O amigo que cuidava de todos: C-drama da Netflix aborda saúde mental

🗓️ 2026-09-23 📁 entertainment 📝 ⏱️ 👁️ : -
Uma mulher e um homem jovens, ambos com cabelos pretos longos, posam juntos. Ela está à frente, com a mão esquerda no braço dele, e ele está atrás, com o braço direito sobre o ombro dela. Ambos olham diretamente para a câmera com expressões sérias, vestindo roupas escuras. O fundo é cinza claro com um leve brilho dourado à direita
Jing Boran e Sun Qian estrelam “The Early Spring”, drama chinês exibido pela Netflix (Netflix/Divulgação)

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Sun Yuanzhu, personagem vivido pelo ator Liu Xiaobei, é aquele tipo de amigo que todos gostariam de ter. Gentil, responsável e sempre atento às necessidades de quem o cerca, ele funciona como uma fortaleza para o seu grupo em “The Early Spring”, drama chinês estrelado por Jing Boran e Sun Qian e exibido pela Netflix. Por trás da fachada de equilíbrio e altruísmo vivida pelo ator Liu Xiaobei, no entanto, esconde-se uma espiral silenciosa de sobrecarga emocional que culmina em suicídio. A série chegou ao terceiro lugar entre as mais assistidas da Netflix no Brasil na semana de 7 a 13 de setembro. Na lista da semana seguinte, ocupava a oitava posição.

O enredo de Yuanzhu reflete uma realidade brutal: após perder a mãe para o câncer, o jovem passa a sustentar a irmã mais nova e a lidar com a pressão financeira imposta por um pai dependente de apostas. Enquanto se anula cotidianamente, negligenciando a própria alimentação e o descanso para manter a família de pé, ele continua a ser o porto seguro dos amigos, incapaz de verbalizar a própria dor.

Essa dificuldade pode fazer com que o sofrimento passe despercebido até por quem convive com a pessoa, segundo Marília Batarra, coordenadora de Saúde Mental das Linhas de Cuidado da Amil:

“Existe uma dificuldade cultural em aceitar que não estamos bem. Para algumas pessoas, admitir isso significa entrar em contato com uma sensação de fragilidade, dependência ou perda de controle. Então, elas continuam funcionando, trabalhando, cuidando dos outros e cumprindo suas responsabilidades, enquanto internamente estão cada vez mais sobrecarregadas”.

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A médica ressalta que não existe um perfil único de pessoa em sofrimento psíquico ou com comportamento suicida. Segundo ela, a cobrança para ser forte e resolver os problemas dos outros pode se tornar um obstáculo quando vem acompanhada da ideia de que demonstrar fragilidade ou pedir ajuda está fora de questão. Entre os homens, diz a especialista, a expectativa de autocontrole e resistência emocional pode tornar ainda mais difícil falar sobre o que sentem.

Esse mês, a história de Yuanzhu se soma às discussões do Setembro Amarelo, campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio Os dados brasileiros mostram a dimensão do problema entre os jovens. O segundo Informe Epidemiológico sobre a Situação de Saúde da Juventude Brasileira: Saúde Mental, da Fiocruz, de 2025, aponta uma taxa de 31,2 mortes por suicídio para cada 100 mil jovens, acima da taxa de 24,7 por 100 mil habitantes na população geral. Entre os homens jovens, o índice chega a 36,8. O estudo também registra que menos da metade dos jovens internados por problemas de saúde mental recebe acompanhamento médico ou psicológico após a alta.

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Tristeza, medo e frustração fazem parte da vida. Segundo Batarra, o sinal de atenção é a persistência ou a intensificação do mal-estar, sobretudo quando ele interfere no sono, no trabalho, nos estudos, nas relações ou na capacidade de sentir prazer.

“Também precisamos prestar atenção quando a própria pessoa percebe: ‘eu não estou conseguindo voltar ao meu funcionamento habitual’. E existe um ponto importante: não precisamos esperar que o sofrimento seja extremo para procurar ajuda”, diz.

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A especialista afirma que o acompanhamento de psicólogos e psiquiatras também pode ajudar a compreender o que mudou antes que a situação se agrave. Para ela, a história de Yuanzhu pode servir de ponto de partida para uma conversa sobre cuidado, desde que o suicídio não seja apresentado como consequência inevitável de uma perda nem como solução para o sofrimento.

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