O erro que ninguém paga

🗓️ 2026-07-18 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

Enquanto uma parte do país vivia agarrada ao Mundial de 2026 e ao mercado de transferências, outra parte via o seu futuro decidido por uma experiência que ninguém se deu ao trabalho de testar antes. Este foi o primeiro ano em que os exames nacionais do 11.º e do 12.º ano foram corrigidos inteiramente em suporte digital, cerca de trezentas mil provas, através de uma plataforma nova, gerida por um instituto recém-criado, o EduQA, que substituiu a antiga editora do Ministério da Educação. Uma reforma decidida a partir de um gabinete, sem projeto-piloto e sem margem para erros. E o erro, como era de esperar, aconteceu.

Os professores não têm material para corrigir os testes. Docentes chamados a avaliar disciplinas que nunca lecionaram. Uma paralisação de segurança da plataforma a 6 de julho, sem relatório público que explicasse o que falhou nem quantos alunos foram afetados. E, no meio disto tudo, a polémica que ficou conhecida como a “pergunta siamesa”: um exercício do exame nacional de Português praticamente idêntico a um exemplo publicado num manual da Leya meses antes da prova. O Ministério, confrontado com as datas, mudou a sua própria versão dos factos de um dia para a noite. Não foi um incidente isolado. Foi um padrão.

A questão que se impõe não é apenas técnica. É de princípio. Quem pagou o preço desta digitalização apressada não foi quem a decidiu nem quem a implementou. Eram adolescentes de 17 e 18 anos, a meio de um dos momentos mais determinantes das suas vidas, cujo acesso ao ensino superior ficou comprometido por um sistema que nunca tinha sido posto à prova em condições reais. Em qualquer país sério, seria inaceitável que se obrigasse alguém a participar em reformas estruturais sem ter a possibilidade de dizer que não quer. Aqui, foi apenas mais uma decisão de calendário.

Como era de esperar, as consequências foram as previstas. As notas, inicialmente previstas para 10 de julho e depois para 14, só sairão a 17. A segunda fase dos exames, que devia arrancar a 16 de julho, foi empurrada para dia 20. Milhares de famílias ficaram, de um dia para o outro, sem saber quando poderiam finalmente planear o que vem a seguir: candidaturas ao ensino superior, alojamentos, deslocações, decisões que não se tomam de um dia para o outro, mas que, este ano, tiveram de ser. Mais de cinco mil pais e encarregados de educação assinaram uma petição pública a pedir a anulação total dos exames. Não por capricho, mas porque deixaram de confiar que o processo, tal como está, consiga garantir o rigor que sempre se exigiu aos seus filhos.

E é aqui que a segunda parte desta história se torna ainda mais revoltante do que a primeira. Chamado ao Parlamento para prestar esclarecimentos, o ministro da Educação, Fernando Alexandre, garantiu que “nenhum aluno será prejudicado”. Garantiu também, na mesma intervenção, que “no fim, terá de haver responsabilidades, incluindo a do ministro”. Foi uma frase notável, quase honesta na sua transparência involuntária. O próprio admitiu, publicamente, que algo correu suficientemente mal para justificar consequências políticas. Só que, até hoje, não houve auditoria pública com números concretos, não houve relatório, não houve sequer o esboço de uma demissão. As escolas dizem que cumpriram tudo o que lhes foi pedido. O Ministério fala em “falhas tecnológicas e organizacionais” de terceiros. Cada entidade aponta para a seguinte, e no final ninguém fica com o problema nas mãos, parecendo uma batata quente a ser empurrada de entidade a entidade.

Este é o verdadeiro escândalo, mais do que um erro informático isolado: em Portugal, a incompetência a esta escala tem custos enormes para quem a sofre e nenhum para quem a provoca. Um aluno que erre uma resposta perde a nota. Um Estado que erre a implementação de uma reforma inteira, testada à custa de trezentas mil pessoas, sai impune. Basta uma declaração formal no Parlamento e um calendário reajustado duas vezes. A questão não é a digitalização, mas sim a forma leviana como foi imposta a quem não podia dizer que não.

Neste país, aprendemos desde cedo que os erros não têm preço, desde que não sejam os teus erros.