GPS: Novo é partido mais à direita; PSTU, mais à esquerda - 06/09/2026 - Política - Folha
O Novo segue como o partido mais à direita, e o PSTU, o mais à esquerda, no GPS Partidário, métrica da Folha que ordena as siglas da esquerda à direita.
A régua foi atualizada incorporando dados de 2026 e o comportamento recente dos deputados, medido por cinco indicadores: votações na Câmara dos Deputados, formação de frentes parlamentares, migração de partidos, coligações partidárias e doações de campanha.
O sistema partidário brasileiro é um dos mais fragmentados do mundo. Não é simples saber a posição de cada sigla no mapa político, ainda mais com as fusões, incorporações e mudanças de alianças. O desafio aumenta quando o posicionamento oficial de uma legenda não condiz com a maneira com que seus representantes tomam decisões.
Por isso, o GPS parte da análise de rastros públicos dos candidatos, vindos do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e da Câmara dos Deputados, que mostram como os partidos se posicionam na prática.
A reportagem considerou 1.097 votações, 320 frentes parlamentares, 11,2 mil trocas de sigla, 15,6 mil coligações e 1,1 milhão de doadores, cobrindo 29 das 30 siglas.
O PCO (Partido da Causa Operária) é o único que ficou fora, porque não elegeu deputado, nunca dividiu chapa e fica abaixo dos cortes mínimos de trocas e de doadores de campanha.
A régua de 2026 exibe os 29 partidos em novos blocos distribuídos em esquerda, centro e direita. As fronteiras entre os campos foram traçadas a partir de estudos acadêmicos sobre ideologia.
O GPS não usa os termos extrema direita ou extrema esquerda para caracterizar os partidos porque mede a proximidade entre eles, não os métodos que empregam. O "extremo" não é o ponto mais distante da escala, mas qualifica quem pratica ou prega a violência como método político, o que exigiria outra medição.
A régua final do GPS é a média das outras cinco réguas. A conta usa rankings: vale a posição de cada partido na fila, não os números de cada escala.
O primeiro indicador contabiliza como cada parlamentar se posicionou no painel da Câmara dos Deputados. A métrica inclui as votações de janeiro de 2023 a julho de 2026 e contempla 565 deputados presentes em ao menos 10% delas (incluindo suplentes).
Essa métrica indica que, na maior parte das votações, o bloco da esquerda e o centrão votaram com o governo, somando 423 deputados contra 142 da oposição.
Nas 1.097 votações observadas, 9 em cada 10 votos (91,5%) saíram como o líder do partido orientou.
De modo geral, quanto mais o parlamentar vota com o governo, mais alinhado à esquerda; do contrário, mais alinhado à direita. O cálculo, no entanto, é um pouco mais complexo, seguindo uma lógica de atrações e repulsões entre as siglas.
A conta é feita por um modelo estatístico usado há 40 anos para medir o Congresso americano. O número não mede uma quantidade, como metros ou anos; só serve para comparar.
Por exemplo, se PSOL, Rede, PCdoB votam sim para uma proposta e o PT, alinhado a esse grupo, vota não ao lado de PL, Novo e DC, essa votação coloca o PT para a direita da régua, porque ele está seguindo um conjunto de siglas que geralmente vota junto e repele o outro grupo.
Nesta primeira métrica, o PT é o partido mais à esquerda. O Avante, do centro, que na régua final fica à direita de MDB e PSD, aparece como a sigla de centro mais à esquerda, portanto com mais afinidade com esse campo nas decisões do Parlamento.
A régua abaixo mostra a posição de cada deputado de acordo com seus votos.
O Missão tem um deputado só, menos que o piso de três para virar posição de partido, por isso não figura na régua.
A deputada federal Julia Zanatta (PL-SC), presente em 71% das votações, é a mais à direita. Depois dela vem Gustavo Gayer (PL-GO), presente em 82%. Na outra ponta, o mais à esquerda é Padre João (PT-MG), presente em 92%, seguido de Lenir de Assis (PT-PR), em 37% das votações.
Em 1.014 votações com quórum nos três blocos, só três vezes as duas pontas da régua votaram juntas e o meio votou do outro lado. O exemplo mais claro é de 25 de junho de 2025, quando o assunto era o tamanho da Câmara: um requerimento tentava tirar da pauta o projeto de aumentar as cadeiras de 513 para 531.
Votaram para tirar da pauta PT (39 a 16), PSOL (12 a 0), PL (60 a 24) e Novo (5 a 0); votaram para manter MDB, PSD, PP, União e Republicanos, cada um por ampla maioria. A esquerda não foi inteira: PDT, PSB e PCdoB ficaram com o miolo. O requerimento caiu por 200 a 254, o aumento passou, e o presidente Lula (PT) vetou o texto em 16 de julho.
A segunda métrica do GPS analisa a composição das frentes parlamentares. Para criar uma frente, bastam as assinaturas de um terço do Congresso, uma ata e um representante. A reportagem considera a assinatura dos deputados em cada uma das 320 frentes criadas na atual legislatura.
Esquerda e direita aparecem, em boa parte, em conjuntos de temas: renda, minorias e ambiente de um lado; mercado, armas, agro e costumes do outro. No meio, sem lado definido, estão frentes como a da Defesa da Indústria Têxtil e a do Combate à Violência em Ambiente Digital.
A fatia do PT nas assinaturas vai de 35% na Frente de Direitos LGBTQIA+ a zero na Frente Contra o Aborto, e a do PL faz o caminho inverso, de quase nada a 47%. Já PSD, Republicanos e União assinam dos dois lados da régua em proporções parecidas.
No plano individual, entretanto, há contradições: 41 deputados assinaram ao mesmo tempo a Frente pelo Livre Mercado e a Frente pela Reestatização da Eletrobras. Metade dos 41 é do PL, do PP e do Republicanos.
O terceiro indicador que forma o GPS Partidário é a migração de siglas: de onde saem e para onde vão os candidatos que trocam de legenda, considerando as eleições de 2022, 2024 e 2026.
Desde 2022, 176 candidatos deixaram o PT. Os principais destinos deles foram PDT (23) e PSB (22), seguidos de MDB, Rede e Republicanos (12 cada). Duas pessoas partiram para o PL e outras duas para o Novo.
Já do União Brasil saíram 763 candidatos, e o destino de destaque foi o PL (106), seguido de Podemos (76) e Republicanos (75).
O número absoluto reflete que partido grande atrai mais gente: de cada 100 políticos que trocaram de sigla no país, 9 foram para o PL, 8 para o Republicanos e 7 para o MDB, enquanto 1 foi para o PSOL. Por isso a régua compara cada dupla de partidos com o que seria esperado se o destino fosse sorteado pelo tamanho das siglas.
A quarta métrica é a de coligações partidárias, siglas que se unem para registrar um mesmo candidato. Ela considera 15.361 chapas formadas em 5.569 cidades para as eleições municipais de 2024, além de 278 chapas compostas para os cargos majoritários de 2026.
Partidos como MDB e PSD, PL e União, PDT e PT coligam entre si dentro do que é esperado pelos seus tamanhos. Já PT e PL quase não compõem chapas juntos, e Novo e PSOL não dividiram nenhuma no período.
O PSTU é um caso de isolamento: das 53 chapas em que aparece, 52 foram de partido único, e a única partilhada no país inteiro foi com PSOL e Rede.
O último indicador da metodologia é o de doações de campanha. Ele se baseia em 1,4 milhão de doações nas eleições de 2022 e 2024, feitas por 1,1 milhão de CPFs diferentes, somando R$ 2,1 bilhões. Não foram consideradas as doações de 2026 porque os dados ainda são parciais.
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Assim como a maioria dos candidatos nunca troca de sigla, 96 de cada 100 doadores financiam um partido só. Por isso entram na análise apenas os 47 mil que doaram a mais de uma sigla.
Como há maior probabilidade de dois partidos grandes dividirem mais doadores só por causa dos seus tamanhos, cada par é comparado com o que aconteceria se o doador escolhesse suas siglas por sorteio, na proporção do número de doadores de cada partido. Nesse cenário, PT e PL teriam 2.600 doadores em comum. Tiveram 440. Entre PSOL e PT, o sorteio previa 560; apareceram 3.500.
Dentro da esquerda, os pares de partidos dividem quase o triplo dos doadores que o acaso previa. Dentro da direita, a fidelidade ideológica é menor, só um quinto a mais que o esperado.
Nas cinco réguas, a ordem muda pouco, reforçando a consistência da posição. Os lados não variam: PSOL e PT à esquerda nas cinco, PL e Novo à direita. União e PSB aparecem perto deles, cada um de um lado, e MDB e PSD ficam sempre no meio.
Esta é a terceira vez que a Folha mede a posição partidária. Apesar de diferenças metodológicas, há alto nível de concordância entre as versões.
O resultado final é usado pelo jornal para aplicação das cores e gradações que caracterizam cada partido, além de balizar reportagens na cobertura eleitoral.
A metodologia completa pode ser lida neste link.
Colaboraram Nicholas Pretto e Vitor Antonio.