O adeus ao grande Luís Represas

🗓️ 2026-07-23 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

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Está em praticamente toda a imprensa a notícia que trazes aqui hoje, Bruno.

Sim, foi a notícia do dia de ontem, a morte de Luís Represas, o vocalista do Trovante.

Projeto Trovante.

Projeto Trovante. Também agora vou passar a dizer o GNR, o Grupo Novo Rock.

Faz sentido.

Faz sentido. Vamos fazer essa atualização.

O Delfins.

O Delfins, o projeto Delfins, de Miguel Ângelo. Claro, fala-se do legado de Luís Represas, da história da banda, que marcou a música popular portuguesa nos anos 80. Aqui, também sobre o início, muito associado ao Partido Comunista, e a todo aquele caldeirão político no pós 25 de abril. Houve, de facto, uma ligação muito próxima dos elementos da banda ao Partido Comunista, à Festa do Avante, também falámos aqui disso ontem na emissão especial. E Luís Represas e os outros membros da banda, nas entrevistas que deram ao longo dos anos, falaram disso mesmo, como foi importante também para eles essa ligação, porque lhes permitiu participar em muitos festivais internacionais de vários países que estavam para lá da Cortina de Ferro, na Checoslováquia, na RDA, na Bulgária, também em Cuba. Cuba, que seria uma outra das ligações musicais já na carreira a solo de Luís Represas, mas ao mesmo tempo também, e aos poucos, houve um afastamento político ou musical em relação a esse período. Nunca renegaram que tivessem tido essas ligações, os Trovante, mas de facto seguiram depois um outro caminho. Eles não queriam ser quase que a banda oficial do PCP.

Nós falámos ontem como o público do Trovante era tão transversal. Portanto, era muito mais do que o público do Avante.

De início, claro, havia essa associação, que era natural, tendo em conta até o próprio estilo. Ontem ouvimos aqui o Pedro Tadeu e o Miguel Cadete falarem, e o Júlio Isidro também.

Mas temos que pensar nos anos 70, quando os Trovante começam. Portugal não tinha grandes concertos, não tinha palcos para grandes concertos. A Festa era um dos poucos locais onde era possível ver grandes artistas atuar.

Sim, e artistas também internacionais.

Tornava quase obrigatório que muitos passassem por lá.

Aliás, como continua a acontecer.

E como continua a acontecer.

Hoje, a Festa do Avante teve esse mérito. Eu sei que, entretanto, houve polémicas a propósito da Festa, até nos últimos anos, nos anos da pandemia, mas a verdade é que, na minha opinião, a Festa do Avante conseguiu criar ali uma identificação, uma identidade, que vai para além das fronteiras do partido.

Claro que sim.

Portanto, chega a muito mais gente do que os militantes do Partido Comunista e, em parte também, pela escolha, pelo cartaz musical que tem tido ao longo dos anos e do qual os Trovante foram uma das bandas de marca, eu diria, ao longo dos tempos. Luís Represas é mencionado aqui no especial da Joana Moreira, que está no site do Observador. Ela relembra uma entrevista de Luís Represas em 2022, a propósito deste afastamento daqueles primeiros tempos em relação ao PCP. Ele contava uma história que envolvia Álvaro Cunhal, na altura secretário-geral do partido, em que lhe teriam dito, alguém lhe teria feito chegar a ideia de que a rapaziada do Trovante anda a portar-se mal. Ou seja, andava a afastar-se, a seguir um caminho muito próprio, e que Álvaro Cunhal terá respondido: "Eles são jovens, deixa-os voar". E eles voaram. Seguiram esse caminho, que foi muito marcante na música portuguesa, e acabou por conquistar essa transversalidade, que não é assim tão frequente. Normalmente, os artistas ficam muito acantonados, seja um género musical, seja a identificação, por exemplo, com as catingas de intervenção. Não foi o caso dos Trovante, não foi o caso também de outros grandes cantautores, compositores, como por exemplo Sérgio Godinho, que também já reagiu e que chegou a colaborar com Luís Represas, escreveu uma canção para Luís Represas e lembrou também todo esse percurso.

As carreiras longas têm isso. Têm que ter vários públicos, várias gerações.

E estamos a falar de uma época em que tudo era político. Não havia forma de não ser político em 1976, ainda por cima jovens de 18, 19, 20 anos, como eles eram. Mas depois, de facto, conseguiram chegar a esses públicos, sendo que a banda, e isto também é notável e falámos disto aqui ontem, a banda teve uma duração relativamente curta. Não foram 40 e tal anos, não foram 50 anos. Os Trovante tiveram uma existência de 13 anos, até ao último disco de originais, 15, se contarmos o momento do anúncio da separação da banda. Mas ficou todo esse legado. E eu lembro muito os concertos, os vários concertos que foram sendo realizados depois, ao longo dos anos, em que a banda se reunia e que conseguiam sempre reencontrar o seu público, que estava sempre à espera desse momento. Eu acho que até ao fim houve sempre aquela expectativa de que eles se voltassem a reunir para um novo disco de originais. Acabou por não acontecer.

Ou pelo menos não com o modelo original. Agora com a partida de Luís Represas. Ontem, e já de microfone fechado Estávamos aqui a discutir se o fenómeno Trovante era mais de cidade, se era de todo o território. No Porto não havia tanto impacto como em Lisboa dos Trovante. Era isso.

Eu fiquei com essa sensação por ter vivido nessa altura. O Trovante passava na rádio, o Luís Represas passava na rádio.

Na televisão.

Na televisão. Era uma figura muito conhecida, mas sempre achei que havia um pouco ali de fenómeno um pouco mais local, mas pode ter sido só uma sensação minha, de ser uma banda da linha.

Depois a idade é que nos deu o posto.

A linha, a burguesia lisboeta.

Eu acho que é isso, tem um pouco essa conotação, ou teve durante alguns anos. Nunca foram os rebeldes do rock.

Não foram, não foram os punk.

Não foram punks.

Era a banda de que os pais também gostavam.

Era o ponto de contacto entre algumas gerações, o que não acontece com bandas que têm uma atitude mais rebelde.

Sim.

Eram bem comportados.

Bem comportados, bem vestidos.

Eu acho que, e quando estávamos aqui a falar também sobre os Trovante, eu estava aqui com uma ideia um bocado contraintuitiva, que eles, por não seguirem as modas da altura e por procurarem sempre facetas muito próprias, acabavam por ser um pouco rebeldes nesse sentido.

Ou seja, eram rebeldes para os seus pares, porque não alinhavam nesses ventos.

E isso é verdade. Eles conseguiram manter uma certa independência e não seguir modas, o que os tornava difíceis de classificar. A classificação dos Trovante era um pouco difícil. Mas também é verdade que havia no público a que eles chegavam, isto para não ser mal entendido, mas é a minha ideia, que tornava um pouco a banda do sistema.

Sim.

Ou seja, era aquela banda, como dizias, bem comportada, do bom gosto, com uma sofisticação QB.

E mesmo a nível estético, há alguma proximidade. Eles fazem um bom shift entre o que será a música popular ligeira e o pop rock. Eles estão ali um bocadinho a meio caminho.

Estão no meio caminho, exatamente.

Esse meio caminho entre o que poderia ser a música ligeira de alguns autores próprios dessas gerações e depois aqueles que são mais rock ou mais pop rock. Eles estão ali num sítio onde não há outras bandas, acho eu, que esteja nesse meio caminho entre a música ligeira e o pop rock.

Ou seja, não caem na fulerice. São tradicionais, populares, mas não caem na fulerice, mas também não são demasiado arrojados.

É isso.

E então encontram ali um público. Eu acho que é esse, talvez, o segredo de ainda hoje continuarem a ser ouvidos e haver tanta gente. Vimos os concertos ainda este ano.

Os quatro, sim.

Sim, com tanto público.

Destacamos então esse artigo que está no site do Observador, assinado pela Joana Moreira e dedicado à vida e obra de Luís Represas.