O desfile das quadras: circuito profissional de tênis se sagra como uma vitrine luxuosa da moda
Continua após publicidade
Ler Resumo
Na atual edição do torneio US Open, o show das estrelas femininas do tênis começou antes mesmo da primeira bola ser rebatida. Numa das partidas, a japonesa Naomi Osaka entrou em quadra à maneira de uma top model que abre um desfile, ostentando uma túnica com imagens da própria trajetória, além de uma cauda de tule branco. Em outro momento, a bielorrussa Aryna Sabalenka, número 1 do mundo, chamou a atenção de forma não menos atrevida: mesclou um look transparente de tela preta a colares, brincos e pulseiras cravejados de pedras preciosas.
Com essas aparições tão exuberantes quanto o estilo que exibem contra as adversárias, as duas feras das raquetes celebram e atualizam uma tradição peculiar: para além de um esporte de alta performance, o tênis sempre foi uma vitrine capaz de ditar tendências na moda. Prestigiadas por uma elite global de alto poder aquisitivo, as partidas do Grand Slam têm conexão natural com o luxo e a vanguarda do estilo. Na atualidade, nada sintetiza mais isso que a rivalidade visual entre Osaka e Sabalenka. A primeira transforma a quadra em teatro; a segunda brilha como se estivesse em um tapete vermelho.
As nuances entre ambas são curiosas. Os looks da tenista nipônica têm a real ambição de ser figurinos: cabem neles tules, laços, quimonos e silhuetas que parecem ter escapado da alta-costura para a quadra — tudo embalado por referências à cultura do Japão. Osaka já entrou em cena vestida de medusa, cerejeira, gueixa e heroína de mangá. Já Sabalenka aposta numa proposta bem distinta — e prefere a provocação. Em quadra, combina modelitos sensuais da Nike com suas joias valiosas. Em parceria com a americana Material Good, entra nos jogos usando gargantilhas, brincos e afins customizados, que depois viram produtos para consumidoras endinheiradas. Só no US Open deste ano, já desfilou quase 130 quilates de pedras preciosas nas partidas. Diante das críticas pelo suposto exagero em tanto brilho e transparências, a primeira do mundo reage de forma curta e grossa: “Eu adoro”.
Continua após a publicidade
No lado masculino, Carlos Alcaraz virou um dos rostos que conectam o esporte ao luxo. Embaixador da Louis Vuitton, o espanhol reúne o que as grandes maisons procuram: juventude, alcance global, carisma e uma carreira de vencedor. O mesmo Alcaraz que aparece em campanhas refinadas, porém, protagonizou o acidente fashion mais comentado do US Open: sua regata marrom da Nike, feita em colaboração com a Cactus Jack, de Travis Scott, tinha caimento tão amplo que deixou seu mamilo à mostra repetidas vezes. O “nipplegate” fez um erro de design virar assunto. Seu rival Jannik Sinner representa uma elegância mais silenciosa. Embaixador global da Gucci, o italiano transformou suas aparições com as bolsas da maison em assinatura visual.
Continua após a publicidade
Com cada lance amplificado de forma viral nas redes sociais, a passarela das quadras virou um negócio bom para a imagem das estrelas do tênis e altamente lucrativo para maisons e grandes marcas. Mas, se a escala cresceu, isso não significa que o flerte do esporte com a moda não fez barulho no passado. Elegante e endinheirado, o tênis carregou desde sempre códigos de classe. No início do século XX, mulheres jogavam de vestidos longos, mangas compridas e até espartilhos em prol de um rigor de vestimenta que contrastava com a exigência física do esporte.
Em 1919, a francesa Suzanne Lenglen virou o jogo ao entrar em Wimbledon com um vestido curto e de braços descobertos, desenhado por Jean Patou. O escândalo de ontem virou o sportswear de hoje. René Lacoste faria revolução semelhante no masculino com a polo de algodão piquê, criada para dar mobilidade e conforto e, depois, transformada em símbolo além das quadras. A história seguiu nos anos 1970 e 1980, quando a americana Chris Evert se sagrou a “Cinderela do tênis” com seu delicado vestido de renda, sem mangas e com saia evasê em 1971 — conjuntinho ainda hoje lembrado como um marco feminino na modalidade. De lá até o show atual de Osaka e Sabalenka, o glamour só cresceu nas quadras.
Continua após a publicidade
Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2026, edição nº 3012
Publicidade