O maior desafio da cibersegurança não é a falta de profissionais: mais do que talento, o setor exige capacidade operacional

🗓️ 2026-09-14 📁 business-finance 📝 ⏱️ 👁️ : -

Por António Correia, Sales Manager WatchGuard Portugal

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Há vários anos que a escassez de profissionais domina o debate sobre os principais desafios da cibersegurança. A conclusão parece simples: existem demasiadas ameaças e poucas pessoas disponíveis para as combater. Embora esta falta de talento seja real, insistir apenas no número de profissionais pode desviar a atenção do problema central.

O verdadeiro desafio não consiste apenas em contratar mais pessoas, mas em garantir que as organizações dispõem, no momento certo, das competências especializadas necessárias para investigar e travar ameaças cada vez mais rápidas e sofisticadas.

Não estamos apenas perante uma dificuldade de recrutamento, mas perante um fator de risco direto. Uma equipa pode ter vários profissionais e continuar sem capacidade para responder a um incidente complexo. Da mesma forma, uma empresa pode possuir numerosas ferramentas de segurança e, ainda assim, não conseguir interpretar os sinais que estas produzem ou agir com a rapidez necessária.

A questão decisiva não é quantas pessoas ou soluções uma organização tem, mas aquilo que consegue efetivamente fazer quando surge uma ameaça.

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O verdadeiro problema começa depois da deteção

Atualmente, a maioria das organizações já dispõe de ferramentas de segurança, processos internos e profissionais responsáveis pela proteção dos sistemas. Contudo, o momento da verdade chega depois de uma ameaça ser detetada.

Um incidente pode começar com um sinal aparentemente pouco relevante: um início de sessão suspeito, uma credencial comprometida ou uma atividade invulgar num serviço cloud. A partir desse instante, cada minuto conta. É necessário validar o alerta, compreender o seu contexto, determinar a dimensão do incidente, identificar os sistemas afetados e decidir quais as medidas de contenção adequadas.

Os ataques atuais raramente seguem um percurso simples. Quando uma equipa começa a investigar um alerta, o atacante pode já ter acedido a outros sistemas, aumentado os seus privilégios ou iniciado movimentos laterais na rede. Um sinal isolado num endpoint pode estar relacionado com uma identidade comprometida, uma alteração num ambiente cloud ou uma ligação suspeita.

Detetar uma atividade anómala é apenas o início. O verdadeiro valor da operação de segurança reside na capacidade de relacionar estes sinais, compreender o que está a acontecer e intervir antes de o incidente assumir maiores proporções.

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É nesta fase que as lacunas de competências se tornam mais evidentes. Não basta ter alguém disponível para receber o alerta. São necessários profissionais capazes de distinguir uma ocorrência sem consequências de um ataque em curso e com conhecimento, contexto e capacidade para agir.

Mais ferramentas não são sinónimo de mais segurança

Perante estas limitações, muitas organizações contratam mais profissionais ou acrescentam novas ferramentas à sua infraestrutura de segurança. Ambas as respostas podem ser necessárias, mas nenhuma garante, por si só, melhores resultados.

A contratação de especialistas continua a ser difícil e dispendiosa. Além disso, desenvolver e manter internamente todas as competências necessárias — da análise de malware e investigação de identidades à resposta a incidentes em ambientes cloud — está fora do alcance de muitas empresas.

A tecnologia também não resolve isoladamente o problema. Cada nova ferramenta pode gerar mais alertas, dados e tarefas de gestão. Se a equipa já estiver sobrecarregada, o aumento da visibilidade pode traduzir-se apenas em mais ruído operacional.

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Uma organização pode, assim, investir consideravelmente em segurança e continuar vulnerável, não por falta de tecnologia, mas por não conseguir transformar a informação disponível em decisões e ações concretas.

Por isso, devemos deixar de avaliar a maturidade da cibersegurança apenas pela dimensão das equipas ou pelo número de soluções implementadas. A métrica mais relevante é a capacidade de detetar, investigar e conter continuamente as ameaças.

A escassez de talento exige uma resposta diferente

É pouco provável que a falta de profissionais de cibersegurança seja resolvida num futuro próximo. As organizações terão, por isso, de abandonar a expectativa de que conseguirão contratar especialistas suficientes para cobrir internamente todas as tecnologias, ameaças e necessidades operacionais.

Isto não significa desistir de desenvolver talento interno, mas utilizar melhor as competências existentes. As equipas devem concentrar-se nas decisões, nos riscos e nas prioridades específicas do negócio, contando com apoio especializado para assegurar a vigilância contínua, analisar ameaças complexas e responder a incidentes.

À medida que os ataques se tornam mais rápidos e automatizados, as operações de segurança também precisam de ganhar velocidade e escala. Não podemos continuar a combater ameaças automatizadas com processos excessivamente manuais, equipas sobrecarregadas e alertas analisados de forma isolada.

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A discussão sobre a escassez de talento continuará a ser necessária. Mas talvez a pergunta mais útil já não seja “quantos profissionais nos faltam?”. A questão que as organizações devem colocar é outra: “temos capacidade para responder quando surgir uma ameaça?”.

É nessa resposta – e não apenas no número de pessoas ou ferramentas disponíveis – que se mede a verdadeira resiliência de uma organização.