O corpo não cabe numa teoria
Continua após publicidade
Ler Resumo
Quando se trata de escolher a dieta, grandes teorias costumam ser más conselheiras. Esse pensamento me saltou aos olhos em resenha no jornal britânico The Times. O artigo abordava um livro sobre a evolução do corpo humano e nossa relação com a comida. A ideia me fisgou porque resume nossa insistência em procurar uma única explicação para os muitos caminhos que regem nosso organismo. Em busca da solução mágica, fomos trocando de culpado ao longo dos anos. Primeiro, foi a gordura. Depois, o carboidrato. Seguiram-se o açúcar, o glúten, o leite e até a comida cozida.
A cada temporada, alguém anuncia ter encontrado o erro que os anteriores deixaram passar. Embora o ritmo dessa procura tenha se tornado mais frenético na era das redes sociais, não é de hoje que esperamos pela resposta única que vai nos salvar de nós mesmos. No início do século passado, Horace Fletcher convenceu muita gente de que cada bocado deveria ser mastigado 32 vezes, uma para cada dente. Na mesma época, o médico John Harvey Kellogg recebia pacientes em seu sanatório com tratamentos estrambóticos como cadeiras vibratórias e banhos elétricos, além dos flocos de milho, pensados para uma alimentação austera. Foi esse produto, e não o resto, que perpetuou o nome de John e seu irmão, Will, astuto homem de negócios.
“Depois de tantos anos estudando alimentação, aprendi a desconfiar de regra definitiva”
Mais recentemente, surgiram dietas “ancestrais”, bebidas produzidas em laboratório para substituir refeições e promessas de reconstruir o microbioma como se existisse uma versão original do intestino humano. É fácil rir dessas modas olhando para trás. Mais difícil é reconhecer seus exageros quando elas se apresentam, novas e reluzentes. A dieta paleolítica promete uma volta às origens — embora nossos antepassados tenham vivido em lugares, climas e épocas diferentes — propondo um cardápio difícil de replicar. Já a mediterrânea atravessou melhor o tempo por valorizar vegetais, grãos, azeite, peixes e preparos pouco industrializados. Ainda assim, não é uma fórmula. Expressa um modo de viver, com movimento, convivência e ingredientes locais. Isso não significa que toda dieta seja inútil. Muitas pessoas melhoram ao seguir algum método. A questão é entender os motivos dos resultados. Alguém corta carboidratos e emagrece. Não será porque também reduziu doces, bebidas açucaradas e beliscos?
Outra pessoa resolve comer como nossos ancestrais e, na prática, passa a cozinhar mais e abrir menos embalagens. Escolher um vilão traz alívio. Mais trabalhoso é olhar para o conjunto: o que e quanto comemos, como dormimos, quanto nos movimentamos e quando procuramos comida sem estar com fome. As chamadas canetas emagrecedoras, medicamentos que agem sobre o GLP-1, ilustram essa complexidade. Representam um avanço e mostraram que conter o apetite depende de mais do que força de vontade. Mudaram a vida de muita gente. Mas nem uma ferramenta tão poderosa age igual para todos ou dispensa outros cuidados. No fim, a ciência oferece orientações pouco espetaculares: mais vegetais e fibras, menos açúcar e alimentos muito processados, movimento, sono e uma rotina possível de manter. Nada revolucionário.
Continua após a publicidade
Depois de tantos anos estudando alimentação e vivendo o desafio de manter o peso, aprendi a desconfiar de qualquer regra “definitiva”. O corpo não cabe numa teoria. Cuidar dele exige atenção, constância e disposição para ajustar a rota.
Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007
Publicidade