O ex-chefe do Ibope diz o que enxerga – e que as pesquisas não mostram

🗓️ 2026-10-16 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

Carlos Augusto Montenegro passou mais de quatro décadas à frente do Ibope, acompanhando eleições e ajudando a transformar as pesquisas de opinião em um dos principais termômetros da política brasileira.

Hoje, aos 72 anos e aposentado do setor, o empresário acha que esses termômetros estão com problemas – e que os institutos podem estar subestimando a vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula.

Mesmo depois de a Quaest e o Datafolha mostrarem uma disputa de 51% a 49%, Montenegro acredita que a distância real entre os candidatos pode ser maior.

“Quando vejo um resultado de 51% a 49%, prefiro interpretar como algo mais próximo de 53% a 47%,” Montenegro disse ao Brazil Journal.

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Para o ex-presidente do Ibope, a dificuldade de entrevistar eleitores de direita, a violência em determinadas regiões e o resultado do primeiro turno são indícios de que as pesquisas não estão conseguindo retratar adequadamente o eleitorado.

Mas sua convicção no favoritismo de Flávio vai além dos números. Montenegro vê uma tendência estrutural de crescimento da centro-direita no Brasil, agravada pela avaliação negativa do governo Lula e pela dificuldade da esquerda em se renovar.

Nem mesmo as manifestações de rua da esquerda, que encheram a Avenida Paulista e a Avenida Atlântica, mudam a opinião de Montenegro de que uma virada é improvável.

“Quem decide a eleição não está na rua: ele está em casa. É o eleitor silencioso que resolve,” disse. 

Abaixo, os principais trechos da conversa.

Como o senhor está vendo os resultados das pesquisas nesta eleição? Mais uma vez, vimos discrepâncias entre as pesquisas e o primeiro turno.

Está muito difícil fazer pesquisa hoje, principalmente com a metodologia que o Ibope utilizava. Tudo na rua está difícil porque temos uma rivalidade muito grande, que já vem de três eleições. As pessoas estão agressivas.

Quando um pesquisador se aproxima, muita gente se afasta, xinga e às vezes até agride. Normalmente são mais pessoas de direita. Você percebe que aquela pessoa provavelmente vai votar na direita, mas não pode computar na entrevista porque ela não fornece as informações necessárias.

As pesquisas por telefone também têm problemas. Você não consegue acessar determinadas pessoas durante o dia e os cadastros de celulares são falhos.

E no Rio de Janeiro? Por que houve a maior discrepância?

Existem áreas onde os pesquisadores simplesmente não conseguem entrar. São comunidades dominadas por milicianos e traficantes, que representam quase 20% do eleitorado do Rio.

Mas hoje você encontra essas comunidades espalhadas pelo Brasil. A violência cresceu em Fortaleza, Salvador e também é forte em São Paulo.

Foi assim na eleição do Wilson Witzel e agora nessa disputa envolvendo Eduardo Paes e Douglas Ruas. Não tem explicação você ter um candidato com oito pontos de vantagem e, no dia seguinte, acontecer o contrário.

Acho que uma parte da população simplesmente não foi entrevistada.

Diante dos últimos resultados, você acredita que Flávio Bolsonaro continua sendo o favorito, mesmo com a aproximação de Lula nas pesquisas?

Eu acho. É só analisar as eleições de 2018, 2020, 2022 e 2024 para perceber uma tendência muito grande de centro-direita no Brasil e no mundo.

Na eleição de 2022, a esquerda e o PT levaram uma surra tremenda. O único que ganhou foi o Lula, como pessoa física.

Ainda existe um clima de torcida. O eleitor de esquerda costuma ser mais barulhento: você tem jornalistas, artistas, cantores, atores se manifestando.

Veja uma manifestação na Avenida Atlântica, no Rio. Vamos supor que tenha 70 mil pessoas. Provavelmente todas já votavam no Lula.

Da mesma maneira, muita gente que vai à Avenida Paulista de camisa amarela já votou no Flávio.

Essas manifestações são importantes, mas reúnem os eleitores mais engajados, que brigam pelas suas convicções.

Quem decide a eleição não está na rua: ele está em casa. É o eleitor silencioso que resolve.

Mas as pesquisas mais recentes mostram 51% a 49%. Isso não indica que Lula tem uma chance de virar a eleição?

Eu passei a interpretar essas pesquisas de maneira diferente.

Quando vejo um resultado de 51% a 49%, não duvido que possa estar correto dentro da margem de erro. Mas, olhando para o primeiro turno, prefiro interpretar esse resultado como algo mais próximo de 53% a 47%.

Por quê? Porque todos os institutos erraram no primeiro turno. Davam o Lula na frente por um, dois ou três pontos. O Datafolha, por exemplo, chegou a mostrar 45% a 42%.

Então considero a possibilidade de a distância real ser maior. Não estou dizendo que a pesquisa necessariamente esteja errada. Mas depois do primeiro turno passei a ler esses números de outra maneira.

Mas como as pesquisas podem evoluir?

Trabalhei a vida inteira com isso, adoro pesquisa, mas o mundo mudou e precisamos encontrar novas formas de medir a opinião pública.

O Ibope começou com pesquisa de televisão numa época em que a TV era um aparelho familiar, que ficava no meio da sala. Todo mundo chegava em casa, jantava e assistia à mesma programação.

Hoje a televisão é como uma escova de dentes: cada um tem a sua. Cada pessoa faz sua programação na hora em que quer.

As pesquisas também precisam acompanhar essa evolução. Não sei qual é a solução, mas precisamos olhar para esses detalhes.

E as pesquisas estão conseguindo captar a transferência dos votos dos candidatos derrotados no primeiro turno?

Esse é outro ponto que me chama a atenção. Você teve quatro candidatos de centro-direita, além do Flávio, que somaram cerca de nove milhões de votos.

Não pode terminar o primeiro turno com esses nove milhões de votos disponíveis e começar o segundo com o Lula crescendo um ponto percentual e o Flávio crescendo um ponto também. Está esquisito.

Olha os números. Você teve o Presidente da República, com toda a máquina pública na mão, recebendo cerca de 53 milhões de votos.

Do outro lado, aproximadamente 65 milhões de pessoas não votaram nele: 56 milhões que escolheram Flávio e nove milhões que votaram nos demais candidatos.

Isso significa que os 65 milhões vão votar no Flávio? Não. Mas é um dado muito importante, que confirma os números de rejeição e de avaliação negativa do governo.

O que pesa mais: a rejeição ao Lula ou o crescimento estrutural da direita?

As duas coisas. Existe uma mudança estrutural no eleitorado, que ficou clara nas eleições de 2022, 2024 e agora em 2026. Olhe o que aconteceu com o Congresso e, principalmente, com o Senado. Foi avassalador.

Na minha opinião, o Supremo Tribunal Federal teve uma influência muito grande nesta eleição. Representou algo semelhante ao que a facada representou para Bolsonaro em 2018. Ajudou a mobilizar parte importante do eleitorado.

Existe um sentimento de punição aos partidos tradicionais e às instituições.

O PSDB praticamente acabou. O PT não acabou porque ainda tem Lula, mas, como partido, está definhando.

Durante muito tempo, a disputa brasileira foi entre PT e PSDB. Depois virou bolsonarismo contra petismo. Quando Lula sair de cena, teremos outra disputa. Também não acredito que o bolsonarismo vá durar para sempre.

Uma das críticas ao Lula é que ele estaria desconectado da realidade do eleitor. Você concorda?

Não acho que ele esteja sem lucidez, mas existe uma fadiga de material total.

O Lula é um político de outra época. Tem uma capacidade enorme de falar, de contar histórias. Mente com uma classe, como o Leonel Brizola mentia. Eu conheci esses personagens.

Na entrevista à Globo, disse que só havia descoberto há 20 dias que o Bolsa Família, o maior programa social da história dos governos dele, estava sem reajuste. Você acredita nisso? 

E o que mais abalou o governo Lula foi a carestia.

É o povão receber R$ 2 mil por mês, pegar R$ 300 para ir ao supermercado e descobrir que já não consegue comprar as mesmas coisas da semana anterior.

Aí o governo comemora que a inflação caiu, mas o sujeito continua sofrendo no bolso.

Às vezes nem é culpa do governo. Pode ser a guerra, o combustível, fatores externos. Mas tudo vai para a conta do governo.

E eleição é sempre uma questão de esperança. O eleitor quer uma mudança. Pode ser para pior? Pode. Mas ele pensa: vamos tentar, porque do jeito que está não dá.

Como imagina o cenário de 2030?

A centro-direita vai continuar forte, mas acho que o bolsonarismo, como movimento comandado pela família Bolsonaro, tende a perder espaço.

Em 2030, acho que o Tarcísio vem.

Mesmo que Flávio seja eleito presidente?

Mesmo assim. O Tarcísio não concorreu agora por três motivos: gratidão ao Jair Bolsonaro; a oportunidade de continuar governador de São Paulo; e porque ele percebeu que a família Bolsonaro preferia perder com Flávio a ganhar com ele.

Mas em 2030 será diferente. Tarcísio não poderá disputar novamente o governo paulista e não gosta de ser senador ou deputado. É um executivo.

Mesmo que Flávio ganhe e queira tentar a reeleição, acho que Tarcísio pode enfrentá-lo. Eles estarão em partidos diferentes.

Você considera que algum acontecimento pode mudar o resultado desta eleição? Um debate ruim ou um escândalo de última hora?

Acho muito difícil. Claro que eleição é eleição – e é preciso tomar cuidado com o salto alto. Mas os dois grupos são muito diferentes.

A tribo bolsonarista e a tribo petista-lulista são como água e azeite.

O eleitor do Bolsonaro pode até desistir de votar no Flávio, mas não vai votar no Lula. E o eleitor do Lula não vai votar no Bolsonaro.

As pessoas falam: e se Flávio for muito mal no debate? Vou falar algo que pode soar uma besteira enorme: não muda nada.

Até um escândalo não deve mudar nada. O eleitor pode ficar decepcionado e deixar de votar, mas dificilmente vai atravessar para o outro lado.

E a abstenção? Pode ser decisiva numa disputa apertada?

A abstenção tem outra questão importante: os cadastros eleitorais do TSE são muito desatualizados. Há pessoas que morrem e a família não comunica, outras mudam de cidade e não atualizam o título.

Isso prejudica a interpretação dos números. Mas a abstenção costuma ser muito parecida entre o primeiro e o segundo turno.

Neste ano tivemos cerca de 21% no primeiro turno. Acho que vamos ter mais ou menos isso no segundo.