O elevador social ainda funciona?

🗓️ 2026-08-21 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

Os números da primeira fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior mostram que os jovens e as famílias continuam a olhar para o Ensino Superior como um instrumento de qualificação, de criação de oportunidades e de mobilidade social.

Num tempo em que tantas vezes se questiona o valor de uma formação superior, esta é uma boa notícia para o país. Não há outra leitura possível para um aumento de 21,8%, face aos números registados no ano anterior. Aliás, estamos perante um dos números mais elevados das últimas três décadas. O que é notável, tendo em conta o contexto em que estes resultados foram conseguidos.

Como sabemos, a época de exames ficou marcada por constrangimentos que não podem ser ignorados. A introdução da classificação digital das provas foi acompanhada por problemas de digitalização, erros nas classificações e sucessivas correções, criando incerteza junto de milhares de alunos e das suas famílias. O elevado número de pedidos de reapreciação tornou ainda mais evidente a pressão colocada sobre todo o processo. E acabou por ser necessário criar uma época extraordinária de exames, no início de setembro, para assegurar que os estudantes afetados não fossem prejudicados no acesso ao Ensino Superior.

Mas, apesar de tudo isto, os estudantes não desistiram. Candidataram-se em números que há muitos anos não víamos. E esta crença na importância do Ensino Superior merece uma resposta à altura, porque conseguir uma vaga não significa conseguir frequentar um curso.

Todos os anos, como é normal, há milhares de estudantes que são colocados longe da sua residência familiar. Para esses estudantes, ser colocado comporta o desafio de encontrar um lugar para viver. E é aqui que o entusiasmo dos números divulgados relativamente às colocações no Ensino Superior colide com uma realidade bem menos positiva.

O Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior (PNAES) representa o maior esforço realizado em décadas para aumentar a capacidade das residências estudantis. Existem novas residências em construção, outras foram reabilitadas e há novas camas a ser progressivamente disponibilizadas. É um investimento que deve ser reconhecido, mas também é preciso reconhecer aquilo que falta fazer.

Os números mais recentes, do início deste verão, mostram que das 18 758 camas previstas no âmbito do PNAES, apenas 5 014 estão disponíveis para os estudantes. Isto significa que pouco mais de um quarto da meta foi alcançado. E, portanto, à entrada do ano letivo 2026/2027, o plano continua longe de estar integralmente executado. Este atraso significa que muitos estudantes serão confrontados com um mercado privado de arrendamento onde os preços continuam a aumentar muito mais rapidamente do que os rendimentos das famílias.

E é aqui que o acesso ao Ensino Superior deixa de ser apenas uma questão educativa e passa a ser também uma questão social. Um estudante pode ter nota para entrar numa universidade no Porto, em Lisboa ou em Coimbra e, ainda assim, ser obrigado a percorrer dezenas de quilómetros por dia, ou mesmo a desistir, porque a família não consegue suportar os custos mensais de arrendar um quarto a várias centenas de euros. Quando isso acontece, a igualdade formal no acesso deixa de corresponder a uma verdadeira igualdade de oportunidades.

Por isso, o recorde de candidatos deve ser visto, simultaneamente, como uma conquista e como uma responsabilidade. É uma conquista porque demonstra que os jovens portugueses continuam a acreditar na educação e no conhecimento como instrumentos para melhorar as suas vidas. É uma responsabilidade porque cabe agora ao Estado garantir que as condições económicas não transformam essa ambição num privilégio reservado às famílias que conseguem suportá-la.

O elevador social ainda parece funcionar. Mas, para que assim continue, não podemos permitir que, depois de tantos jovens terem conseguido entrar nele, seja o preço de um quarto a decidir quem consegue chegar ao andar seguinte.