O Estado da Nação de Gonçalo Ramires
O ano começou com o Presidente da República, o antigo, a lembrar-nos Eça. Marcelo Rebelo de Sousa — numa mensagem ao País que parecia feita para aparecer nas memórias que nunca irá escrever — lembrou a “generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, (…) a imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira (…) e o espírito prático, sempre atento à realidade útil” de Gonçalo, personagem da Ilustre Casa de Ramires. Uma descrição de uma personagem que o fez lembrar, como a Eça, Portugal.
O ex-Presidente da República que fazia ali o retrato do País que encontrou e que deixaria — que é fatalmente o mesmo — saiu, mas o Portugal, o político e o do resto , manteve-se de forma coerente colado à imagem de Gonçalo Mendes Ramires, nas suas venturas e desventuras. Em março, o autarca modelo Isaltino Morais foi acusado desviar quase 150 mil euros que incluíam gastos com cigarros, refeições de marisco e boas garrafas, desconhecendo-se, até ver, se eram de Pêra Manca branco, tinto, ou de outra marca qualquer. Ainda assim é admirado de forma pueril, como um inimputável castiço a quem tudo é perdoado. Uma espécie de ‘como, bebo, fumo, mas faço’.
Na mesma altura, na capital, o vereador do partido contra os tachos, Bruno Mascarenhas, indicou a namorada para vogal dos Serviços Sociais da Câmara de Lisboa. Mafalda Livermore que, por sua vez, tinha casas alugadas a vários imigrantes que viviam em espaços exíguos e sem condições. Sabemos agora que, ao contrário da relação entre Ventura e Mascarenhas, a amorosa vai de pedra e cal, pois foram vistos em clima de romance na zona quase-VIP da Câmara Municipal de Lisboa no Rock in Rio.
Também em março, o líder do PS, José Luís Carneiro, viu o seu assessor, Duarte Moral, ser detido por suspeitas de corrupção numa rede, imagine-se, alimentada com autarquias do PS. Com a coincidência poética de, ao mesmo tempo, ter estreado outdoors com a palavra “Confiança”. Houve até buscas no piso do gabinete do secretário-geral na sede do PS, no Largo do Rato. O que nem em anos em que a máquina da liderança socialista era mais opaca, como a era José Sócrates, aconteceu. Precisamente, mesmo “animal feroz” que viu o Estado português no final de junho ser forçado a pagar-lhe 15 mil euros pela violação do segredo de justiça. Ele que, ironicamente, no passado, fez parte de um Secretariado em que um líder do PS celebrizou a frase: “Tou-me cagando para o segredo de justiça”.
Junho mostrou-nos o líder do Chega, o alegado anti-cristo da esquerda, a erguer o punho em direção aos dirigentes da CGTP enquanto celebrava ter chumbado o código laboral. Isto depois de André Ventura fazer de uma bandeira sua o que está há muitos anos no programa da CDU: baixar a idade da reforma. O que ocorreu dias depois de pedir à Federação Portuguesa de Futebol que os bilhetes ofereceu ao Chega para ir aos EUA, que eram dois, fossem entregues a pais com crianças internadas no IPO.
O mesmo Ventura que queria Luís Montenegro a apagar fogos — talvez com o mesmo raminho seco com que o próprio travou uma perigosa frente ativa no verão de 2025 — em vez de ir apoiar a seleção. Isto à falta de chuva artificial, como a que criou no Tik Tok em fevereiro, e que certamente daria mais jeito para os incêndios de verão. Já o primeiro-ministro não quis saber e foi ver Ronaldo em três jogos, mas a desejar ir a seis. Mais houvesse e a mais iria. Um primeiro-ministro que sabe a importância do balneário — e que foi preencher o vazio emocional deixado por Marcelo. Seguro também lá terá ido, ao balneário, após uma lição de futebol dos cafeteros à equipa das quinas no terceiro jogo da fase de grupos, mas sem largar um formalismo de Estado perante os quase-heróis de tronco nu.
Como país de dez milhões, ficámos entretanto a saber, pelo Instituto Nacional de Estatística, que afinal somos 11,4 milhões de residentes e que 1,6 milhões desses são estrangeiros. O selecionador Jorge Jesus já se atualizou e disse ser treinador de 11 milhões, mas é preciso avisar a The Economist que o milagre económico afinal tem os seus problemas e que o país pode estar melhor, mas os rendimentos per capita dos portugueses estão pior. Números de estrangeiros que vão dando força ao Afonsinho da Reconquista para andar na sua cruzada ridícula pelo Martim Moniz a comprovar que tem mais problemas de delinquência e detenções da PSP do que qualquer imigrante que ali viva.
A virar para julho, o PSD anunciou que ia chamar todos os ministros do PS com responsabilidade por os dados não serem atualizados, mas numa semana mudou de ideias. Pelo meio, José Luís Carneiro denunciou que o Governo estava a guardar casas prontas em Grândola até a um momento eleitoral, quando afinal foi o seu correlegionário de partido que não fechou uma entidade do setor social como parceiro e que concorreu em simultâneo a dois programas.
Em cima disto, o ministro da Administração Interna, que por acaso era, até tomar posse, diretor da Polícia Judiciária, contratou um empreiteiro para uns biscates nos seus montes alentejanos sem pensar que podia ser um problema esse construtor ter tido ajustes de milhões com a Polícia Judiciária. Luís Neves diz que uma parte está paga, e outra por pagar, porque o trabalho não está feito. Que não tem as faturas com ele, mas que tem a listagem no e-fatura. Por menos, muito menos, o organismo que liderava apanhou muitos às sete da manhã ainda de pantufas. Foi, no mínimo, imprudente.
Imprudente também foi o ministro da Educação quando disse — perante o adiamento dos resultados dos exames, na sequência dos problemas do novo sistema informática de correção — que “quem é pai sabe que, nesta fase, não sabendo os resultados, marcar férias para este período é imprudente.” Corre agora atrás do prejuízo de uma nova data que estabeleceu para que os alunos conheçam as suas notas: 17 de julho. Fernando Alexandre talvez ainda vá a tempo de salvar a segunda quinzena a filhos de pais entre Monte Gordo e o Vale do Lobo.
Entretanto, em Almada, os munícipes foram privadas de um dos bens essenciais: a água. Apareceu a presidente da câmara, Inês de Medeiros, a responsabilizar toda a gente menos, claro, a si mesma. Há poucos meses colocou o vereador da CDU na presidência dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada não por ser o melhor, mas porque fechou um acordo de governação com os comunistas. Que nem com os camaradas do Seixal conseguiu negociar, já que a presidente de câmara queixou-se precisamente de a autarquia vizinha, liderada pela CDU não ter autorizado um novo furo. Nem isso ter um camarada nos SMAS ajudou.
Todos os anos, quando chega o debate do Estado da Nação, é legítima a esperança que alguém tenha a coragem de dizer o que Gerald Ford disse em janeiro de 1975 no debate do State of the Union: “O Estado da Nação, não é bom”. Nem é preciso recuar um ano. Os casos referidos são só alguns exemplos de como, nos últimos quatro meses, se sucederam episódios que, por um lado minam a confiança ou a imagem dos políticos, por outro, minam a confiança no Estado. O próprio Estado (que falha nos exames nacionais, no fornecimento de água, na resposta a comboios de tempestades) não pode estar bem. A Nação parece sempre remediada e remendada, sempre atrás do prejuízo, sempre no improviso, sempre, como escrevia Eça e repetiu Marcelo, na “esperança constante nalgum milagre, no velho milagre d’Ourique, que sanará todas as dificuldades”. No meio de tanta trapalhada, imprudência ou inocência negligente há uma coisa que nos descansa. Se não fosse assim, todos anos, talvez não fosse Portugal.