O futuro é uma boa obsessão
Quando chegámos ao ano 2000 eu estava a iniciar o segundo período do 10.º ano de escolaridade, tinha 14 anos e só faria os 15 em Outubro, quando o país já estava viciado no primeiro Big Brother, totalmente debruçado no pontapé de um ex-fuzileiro chamado Marco à Sónia, uma rapariga que colocou o país a discutir se «fazer sexo» era, ou não, «como comer um iogurte», e a fazer de um ajudante de trolha de Barrancos que cuidava de galinhas chamado Zé Maria a maior estrela nacional. O fenómeno da reality TV não era totalmente inédito em Portugal, mas, enfim, foi aquele o primeiro grande pontapé de saída para um movimento que não voltámos a largar: o de tornar o anónimo célebre sem causa alguma. Enfim, tudo isto merece uma reflexão mais profunda, mas não será considerado um exagero se tivermos em conta que foi ali que brotou com a força de um vulcão a sociedade entretida, emocional, escandalizada. Daí à contaminação total da política e do jornalismo foi um pulo não particularmente difícil de dar.
Certo é que no ano 2000, apesar do semi-pânico mais ou menos generalizado com o bug do milénio, ainda se vivia relativamente longe do apocalipse permanente em que caímos não muito tempo depois. Naquele ano em que eu fazia 15 anos, apesar de ter a cara cheia de borbulhas e de passar os dias a tentar não ser espancado ou assaltado, ou ambos, na escola ou na rua, ainda se acreditava que o tempo jogava a nosso favor. Não sei se esse era um sentimento generalizado ou não, mas tenho ideia de que assim era. Portugal ainda estava meio bêbedo de entusiasmo com a Expo 98, o Prémio Nobel de Saramago, a moeda única que aí vinha. Os fabulosos anos 90, com as suas dificuldades, pareciam uma época gloriosa que não tinha forma de terminar. É verdade que a internet se ligava apenas quando se desligava o telefone fixo, fazendo um ruído absurdo, no plano sensorial, e fascinante, na medida em que parecia anunciar o futuro. Era-se mais europeu no ano 2000, ou talvez assim se julgasse. Esperava-se, pelo menos, que, por fim, se generalizasse o estilo de vida que os europeus tinham.
Volvidas mais de duas décadas, e quando o mundo já nos cabe todo num telefone que, por sua vez, nos cabe na mão, parece-me boa ideia recuar ao início dos anos 2000 e tentar compreender como é que aqui chegámos. Estamos a viver mais anos, estuda-se mais, perdem-se menos crianças no primeiro ano de vida, o PIB duplicou em termos nominais, somos uma máquina exportadora de talento, produzimos os melhores jogadores de futebol do planeta. Em tese, e apenas com o lado solar exposto, talvez nenhum de nós recusasse, em 2000, o Portugal de 2025. Eu, pelo menos, não recusaria – mas, que raio, há 25 anos eu era um fedelho com pretensões filosóficas e a tentar um lugar nunca conseguido numa equipa de futebol no inter-turmas da escola secundária. Não tenho aqui de discorrer sobre o lado lunar de 2026, que é vosso conhecido e confirma que, estando o país aqui e ali melhor do que em 2000, não deixa de estar estagnado em vários aspectos.
O futuro prometido no ano 2000 não era só um país melhor nisto ou naquilo. Era um país perfeito ou próximo da perfeição, o que não deixa de ser revelador de uma sociedade que vive colectivamente sem percepção alguma do que é ou não alcançável, sobretudo quando no ano 2000 eram já visíveis todos os sinais que nos fariam rebentar financeiramente e não só, como se veio a verificar, nomeadamente por uma consistente ausência de reformismo que se compatibilizava com um país que achava que o paraíso na Terra era possível através da simples passagem do tempo. Melhorar é possível com os dias a passar, sobretudo quando os europeus pagam; construir o «melhor país do mundo», como tanto imbecil teima em chamar a isto, não é.
O que incomoda, em 2026, é ver que, tantos anos depois, parecemos estar no mesmo sítio. Já fomos inundados pela febre nostálgica da geração que, tendo vivido a infância e a adolescência nos anos 80, passou anos a tentar recuperar a dignidade social do Tuli Creme, como se o país não tivesse futuro algum, ou como se aquela geração não tivesse a responsabilidade de o construir. Ora, construir o futuro é a única coisa que se pode exigir a quem ocupa o lugar dos vivos. E é por isso que sofro um incómodo não pequeno com a crucificação de um ministro da Educação que, com erros e falhas, é dos poucos que, hoje, parecem obcecados com um futuro melhor, em vez de um presente ou de um futuro perfeitos. Se há obsessões boas, uma delas é essa. A minha é tentar compreender como é que o Zé Maria se tornou um fenómeno de carinho nacional. Cada um faz o que pode.