O dia mais difícil de Luís Neves
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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o dia mais difícil de Luís Neves. O que quer que pensemos de Luís Neves, é mais ou menos evidente que ontem o ministro teve um dia difícil, muito difícil. De manhã, uma audição parlamentar, onde os deputados da oposição puseram o ministro no espeto e acenderam o lume.
Ministro, o senhor não tem condições nem tem credibilidade para continuar a ser o Ministro da Administração Interna. A pergunta que eu lhe faço é muito simples: quando é que se vai embora? Qualquer ministro, eu próprio, dependemos naturalmente do senhor primeiro-ministro. É esse o momento que eu tenho para lhe dizer nesta fase à pergunta que apostou. Quando é que vou embora? Quando o governo terminar ou quando o senhor primeiro-ministro entender.
E depois uma longa tarde no Hemiciclo, onde se discutiu a moção de censura do Chega, que tinha sido desenhada à medida de um alvo: Luís Neves. Hoje vou falar sobre este dia com o editor de política do Observador, o Rui Pedro Antunes. Vamos olhar para o que se passou no Parlamento, analisar a prestação do ministro e vamos olhar para o governo, que aproveitou a ocasião para atirar uns foguetes pro ar e para o Chega, que montou todo um espectáculo de fogo de artifício. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quarta-feira, 9 de setembro. Olá, Rui Pedro.
Olá, Pedro.
Acho que foi um dia longo este que passaste no Parlamento.
É verdade. Foi um dia que começou às 10h da manhã, mais ou menos. Foi à portuguesa, foram 15 minutos para discutir por que era numa sala e não noutra.
Ora bem, se tu passaste um dia longo, eu imagino o ministro da Administração Interna, que teve de facto ali de manhã e de tarde duas sessões bastante duras em que ele era o alvo e o protagonista, não pelas melhores razões. Como é que tu achaste que ele se saiu? Sobretudo porque eu diria que de manhã ele esteve mais sob os holofotes. E pareceu-me, eu que não estava lá dentro, um ministro um bocadinho diferente daquele ministro de peito feito que falou na Madeira a dizer que saía quando ele próprio entendesse.
Sim, eu ia dizer que é preciso às vezes metermo-nos nos sapatos dos outros, ou então no Volkswagen Golf dos outros. Mas para dizer que, de facto, ele teve um dia intenso, mas na manhã ele era o principal protagonista. E há, de facto, essa mudança no discurso, ou seja, na Madeira o que vimos foi alguém que queria ser ao mesmo tempo justiceiro, mas que se sentia injustiçado, o que dá sempre uma avaliação que não ajuda muito a um político, porque leva as coisas para um plano de inteligência emocional, que quando te sentes injustiçado, não consegues ter. Eu sei que tudo o que existe é sobre ele e focado nele, mas ele tinha que ter um dia a consciência de que há alturas pra ficar calado e alturas pra falar. E quanto menos falasse, melhor pra ele.
Isso, aliás, esse dia foi exemplar do ponto de vista das dificuldades de comunicação deste ministro, porque efetivamente ele aproveitou um evento em que estava como ministro da Administração Interna a falar pra uma plateia de pessoas que não eram jornalistas, eram pessoas que estavam lá porque naquele evento o ministro que este tutela, ainda por cima, ia falar, e ele aproveitou esse dia para fazer um discurso em nome próprio, para se defender, para explicar determinadas coisas, sem o aborrecimento de ter que responder a perguntas de jornalistas. E tu viste que houve aqui uma mudança entretanto.
Sim, houve essa mudança, diria com mais humildade a nível do discurso, sendo que ele tem ali uma dualidade. Ele, por um lado, considera-se uma pessoa extraordinária, ou seja, um fazedor e, portanto, alguém que é especial. Isto é a autoavaliação que ele faz dele e ao mesmo tempo, depois tenta ter uma coisa, se quisermos, mais mundana, mais térrea, de eu sou um de vós, eu sou como os outros. E quando eu falho, quando eu erro, quando eu pago em numerário ao construtor, quando eu dou demasiada confiança pra um amigo que não devia dar e acho que é normal eu lá ir à casa, quando eu ando num carro do Estado porque é mais barato, quando eu arranjo uma solução, eu estou a ser, e agora vou procurar a oportunidade, estou a ser tuga, estou a ser aquela portugalidade. E ele aí tenta mostrar-se ao contrário, que no fundo é um homem normal que exerce funções extraordinárias, sendo que ele não tem nada de normal no percurso dele, no sentido em que ele regeu a toda a Polícia Judiciária durante vários anos e, portanto, é tudo menos um cidadão normal, pelo nível de conhecimento que tem, pelas exigências do trabalho que teve e também pela maneira como chegou ao governo.
E essa mudança que ele, apesar de tudo, fez de um momento para o outro, sobretudo o desta terça-feira, que era particularmente duro, porque tinha que responder aos deputados sobre as várias polémicas em que está envolvido, tu achas que ele se saiu bem? Achas que lhe fizeram as perguntas que tinham de ser feitas e ele se saiu bem, ou achas que voltámos a ver um ministro fragilizado novamente cada vez que ensaia explicações sobre o que se passou?
Eu não sei se Luís Montenegro teve paciência para se sentar a ver o tempo todo, mas ele como nem tem Sport TV no gabinete dele, aliás, quando se descobriu que todos tinham, o primeiro-ministro não tinha, era dos poucos gabinetes que não tinha.
Estou a falar daquela notícia que se gastavam milhares de euros em assinaturas da Sport TV.
Mas certamente que tem os canais noticiosos e isso, se acompanhou, de alguma forma não comprometeu a tarde. E isso é importante no sentido em que conseguiu passar mais aquela etapa e aquele desafio sem criar dificuldades adicionais. Não houve ali um elemento novo. Se me perguntares depois se no geral do dia, Luís Neves, e podemos ir lá mais à frente, acaba por não se sair bem, no sentido que é difícil, mesmo quem não censura o governo, censura o ministro. E, portanto, isso depois fica bastante evidente na parte da tarde. Ele durante a manhã consegue, e mais uma vez vou utilizar um verbo que não é o mais elegante, mas consegue safar-se bem nessa primeira passagem pela comissão, antes ainda do plenário, talvez mais desconfortável no embate com Rui Rocha, que mostrou que estava em grande forma dentro daquilo que é o estilo dele. Também é um estilo corrosivo, desafiador, provocador. E até lhe perguntou da maçonaria e sobre outras matérias com alguma criatividade e ia fazendo apartes para ver se o irritava, nomeadamente, não sei se foi para aqui no carro, no Golfe do Xuxas, disse isto, por exemplo, e foi fazendo pequenas provocações ao seu estilo. Mas mesmo assim, o ministro tentou não se irritar como habitual e creio que já aprendeu qualquer coisa relativamente a isso, que às vezes, por muita razão que ele ache que tem, vale mais respirar fundo primeiro. E isso, se calhar, era a definição da manhã.
Achas que ele teve acompanhamento de comunicação do governo? Deram-lhe ali umas achegas para limar aquelas arestas que estavam ainda agrestes.
Sim, na verdade, Pedro, na Madeira, provavelmente ele já tinha baias. O problema é que não sei se é por ser polícia, está habituado a meter a sirene em cima e siga para frente e ultrapassa sinais vermelhos, é que ele não é controlável. Eu não acredito que o discurso da Madeira tenha sido feito sem o conhecimento do governo. O que eu já tenho mais dúvidas é que o primeiro-ministro e até a coordenação do governo soubesse exatamente tudo que ele ia dizer.
E da forma como...
E até a forma, mais do que o conteúdo, é a forma. E aprendeu também isso, que o ministro da Administração Interna não vai provocar o líder da oposição, nem fazer uma grande frente de batalha contra ele. Não é essa a função dele. A função dele é executar, porque faz parte de um órgão executivo, e responder a uma pessoa que é o primeiro-ministro. O primeiro-ministro, sim, pode ter esse dever até de defender um ministro seu perante o líder da oposição, mas não ele. Eu acho que ele confundiu um bocadinho ali um estilo um bocadinho quixotesco ou justiceiro, em que agora eu é que vou pôr o Chega na ordem. Não é essa a função dele. Se ele quiser, cria um partido, até pode ter sucesso, um Almarim e Pinto e outros, não sei qual é que é a onda do Luís Neves, cria um partido e afronta o Chega. Mas não é essa a função dele no governo, até porque já percebemos que ele é muito melhor como operacional e na parte técnica e naquilo que são os dossiês da administração interna do que propriamente como político, e não há mal nenhum nisso. Há pessoas que acham que são muito boas a comunicar e são boas a comunicar na instituição em que estão, e eu acho que ele não comunicava mal na PJ, até comunicava muito bem, quer em on, pelo que percebo, quer em off, na maneira como lidava com as redações, porque sabia fazê-lo e a Polícia Judiciária tem que lidar com isso com uma filigrana, uma linha muito ténue. Ele sabia fazer isso, mas como ministro não funcionou. E, portanto, às vezes é preciso recuar, avaliar e ser um bocadinho mais humilde, que eu acho que hoje ele já foi.
E tu falavas aí numa questão que eu acho interessante, que é tu dizias que o primeiro-ministro, que à tarde, aí sim, teve o protagonismo, porque a moção de censura era contra o governo por ele presidido, que a prestação de Luís Neves não complicou a tarde, não comprometeu a tarde, sendo que Luís Montenegro foi para uma moção de censura, que é sempre um momento desagradável politicamente para um governo que está em funções, e ia com alguns truques na manga, nomeadamente alguns anúncios assim.
Verdade. E é um truque que António Costa usava muito, que Luís Montenegro já usou, que José Sócrates utilizava. Pedro Passos Coelho, de alguma forma, também.
Portanto, ensina-se nas escolas de primeiro-ministro.
Exatamente, de primeiro-ministro, que é: se derem uma notícia, e pode ser dados, mas preferencialmente se for uma notícia com impacto para as pessoas, para o eleitorado, isso acaba por dominar uma parte do tempo mediático. E mesmo nas peças das televisões, eu à hora em que gravamos isto não tive a oportunidade de ver, mas de certeza que haverá sempre uma parte dedicada àquilo que foram os anúncios do primeiro-ministro. E depois foram direcionados a duas grandes franjas do eleitorado, os pensionistas com o novo bónus.
Certo.
Depois terá que levar tareia de Pedro Passos Coelho, mas isso será para os próximos capítulos, na próxima conferência.
É irresistível, há sempre este bónus, vai sempre voltando.
E a segunda foi para a classe média, em particular para a redução do IRS, com efeitos retroativos a janeiro, o que significa que daqui a um mês e meio as pessoas sentem no salário mais umas centenas de euros, dependendo dos rendimentos que têm, e, portanto, o dinheiro vai chegar ao bolso das pessoas. E aí ele conseguiu dominar a narrativa mediática, porque o governo tem a faca e o queijo na mão. É a mesma coisa, imagina que o governo sabe que alguém vai, vou simplificar, vai dizer mal num debate porque não existe uma estrada. Nesse dia pode lá começar a meter alcatrão e dizer: "Olha, já está a andar." Esse controle da narrativa de quem tem a faca e o queijo na mão, Luís Montenegro usou isso a favor dele. Se conseguiu abafar por completo o objetivo de André Ventura? Não conseguiu, e o que o debate prova é que os partidos, mesmo os que votam ao lado do governo no sentido de rejeitarem a moção de censura, acabam por rejeitar também o ministro da Administração Interna. E mesmo Luís Montenegro defendeu várias vezes: é o melhor ministro, Portugal precisa dele. E até na bancada do PSD, eu via pouco entusiasmo no aplauso quando o elogio era ao Luís Neves. E por isso, naturalmente que André Ventura, em parte, conseguiu atingir os objetivos. Não havia como, ou seja, a maneira como aquele estilo de debate é montado também ajuda o governo, é verdade, e no fim o desfecho foi favorável ao governo. Se formos olhar estritamente a uma votação.
Claro, foi chumbada a moção.
Mas ele conseguiu aquilo que queria, que é ter grande protagonismo e ser uma vez mais ele a alternativa ao polo oposto. Parece quase que o corpo estranho é José Luís Carneiro quando se tenta intrometer.
Como é que tu olhaste para isso? Porque o PS depois fica ali numa posição um bocadinho difícil, não é?
Sim, eu achei que José Luís Carneiro fez bem o TPC. Eu acho que ele é ótimo a fazer os trabalhos de casa. Só que depois há um momento em que lhe pode escapar da mão. E mais uma vez, o governo tem essa vantagem Ele fez uma coisa inteligente que foi para bombas de gasolina. Em Espanha, a diferença de preço é abismal. As pessoas queixam-se muito dos combustíveis e ele queria aproveitar isso para este debate. Claro, Luís Montenegro colocou duas medidas diretas para o bolso das pessoas. Isso de alguma forma acabou por aplacar a estratégia de debate que José Luís Carneiro tinha. E depois teres ao mesmo tempo o ministro da Educação do PS, o anterior, João Costa, a dizer que a culpa dos maus resultados do PISA é do PS e não é deste governo, e a Educação, um dos ódios de estimação dos últimos tempos de José Luís Carneiro, era Fernando Alexandre, isso correu mal. Parece que há muitas figuras do Partido Socialista, inclusive até o próprio Eurico Brilhante Dias, que querem muito a demissão de Luís Neves, e depois José Luís Carneiro vir dizer: "Nós não defendemos a demissão de ninguém". Ficou um bocadinho moribundo nessa indecisão entre exigir a demissão de Luís Neves ou não exigir a demissão de Luís Neves. E nada disso ajuda aquilo que era o foco de José Luís Carneiro, que era: o governo está a fazer as pessoas viverem pior e eu tenho a solução para mudar isto, porque eu sou a única alternativa, porque o outro, e agora estou aqui como se o José Luís Carneiro a falar, o outro é um tonto que não serve para liderar.
Está a referir-se a André Ventura.
A André Ventura. Ele não diz com estas palavras, mas a ideia geral é essa.
Sendo que parece evidente que esta estratégia, que já não é de agora, tem corrido bem a André Ventura, até porque depois do que se passou ontem, fica clara uma coisa: o governo fica com dificuldades em demitir Luís Neves, porque parece, se o fizer, que fez aquilo que o Chega exigia. Se não demitir, está a dar matéria que não há de faltar ao Chega para os próximos tempos.
E cresce sempre em cima disso. A comissão parlamentar de inquérito, e eu acho que a paciência de José Pedro Aguiar Branco vai-se diminuindo muito para o Chega e não vai ter problemas em pôr o pé na porta ou dar um murro na mesa em determinados momentos, quando a decisão é praticamente discricionária do presidente da assembleia, porque ele vai dizer assim: "Não, vamos mesmo parar a comissão de inquérito para debate orçamental", e vai ser inflexível. E isso vai fazer com que haja ali uma pausa, uma suspensão dos trabalhos, mas quer antes, quando ainda houver tempo, quer depois do orçamento ser aprovado, porque vai ser aprovado, André Ventura pode pedir documentos. Estás a imaginar André Ventura, Pedro, a entrevistar o construtor amigo de Luís Neves, o desastre que é para Luís Neves e para o governo? Portanto, há de haver esse dilema na cabeça do primeiro-ministro se quer submeter Luís Neves a isso. Para já, os sinais é que quer e que acredita que vai sair por cima disso, mas que o Chega vai continuar a cavalgar, vai. E uma nota também para aquilo que aconteceu no fim, que eu acho que até dentro de termos que aceitar a democracia, que haja outro tipo de manifestações que vão contra o regimento, acaba por ser antidemocrático que depois dos deputados chumbarem uma moção, o grupo único que votou a favor de uma moção de censura, ache normal dominar a sessão com gritos e fazerem isso completamente à margem do regimento e em total desrespeito por aquilo que poderemos chamar até uma ética parlamentar, no sentido de nos ouvirmos uns aos outros, que a democracia funciona, porque se fossem todos para ali gritar, não dava. E em 18 anos de Parlamento já vi muita coisa, até já vi gritarem com um chefe estrangeiro na sala, mas mais uma vez, já estou como o José Pedro Aguiar Branco, também não me surpreende, mas não é bonito.
Não é bonito. Rui Pedro, obrigado.
Obrigado, Pedro.
Eu conversei hoje com o editor de política do Observador sobre o dia negro na carreira política de Luís Neves. Mais um dia negro. São tantos na vida deste ministro que não admira que na sondagem da TVI e da CNN Portugal, 65% dos portugueses digam que ele já não tem condições para continuar. Para já, fica, mas a pressão não vai diminuir. O Chega já disse que não abdica da comissão de inquérito, que tem mais uma vez o mesmo alvo: o ministro da Administração Interna. Esta foi a história do dia. A sonoplastia do Tomás Ferreira, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.