O eclipse dura segundos, mas pode deixar meses de dados científicos - 24 Notícias

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No nosso país, uma das principais investigações de campo é a participação no ECOECLIPSE, projeto ibérico liderado pela Universidade de Sevilha que vai analisar a resposta acústica de aves e morcegos. Há também projetos de ciência cidadã, como o EclipseDSM Portugal 2026, no qual alunos da Escola Secundária de Paredes vão medir a variação da luz ambiente e de parâmetros meteorológicos. Na astrofísica, várias equipas portuguesas deverão deslocar-se para Espanha, onde a totalidade terá maior duração e haverá melhores condições de observação.

A investigação decorre em paralelo com o Programa Nacional do Eclipse 2026, que reúne centenas de ações de observação, educação e divulgação em todo o país. Entre elas está o programa do UC Exploratório, em Coimbra, que inclui observação do eclipse, transmissão em direto da totalidade e atividades em várias freguesias do concelho.

Uma das investigações em curso pretende perceber como aves, morcegos e outros animais reagem à alteração repentina da luminosidade. O estudo abrange vários pontos de Portugal e Espanha situados na faixa em que a ocultação do Sol será superior a 98%. Em território português, a recolha decorrerá sobretudo a norte do rio Douro.

Os investigadores vão utilizar dispositivos AudioMoth, pequenos equipamentos capazes de captar sons dentro e fora da gama audível ao ouvido humano, incluindo ultrassons emitidos por morcegos. Em alguns locais, poderão também ser instaladas câmaras de fotoarmadilhagem, ativadas pelo movimento dos animais.

As gravações seguem um protocolo comum nos dois países e decorrem ao longo de cinco dias: dois antes do eclipse, no próprio dia e nos dois dias seguintes. Os equipamentos registam os sons entre as 16h00 e as 21h00, permitindo comparar o período do eclipse com quatro dias em condições habituais.

"Teremos quatro dias ditos ‘normais’ para constatar registos do comportamento habitual", explica José Paulo Cortez, investigador do Centro de Investigação de Montanha do Instituto Politécnico de Bragança.

Se for detetada atividade adicional no momento do eclipse, acrescenta, esta deverá estar associada à variação da luminosidade, que simula “uma espécie de anoitecer precoce, seguindo-se uma simulação de amanhecer, mesmo ao cair do dia”.

Os cientistas não procuram uma única espécie. O objetivo é captar os sons produzidos por aves, morcegos e outros animais e perceber se a quebra temporária da luz desencadeia cantos, chamamentos ou movimentos fora do horário habitual.

A altura do ano torna a observação particularmente relevante. Algumas espécies encontram-se já em fase de migração e outras estão a terminar o período reprodutivo. Além disso, muitos dos animais monitorizados apresentam picos de atividade ao amanhecer e ao anoitecer.

"Espera-se que pelo menos as espécies de atividade crepuscular se manifestem com cantos e chamamentos. Tendo em conta que algumas espécies noturnas iniciam a atividade após o pôr do Sol, também estas se poderão manifestar ou movimentar", afirma José Paulo Cortez.

Os equipamentos, as configurações e os períodos de gravação são iguais nos diferentes pontos de recolha. No final, os dados serão enviados para a Universidade de Sevilha, que lidera o projeto, para serem tratados e comparados.

A dimensão da recolha deverá impedir conclusões imediatas. Os sons terão de ser analisados, associados às respetivas espécies e posteriormente validados. José Paulo Cortez estima que os primeiros resultados não sejam conhecidos antes do final do ano. Para o investigador, o eclipse oferece condições que dificilmente poderiam ser reproduzidas num laboratório.

"É praticamente impossível replicar todas as características naturais em cativeiro. Mesmo que fosse possível, seria para um conjunto muito limitado de espécies", explica.

A utilização de equipamentos remotos poderá também contribuir para desenvolver novas formas de monitorização da fauna.

Apenas 26 segundos de totalidade em Portugal

Na astrofísica, as condições de observação em Portugal são mais limitadas. O eclipse será total apenas numa pequena área do Parque Natural de Montesinho, no distrito de Bragança, e durante cerca de 26 segundos. Por esse motivo, várias equipas portuguesas deverão deslocar-se para Espanha, onde a faixa de totalidade é mais extensa e o fenómeno terá maior duração.

As observações poderão ajudar os cientistas a estudar a geometria orbital e as características da coroa solar, a camada mais externa da atmosfera do Sol. Uma das questões ainda em aberto está relacionada com as temperaturas extremamente elevadas registadas nesta região, superiores às da superfície visível do Sol.

Na maior parte de Portugal, onde o eclipse será parcial, o valor para a investigação astrofísica será reduzido. Ainda assim, a elevada percentagem de ocultação poderá ser relevante para os estudos biológicos.

"O valor científico em Portugal será diminuto na área da astrofísica, mas poderá ser importante na biologia, através do estudo das alterações no comportamento dos animais, um tema ainda pouco estudado e muito pertinente", afirma Pedro Mota Machado, investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço e professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Durante os momentos de maior ocultação, será também possível sentir alterações no ambiente. A diminuição da radiação solar deverá provocar uma descida da temperatura e diferenças de pressão entre as zonas afetadas pela sombra e as áreas circundantes. Este contraste pode originar o chamado “vento do eclipse”.

Eclipses naturais e artificiais são complementares

Os eclipses deixaram de ser a única forma de observar a coroa solar. A missão europeia Proba-3 utiliza dois satélites a voar em formação para reproduzir eclipses artificiais: um bloqueia o disco solar e o outro observa a coroa.

Este método permite criar ocultações mais longas e frequentes do que as proporcionadas pelos fenómenos naturais. No entanto, Pedro Mota Machado sublinha que as duas formas de observação não são equivalentes.

"A Proba-3 consegue mimetizar eclipses totais do Sol e fornecer muitos mais dados sobre a coroa solar, mas os eclipses naturais têm diferenças relevantes. As duas formas de observação são complementares", explica.

O eclipse desta quarta-feira não deverá, isoladamente, resolver os principais enigmas sobre o Sol, mas poderá acrescentar novos dados aos estudos que estão em curso.

“Hoje em dia, é raro a ciência avançar através de grandes saltos. Este eclipse será mais um passo na construção do conhecimento”, conclui Pedro Mota Machado.

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