O cafezinho que entrou no mais completo dicionário inglês
Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Português suave na Rádio Observador, edição de domingo, com o sempre carismático Marco Neves. Muito bom dia. Olá.
Olá Rita. Continuamos com esta substituição da Rita. O João acho que não se importa e está muito bem substituído. Obrigado por estares aqui a conversar sobre a língua portuguesa.
Obrigada eu.
Hoje vamos ter aqui várias notícias. Curiosamente, vamos falar um pouco do inglês, mas há razões para isso e o inglês também é uma língua interessante, muito usada, também tem as suas características e as suas particularidades e também várias ligações ao português, tanto palavras que vêm do inglês pro português, como até do português pro inglês. Mas hoje vamos falar aqui de notícias sobre um dicionário muito importante e por isso vamos avançar para a língua nas notícias.
Vamos a isso.
O maior dicionário de língua inglesa é o Oxford English Dictionary, que é antigo e muito importante na história da língua e também até na história das várias línguas, porque é provavelmente o dicionário mais abrangente de uma língua que se conhece. Aliás, é por causa deste dicionário que há uma ideia errada, que por vezes se ouve, que o inglês é a língua com o maior vocabulário. Às vezes ouve-se isto. A verdade é a língua que teve a sorte de ter um dicionário muito grande, com muito trabalho, ou seja, em que houve equipas já há bastante tempo a conseguir incluir muitas palavras e a descrever até a história dessas palavras dentro do dicionário.
Conhecemos este dicionário muito bem dos tempos da escola.
Sim, na escola normalmente nós usamos uma espécie de Oxford. São dicionários que são extratos deste grande, porque o maior de todos eu só o vi em papel e mesmo assim não sei se era a maior versão de todas, na biblioteca da minha faculdade, e são umas boas dezenas de volumes, aquilo é muito grande. E depois há a versão online, que consegue ter ainda mais trabalho, porque para cada palavra, este dicionário inclui também a história da própria palavra, no sentido em que põe a data em que ela apareceu pela primeira vez e várias datas com essa história. E no dia 23 de setembro deste ano, por isso é que é língua nas notícias, apareceu a notícia de atualizações, novas palavras que aparecem no dicionário. E uma delas é muito interessante, que é a palavra mountweasel. É uma palavra que aparece para designar, isto é uma malandrice dos dicionários e das enciclopédias, para designar palavras ou entradas que são falsas, são propositadamente falsas. Houve uma enciclopédia, a New Columbia Encyclopedia, que em 1975 pôs uma entrada para uma senhora chamada Lillian Virginia Mountweasel. Esta pessoa nunca existiu, aquela entrada era completamente falsa, propositadamente falsa, e não sei se consegues adivinhar por que razão é que eles fizeram isto, por que puseram numa enciclopédia uma pessoa que nunca existiu. Tens alguma sugestão?
Não faço ideia, mas poderia ser para aumentar ainda mais o dicionário.
Por essa lógica, aquele dicionário é tão grande porque eles inventam palavras. Por acaso não inventam muitas, não é a função dos dicionários, das enciclopédias, é uma forma de combater a cópia. Ou seja, o que eles pensavam era: nós temos concorrentes que estão a fazer enciclopédias e que têm a tentação de copiar a nossa enciclopédia mudando só o texto e assim já têm o trabalho feito e estão a copiar sem que nós consigamos perceber isso. Se nós pusermos ali no meio uma entrada falsa e se esta entrada falsa aparecer numa outra enciclopédia qualquer, quer dizer que essa enciclopédia copiou a nossa palavra. Há dicionários que também fazem isto.
É uma manobra de...
É uma manobra de, no fundo, evitar plágio. Esta pessoa inventada, Lillian Virginia Mountweasel, acabou por dar origem a uma palavra real que designa isto. Ou seja, mountweasel é uma entrada fictícia numa enciclopédia ou num dicionário, e agora a própria palavra entrou no dicionário real, o Oxford English Dictionary. Agora as pessoas poderão estar a perguntar: "Mas por que é que estás a falar do inglês?" Estou a falar do inglês porque eu acho que como todas as línguas, é interessante, ainda por cima é uma língua que muitos de nós aprendemos. Além disso, este dicionário tem muitas palavras e expressões de origem portuguesa, como é óbvio. Uma delas é a expressão park the bus, que foi introduzida na língua inglesa em 2004 por José Mourinho, numa entrevista que ele deu à televisão em que diz, em inglês: "Na minha língua, nós por vezes dizemos estacionar o autocarro à frente da baliza", e os ingleses gostaram tanto daquilo que acabou por ser uma expressão que está no dicionário e aparece lá mesmo José Mourinho, a data da entrevista e o momento em que aquela expressão entra no inglês.
E qual é a expressão?
Em inglês é park the bus. Park the bus quer dizer pôr o autocarro à frente da baliza.
Isso é espetacular.
E ainda vamos falar de mais uma expressão portuguesa, agora no Mapa da Língua, mas vamos avançar para o Mapa da Língua. Isto porque na mesma notícia em que se diz que mountweasel passou a ser uma palavra do dicionário, não passou a ser uma palavra da língua inglesa, que já era. Os dicionários não inventam palavras, os dicionários registam aquilo que já está feito. Entrou também uma palavra na língua inglesa, ou melhor, lá estou eu, agora errei eu. Entrou também uma palavra no dicionário de língua inglesa, no Oxford English Dictionary, que é cafezinho.
Cafezinho?
Sim, cafezinho. Cafezinho é em português.
Em português?
Com NH, cafezinho. A definição. Entrou também ao mesmo tempo café com leite e cold brew. Isto são palavras Que não são inglesas, mas que são importadas para o inglês, tal como nós também importamos palavras inglesas e espanholas. A definição que aparece no Oxford English Dictionary é, eu vou tentar traduzir: "No Brasil, um café forte e adoçado servido numa chávena pequena, também uma dose dessa bebida". Eles associam o cafezinho ao Brasil, mas claro que a palavra é portuguesa, e tem este diminutivo tão da nossa língua, e é considerada uma palavra também no inglês. A primeira vez que este dicionário detetou a palavra em escritos ingleses foi em 1939, num jornal em que alguém fala em inglês do cafezinho brasileiro.
Isso é extraordinário.
E agora temos o cafezinho como palavra da língua inglesa, que está no dicionário.
Quem diria?
E o famoso "inho", que é uma coisa que o português tem e que o inglês tem mais dificuldade em fazer.
O cafezinho.
Não só o cafezinho, é verdade, o cafezinho em inglês é pior. Tanto o brasileiro como o português é melhor, e nós como somos portugueses dizemos que o nosso é o melhor de todos. Aliás, uma velha tradição portuguesa é ir a outro país e dizer: "O café não é tão bom como o nosso."
Sempre.
Além disso, nós temos o "inho" com que fazemos diminutivos. Normalmente, os diminutivos não têm que ver com a dimensão, têm que ver com a nossa relação com a coisa ou com a pessoa. Se eu digo "o meu livrinho", não é que seja pequenino, é porque eu gosto muito do livro, tem a ver com o carinho. E os ingleses não têm propriamente este sufixo de diminuição. Têm alguns sufixos que fazem coisas parecidas em alguns casos, mas usam outra palavra, "little" qualquer coisa. Portanto, este "inho" é muito da nossa língua. Há outras línguas que fazem isto. Por exemplo, uma língua germânica que faz isto também é o neerlandês, também tem muitos diminutivos, mas de facto é muito particular do português e muito particular do galego também. Os espanhóis que falam castelhano já dizem de outra maneira. E este "inho" acabou agora no dicionário com o cafezinho.
Isso é espetacular. Adoro que tenham incluído essa palavra.
E está a aparecer um cafezinho?
Sim, já vou no terceiro.
Isso também é outra coisa. A bica, nós chamamos de bica.
Pois, eu pensei assim: "Podiam ter incluído a bica."
Não, isso está quase a entrar no dicionário espanhol, porque já discutimos aqui, noutros episódios, que há zonas de Espanha, principalmente ali à volta de Badajoz, mas também mais para sul e um pouco mais para norte, onde estão a usar a palavra bica para designar o café expresso. Usa-se mais bica em Badajoz do que no Porto.
Curioso.
Porque as pessoas do Porto sabem perfeitamente o que é uma bica, mas usam café. Antigamente usavam o famoso cimbalino, mas acho que é uma expressão que já não se usa. Portanto, bica não é uma expressão muito típica do Porto, mas é expressão típica de Lisboa, da Madeira, do Alentejo e pelos vistos de Badajoz também. Se calhar vai parar no dicionário de língua espanhola, não sei, não fui ver ainda, veremos. E agora vamos aos nossos mitos e origens da língua.
Vamos a isso.
Neste caso, Rita, não é nenhum mito, nenhuma origem, ou melhor, é mais uma pergunta que anda no ar, que é: o que é que a inteligência artificial vai fazer com a língua? Ou seja, como é que as línguas vão evoluir? Qual é que vai ser a relação da forma como nós falamos por causa desta nova atividade humana, que é conversar com a inteligência que não é humana.
Sim, à partida ela aprenderia conosco, não é?
Sim, ela aprende conosco.
Aprende conosco.
Mas ao mesmo tempo, já está numa fase em que nós também já aprendemos coisas com a inteligência artificial, para o bem e para o mal. E muitas pessoas têm medo disto.
Até dizem que já usam entre a inteligência artificial, entre os agentes, uma língua código.
Sim, exatamente. Nós chegamos a falar disto há uns episódios. Há palavras novas do inglês, ou seja, é quase como se fosse um socioleto da inteligência artificial. Ou seja, uma forma particular de falar que se nota que é usada entre agentes de inteligência artificial.
Como se estivesse a nascer uma nova sociedade.
Exatamente. Não sei se isto é por ficarmos muito assustados ou muito interessados.
Eu estou um bocadinho, sim.
Porque não deixa de ser curioso, para a pessoa pensar, é quase uma experiência linguística, vamos ver o que vai acontecer, mas a pessoa fica: "O que é que vai acontecer?" Depende da entoação. Aqui, neste caso, não é nenhum mito, nenhuma origem, ou talvez seja a origem de alguma coisa nova, mas a Comissão Europeia, por exemplo, está a divulgar um prémio para tentar conseguir mais estudos sobre uma característica da inteligência artificial, que é: quando a inteligência artificial aprende uma nova língua, e é possível, elas aprendem línguas, nós sabemos que podemos conversar com os vários modelos em várias línguas, muitas vezes acontece uma coisa que tecnicamente é chamada de esquecimento catastrófico. Ou seja, quando aprende uma língua nova, às vezes esquece de outra língua, a inteligência artificial. Imagina, um modelo qualquer aprende ucraniano, lembro-me agora do nada, vai se esquecer do polaco ou do francês.
Esquecer-se no sentido de, na conversa-
Deixa de conseguir usar. Fica com menos informação sobre a língua anterior, o que é um fenómeno muito curioso e muito estranho. Os seres humanos não fazem bem isto. É verdade que às vezes nós esquecemos de uma língua. As pessoas, se não usarem a língua, mesmo a língua materna, podem ir perdendo competências nessa língua, mas se continuarem a usar essa língua, não se esquecem, em geral.
Sim, é muito comum uma pessoa não se lembrar muito bem das expressões em inglês, mas basta estar uma semana de férias fora do inglês.
Mas vamos imaginar uma pessoa bilíngue. Imaginem, os filhos falam uma língua, o marido ou a mulher fala outra língua. Vão continuar com as duas línguas sem grande problema. Pelos vistos, a inteligência artificial tem uma característica que é quando aprende uma nova, mesmo que use a outra, a outra pode perder competências. Enfim, não sei, não sou especialista nisto, não estou a investigar.
Mas olha, ainda bem, para sermos um bocadinho superiores nalgumas coisas.
Exatamente. Nós somos superiores, o que até é lógico, se pensarmos bem, porque as línguas foram criadas neste hardware, por usar a palavra inglesa, que é o nosso cérebro.
Sim. Ligado à emoção.
Exatamente, ligado ao corpo.
Ao ambiente, à cultura.
As nossas línguas estão adequadas a este equipamento. Um equipamento que está dentro de um corpo, dentro de uma sociedade, quando passam para outro tipo de hardware, há estas mudanças que mostram que as coisas são diferentes.
Que a língua é muito mais viva do que robótica.
Mas pronto, é assim.
Eu fico contente.
Sim, também eu.
Há esperança. Ias vencer. Mas não somos nós contra eles.
Quase que podemos imaginar aqui um filme de ficção científica em que estamos no futuro, em que a inteligência artificial está a começar a dominar o mundo e nós simplesmente: "Então agora aprendi uma língua nova" e depois ela esquece.
Mas agora vou pensar então em algo mais catastrófico, que é eles falarem mesmo uma outra língua que nós não entendemos nada.
E nós vamos ter de encontrar tradutores dessa língua.
Em termos de fazer amigos, agentes da inteligência artificial.
Que nos ensinem. Espiões, ou seja, agentes duplos.
Sim, espiões, exatamente.
Um agente duplo da inteligência artificial que nos vai ensinar que língua é aquela que eles acabaram de inventar, adequada ao seu hardware e ao seu corpo, e nós não conseguimos perceber o que é aquilo. Mas vamos avançar para o livro da semana.
Vamos então.
E porque estou aqui a escrever um artigo, que me convidaram a escrever sobre a língua de Gil Vicente, ando a reler as obras de Gil Vicente. E lembrei-me, aqui estamos numa época em que não havia inteligência artificial, em que a língua era só humana, e lembrei-me de falar hoje do "Auto da Barca do Inferno", um daqueles livros clássicos que nós lemos na escola. Lembro-me perfeitamente de estar a dar este livro no nono ano e da turma toda rir-se muito, porque foi a primeira vez que os professores nos disseram: "Então agora leiam isso", e tinham lá uns palavrõesinhos e umas palavras um pouco diferentes. E eu queria só, primeiro recomendar, embora não seja necessário. Gostava também de dizer que ao reler, a pessoa esquece de como aquela peça é engraçada, ou seja, é para rir. Nós nem sempre nos lembramos daquilo que lemos já há algum tempo. E também há outra questão, o "Auto da Barca do Inferno" mostra uma característica do teatro, que é o gênero literário que mais regista toda a língua, o calão, os palavrões, a forma como nós conversamos no dia a dia. Porque durante a maior parte da história, a escrita registou o registo formal. O registo às vezes mais técnico, mais jurídico, mas raramente regista a forma como nós conversamos.
A oralidade. A tradição oral.
O teatro faz isto de forma sempre artificial, quer dizer, aqui estamos a falar de poesia, por isso as pessoas, em geral, não falam em versos. Mas ao mesmo tempo, estão lá aquelas palavras e aquelas expressões que não estão em mais lado nenhum. O teatro é quase uma espécie de-
Sim, inclui a literatura, e também a escrita e a oralidade.
Sim, portanto, a literatura em geral é muito completa. Nós temos a ideia na cabeça, uma ideia muito errada e que só aparece quando nós não pensamos 10 segundos sobre isto. Mas a ideia de que a literatura usa um registo muito elevado. Não, a literatura usa tudo. Mas o teatro, em particular, é esta literatura ainda mais rica no que toca à língua.
E também esta coisa das coisas escritas serem algo e depois ditas serem outra coisa.
Sim, exatamente. E o teatro está pensado para ser dito. Por isso, também temos essa parte da oralidade, como estavas a dizer, o teatro inclui a oralidade, inclui a escrita, inclui a literatura, tudo ali em cima do palco. E no caso da leitura, quando eu estou a ler o "Auto da Barca do Inferno", não estou a ver uma apresentação, mas estou a criar aquela peça na minha cabeça. Por isso, a língua também faz parte dessa peça.
E é também um livro muito importante, porque muitas vezes a primeira peça de teatro que as crianças veem é precisamente a do "Auto da Barca do Inferno". É marcante.
E depois ficam com expectativas de que as outras peças de teatro também sejam assim, com aquela linguagem um pouco mais atrevida, e nem sempre é.
Mas também que as há.
Sim, que as há, exatamente. E pronto, esta semana temos esta recomendação e para a semana cá estaremos com mais. Na quarta-feira vamos falar de dúvidas, portanto, podem enviar dúvidas. Não sei se queres dizer o número, que eu não me consigo lembrar.
Ainda não. Eu também não, por isso estamos juntos nisto: 91 002 4185. E através do e-mail, que isso, Marco, tu sabes.
[email protected]. Enviem dúvidas, enviem comentários.
Áudios. Mas isso é para o número.
Reclamações, não há problema, enviem o que quiserem.
Nós lemos tudo.
Cá estaremos.
Foi mais uma edição de Português Suave, com Marco Neves. Está de regresso na quarta-feira.
Na quarta.