O Castelo de Trancoso

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Olá, seja muito bem-vindo. Esta é a História das Histórias, já sabe, eu sou o João Paulo Secadura. Em Viseu, Jorge Adolfo Marques, professor e historiador, mestre em Arqueologia, hoje vai nos falar de um castelo, o Castelo de Trancoso. Eu tenho a sorte de o conhecer, gosto muito e estou muito curioso com o que o Jorge nos vai dar a conhecer e vai contar de novidades sobre as descobertas que envolvem este Castelo de Trancoso, que tem uma história milenar.

Longa.

Mais que milenar. Vamos a isso. Olá, Jorge, bem-vindo.

Olá, João. Já não é a primeira vez que falamos aqui no Castelo de Trancoso, a propósito até de outros castelos e de outros acontecimentos nesta região da Beira Alta. Evidentemente que o Castelo de Trancoso é, de facto, um dos castelos daquela região, daquele território, com o de Linhares, com o de Celorico da Beira, naquela área, que podem ser visitados e que são sempre do gosto. E o de Penedono, também já aqui falamos no de Penedono. Portanto, vamos então dizer aqui algumas coisas sobre o Castelo de Trancoso, que são talvez interessantes para os nossos ouvintes. A começar pelo facto de toda a região entre o Douro e o Mondego, onde se localiza o Castelo de Trancoso e a atual cidade de Trancoso, no período entre o século VIII e o século XII, era um território de fronteira, onde ocorriam muitas incursões, quer de norte para sul, quer de sul para norte, quer de cristãos contra muçulmanos, quer de muçulmanos contra cristãos. Depois da conquista da Península Ibérica, no ano de 714, 715, até os inícios do século X, altura em que o território até ao Vale do Mondego, na sequência dessas expedições empreendidas por Afonso III das Astúrias, já fizemos aqui referência a ele, o Afonso Magno. Não são conhecidas quaisquer referências a Trancoso, portanto, não há referências documentais. Depois, em 936, lá está, já estamos aqui no século X, no reinado de Abd al-Rahman III, o vizir Yahya ibn Ishaq, eu peço desculpa se não é assim mesmo que se pronuncia, mas é o mais aproximado. Saiu de Badajoz, partiu de Badajoz e fez uma incursão aqui a esta região, apoderou-se de algumas fortalezas, nomeadamente a de Trancoso. Em 960, temos referência ao Castelo de Trancoso, porque ele é um daqueles castelos que já fizemos referência quando falámos de Penedono, que é doado pela tal condessa dona Flâmula Rodrigues, filha de Rodrigo de Dones, um conde que tinha muitos castelos na região, e é um castelo que foi doado ao Mosteiro de Guimarães. Provavelmente foi ele que mandou construir este Castelo de Trancoso. Por este documento, sabemos que esta faixa de território estava bem organizada do ponto de vista militar. Tinha uma série de castelos. E dessa fase, preserva-se a torre que nós hoje, quando visitamos o castelo, aquela torre que está no centro do pátio, num dos lados do pátio do interior do castelo, que é a torre de menagem. Mas essa torre será dessa fase inicial do tal Rodrigo de Dones e da sua filha Flâmula Rodrigues. É uma torre curiosa, porque ela tem o formato quadrangular, mas a base é mais larga do que o topo, ou seja, é tronco piramidal. Imagine-se que a torre se prolongava até ao infinito. Ela ia chegar a um ponto em que se tocavam.

Era uma pirâmide, quase.

Fazia uma espécie de pirâmide.

Sim, exato.

Prolongava-se com o formato de uma pirâmide. O aparelho é muito típico dessa época em que foi construído e é uma torre que tem a porta de acesso que está sobreelevada, está mais alta. Era preciso uma escada para aceder ao interior. Tem um formato de ferradura. Portanto, desse período, digamos que moçárabe. No último quartel do século X, Trancoso foi atacado várias vezes, dezenas de vezes, e no âmbito dessas lutas que tinha feito referência há pouco. E por aí fora, continua durante muito tempo, até que Fernando Magno vai conquistar esse território, a sul do rio Douro, até ao Mondego. Por volta de 1055, 1059, conquista esse Castelo de Trancoso e portanto, esse castelo fica ali nas mãos de cristãos. Mas sempre ali ameaçado por invasões, por campanhas muçulmanas, porque mais tarde, no verão de 1155, portanto, um século Sensivelmente um século depois, ele é atacado novamente por muçulmanos, pelo governador de Sevilha. Portanto, estas campanhas sucessivas, de fato, fizeram com que o castelo tivesse sido objeto talvez de destruições. Isso levou a que, já num período mais posterior, em que o românico domina, o castelo tivesse uma nova cintura de muralhas. E aquela torre, que era a torre do castelo primitivo, passou a ser a torre de menagem. Em 1162, a vila de Trancoso recebe carta de foral de Dom Afonso Henriques. Portanto, há aqui uma história longa. Essa história longa continua, porque o castelo vai sofrer novas obras, nomeadamente no período gótico. Portanto, por volta do século XIII, vai ter uma série de obras, nomeadamente pelo nosso rei Dom Dinis, que vai depois também construir a cerca da atual cidade, na altura vila, a cerca que nós hoje, quando queremos ir ao castelo, temos que primeiro passar para o interior da vila antiga, entrando por uma daquelas portas que tem dois torreões, a Porta Real, que tem aqueles torreões de entrada. É um castelo que vai ser reformado pelo Dom Dinis, vai construir essa cerca urbana pra defender, no fundo, a vila de Trancoso, com um urbanismo muito característico desse período. E, nos tempos subsequentes, vai novamente o castelo ser objeto de obras, nomeadamente no reinado do rei Dom Fernando I, depois do regente Dom Pedro, no período da regência de Dom Pedro, quando Dom Afonso quinto ainda não era rei, ainda era menor. Aspecto interessante neste processo todo da vila de Trancoso e do castelo é a concessão pelo Bolonhês, o nosso Dom Afonso III, em 1273, da Feira de Trancoso, a Feira de São Bartolomeu, porque era ali oito dias antes, era uma feira anual. Tanto assim é a importância, que era uma feira das mais importantes da Beira e do reino, e que ainda hoje se realiza. Portanto, ainda hoje a Feira de São Bartolomeu, com as festas de São Bartolomeu, mantém-se essa iniciativa régia do Afonso III e que se perpetua até os nossos dias. Portanto, temos aqui um castelo que tem a sua origem longínqua no período da reconquista, vai sofrendo obras ao longo dos reinados, ao longo dos séculos, e chega até os nossos dias como uma joia, uma pérola da arquitetura militar medieval da Beira Alta e do nosso país em geral, mas que deve ser entendida no seu conjunto com a própria cerca e a antiga vila, agora cidade, que é Trancoso. Portanto, um lugar, sem dúvida nenhuma, a ser visitado. E fica aqui de fora outras ideias que foram surgindo ao longo dos séculos, nomeadamente a demolição de algumas das portas para modernizar a vila.

Mas tu falas nisso, porque até a Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais depois lá recuperou nos anos 30, não foi?

Exatamente. Essa tentativa de modernização ocorreu em todas as cidades que tinham essas cercas. E portanto, para o novo trânsito, pra modernização que se entendia na época, muitas delas foram derrubadas.

Foram sacrificadas, exatamente. E faz lembrar também aquelas portas, às vezes, dos castelos, que, por causa dos carros, ou também faz lembrar por causa das armas. Iam mudando as armas e iam acrescentando torres e seteiras.

Exatamente. Por todo lado, aquilo que nós chamamos de modernização ocorreu em todas as épocas. O nosso Dom Dinis modernizou o castelo, trouxe um castelo gótico com defesas ativas e já não passivas.

Iam fazendo obras e novas campanhas, iam mudando.

Exatamente. E depois, quando chegamos ao século XIX, início do século XX, há uma modernização em virtude até dos próprios veículos que começam a circular.

Exatamente. Muito bem, Jorge Adolfo Marques, ficamos aqui com uma belíssima referência à história do Castelo de Trancoso. Tive a sorte de o conhecer e acho que vale sempre uma visita. A gente descobre sempre coisas novas. Jorge, quando vamos visitar esses monumentos, estamos atentos a outras coisas, nossa circunstância também vai mudando. De repente reparamos em coisas novas. E o Castelo de Trancoso é daqueles castelos e daquela envolvente, aliás, maravilhosa, que traz sempre novidades. Obrigado por esta sugestão. Nós marcamos encontro amanhã. Bem-hajas.

Abraço.