O fator Garotinho: mesmo sem chances de vitória, ex-governador vira peça-chave no Rio

🗓️ 2026-10-03 📁 world-news 📝 ⏱️ 👁️ : -
BIRRA - O candidato do Republicanos: inelegível, ele prefere brigar na Justiça a deixar a disputa
BIRRA - O candidato do Republicanos: inelegível, ele prefere brigar na Justiça a deixar a disputa (Charles Sholl/Brazil Photo Press/Folhapress/.)

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Eleições, desde que disputadas com bom senso, inteligência e respeito ao eleitor, podem despertar diferentes humores: entusiasmo, apreensão, decepção e, em alguns casos, até indiferença. A marca do Rio de Janeiro é a incerteza. Desde o fim de março, quando o ex-governador Cláudio Castro (PL) deixou o cargo, o terceiro maior colégio eleitoral do país convive com um quadro permanente de instabilidade. Diante da dupla vacância da cadeira — o vice-governador, Thiago Pampolha (MDB), foi nomeado conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, e o então presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar (União Brasil), afastado pelo STF por envolvimento com o crime organizado —, restou ao presidente do Tribunal de Justiça, Ricardo Couto, sentar-se à cadeira. Lá permanece até hoje, embora não falte um cipoal de manobras jurídicas para determinar quem deveria assumir o leme do estado.

O pleito de domingo, 4, deveria finalmente pôr um ponto-final na novela da sucessão. Em vez disso, contudo, alimentou mais dúvidas: às vésperas da votação, ainda se discute como contar os votos do candidato Anthony Garotinho (Republicanos). Condenado, em 2018, em segunda instância, por improbidade administrativa, em razão de um esquema de desvio de dinheiro da Saúde para irrigar sua pré-­campanha nas eleições presidenciais, ocorridas há duas décadas, o ex-governador do Rio ficou inelegível por oito anos. Segundo suas próprias contas, a proibição foi extinta em 1º de agosto deste ano, permitindo, portanto, que ele tentasse retornar ao Palácio Guanabara. O Ministério Público Eleitoral, porém, tem outro tempo em mente: o prazo só começa a contar depois do trânsito em julgado — quando não há mais possibilidade de apresentar recursos. A suspensão, nesse caso, só terminaria em 2033. Na terça-feira 29, o Tribunal Regional Eleitoral fluminense encerrou em definitivo a discussão, acatando a tese dos procuradores por unanimidade. Há ainda novos capítulos relativos ao problema. É confusão das grandes, cujo martelo será batido, de modo definitivo, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas apenas depois de encerradas as eleições. Pela lei, enquanto houver possibilidade de recurso, o nome de Garotinho poderá aparecer nas urnas, mas seus votos serão considerados “anulados sub judice”.

NÚMEROS - Paes, do PSD: de olho nos cálculos que garantam a vitória
NÚMEROS - Paes, do PSD: de olho nos cálculos que garantam a vitória (Marcelo Pereira/Thenews2/Agência O Globo/.)

A indefinição afeta diretamente, é natural, o postulante do Republicanos, que está em terceiro lugar na corrida, segundo a mais recente pesquisa Quaest, com 9% da preferência do eleitor e poucas chances de prosseguir ao segundo turno. Mas haverá estragos para toda a corrida eleitoral. O ex-­prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), que lidera a contagem de intenções com 34%, e o deputado estadual Douglas Ruas (PL), com 25%, acompanham a confusão de perto. Explica-­se: a anulação afeta a quantidade de votos válidos e, a depender da combinação entre a interpretação dos ministros do TSE e o desempenho das urnas, a contenda poderia terminar no primeiro turno. Pelos cálculos da campanha de Paes, ele tem grandes chances de liquidar a fatura antecipadamente se os votos de Garotinho não forem contados. O TRE, contudo, se apressou para adiantar uma interpretação distinta: “Os votos sub judice são contabilizados no cálculo dos percentuais obtidos no pleito, mas sua validade fica condicionada à reversão da decisão que indeferiu o registro”, afirmou a Corte em nota.

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Na prática, a anulação não impede a convocação de um segundo turno, mesmo se a matemática eleitoral favorecer Paes. Especialistas consultados por VEJA são unânimes: haverá uma ferrenha batalha jurídica na corte superior. “O TRE do Rio é obrigado a declarar o resultado no primeiro turno com base na fotografia do dia da eleição”, diz o advogado Márcio Alvim, do PSD, pronto para ingressar com pedido de anulação dos recursos de Garotinho a depender do resultado da votação. “Não é juridicamente possível antecipar os efeitos de uma futura anulação definitiva para transformar, por simples exclusão desses votos, um cenário de segundo turno em vitória no primeiro turno”, rebate, do outro lado do ringue, o advogado do PL, Tiago Santos.

EM ALTA - Ruas, do PL: aposta em arrancada para não depender do TSE
EM ALTA - Ruas, do PL: aposta em arrancada para não depender do TSE (Onofre Veras/Thenews2/Agência O Globo/.)

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Entre juristas, a inelegibilidade de Garotinho é tida como certa. Mesmo assim, ele não dá o menor sinal de que pretende abandonar a disputa. E segue fazendo o que faz de melhor: tumultuar o ambiente. Depois de usar todos os recursos possíveis para protelar o processo no TRE, admite subir ao TSE. A insistência em concorrer tem claros motivos: ter ainda alguma relevância, subtraída pelo tempo, e o desejo mal dissimulado de posar de vítima. “Vamos para o segundo turno e ganhar esta eleição”, afirma o candidato.

A indefinição mexe com o comportamento do eleitor, especialmente daqueles que pretendem votar em Garotinho. Pela pesquisa Quaest, sem ele na cédula, Paes e Ruas ganham apenas 1 ponto cada, o resto migra para indecisos, brancos e nulos. Em trajetória ascendente — no último mês, subiu 11 pontos —, Ruas tenta garantir o segundo turno nas urnas, sem precisar depender de interpretações da Justiça. É lamentável, tudo somado, que a democracia no Rio de Janeiro seja banhada de um rio de dúvidas. O cidadão fluminense merecia mais cuidado.

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Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015

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