel na história bíblica.
Zoe Kazan conduz a saga alternando a paisagem vasta do Vale de Salinas com as claustrofóbicas cenas de interior, um reflexo dos dilemas do enredo. E oferece um novelão familiar intenso no qual a conformação aos papéis pré-estabelecidos é a verdadeira tragédia.
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