O herdeiro da oposição no São Paulo
O pai, seu homônimo, foi o último presidente eleito pela oposição no São Paulo Futebol Clube.
Duas décadas depois, Marcelo Portugal Gouvêa vai tentar ser o primeiro a repetir o feito, lançando-se candidato – também pela oposição – no pleito de dezembro.
Marcelo fala pausado, medindo cada frase. Diz que pretende gerir o clube do mesmo jeito: com racionalidade e estratégia.
O momento é turbulento.
Julio Casares foi afastado da presidência por impeachment em janeiro, em meio a investigações sobre desvio de recursos na venda de atletas. Em campo, o time trocou de técnico três vezes este ano e flertou com o rebaixamento.
Hoje com 44 anos, Marcelo é advogado e sócio há 15 anos do Dinamarco, Beraldo & Bedaque Advocacia.
No campo da oposição, Marcelo saiu na frente do ex-presidente da CBF Rogério Caboclo, que chegou a cogitar uma candidatura própria e recuou. (O lançamento oficial da candidatura de Marcelo deve acontecer nas próximas semanas.)

Seu discurso começa pela planilha, não pela taça. Segundo Marcelo, se o SPFC continuar da forma como vem sendo gerido, a dívida bilionária do clube dobrará durante a próxima gestão.
“Talvez seja a nossa última oportunidade de salvar o São Paulo.”
A ligação dele com o clube vem de antes da política. Na infância, nos anos 1980, acompanhava o pai como diretor de futebol.
Décadas depois, já como presidente, entre 2002 e 2006, o pai levou o São Paulo aos históricos títulos de 2005: Paulista, Libertadores, e o Mundial contra o Liverpool. É uma referência que pressiona.
Marcelo diz que não propõe vender o controle do clube a um investidor – mas não descarta, no futuro, uma SAF com 100% das ações nas mãos do próprio São Paulo, desde que aprovada pelo Conselho. Cita as reformas bem sucedidas em outros clubes como o caminho a seguir.
Mas é um caminho estreito. Até agora, só Flamengo e Palmeiras conseguiram uma reestruturação sólida, com resultados e competitividade em campo. E nenhum dos dois chegou lá sem antes passar por um período de elencos modestos – um pedágio que parece inevitável.
A lição que Marcelo tira desses casos é de governança: reforma só vira legado se estiver amarrada a regras e ao estatuto, não à vontade de quem está no poder a cada momento.
“Não tenho vaidade, não me preocupo com essa comparação de títulos. O que eu mais quero é que o São Paulo esteja reestruturado.”
O pai morreu em 2008. No mesmo ano, Marcelo foi eleito conselheiro pela primeira vez. Não saiu mais da oposição e virou conselheiro vitalício em 2014.
Integrou a comissão que apurou o caso Far East, o contrato de material esportivo que terminou na renúncia do então presidente Carlos Miguel Aidar.
Para Marcelo, o modelo de voto indireto do São Paulo, hoje restrito aos conselheiros, é antidemocrático, e defende que o voto direto do sócio seja discutido a sério. Rejeita, também, coalizões formadas “a qualquer custo”, com cargos distribuídos entre grupos políticos como moeda de troca.
No time, a receita é menos contratações e mais acerto. O soon-to-be candidato cita um levantamento interno segundo o qual só 20% dos reforços recentes chegaram a 150 jogos pelo clube, e quer devolver à base de Cotia o protagonismo na formação do elenco principal.
Já sobre a gestão, promete transparência com o clube, mesmo quando o custo for político. Diz que pretende comunicar à torcida tanto as notícias boas quanto as ruins, para que o torcedor se sinta parte do processo de reconstrução.
São promessas ousadas e desafiadoras de colocar em prática: significam expor decisões e resultados ruins a um conselho e uma torcida pouco acostumados a esse nível de exposição. Cabe aos são-paulinos avaliar.
Se ganhar a eleição, Marcelo terá que se provar. A crise que ele pretende resolver é administrativa e financeira, mas sua trajetória no clube é política. Ao longo de quase duas décadas como conselheiro, ele atuou sempre na fiscalização e na oposição, sem ter experimentado um cargo executivo.
Em janeiro, o Tricolor do Morumbi terá um novo mandatário. Para quem vencer o pleito, o caminho será longo.
Bernardo Stampa