O mundo está muito confuso - 22/08/2026 - Giovana Madalosso - Folha
Tem dias que quase desisto de entender: o mundo está muito confuso. As pessoas que mais querem ser amadas estão se relacionando com robôs incapazes de sentir amor.
De uma hora para a outra, a terra ficou plana. As vacinas, ameaçadoras. As urnas eletrônicas, ineficientes. A ciência, questionável.
Há cachorros que usam roupas e comem marmitas orgânicas. Há crianças que passam fome e não têm sapatos.
Meninas de 12 anos usam cremes para rejuvenescer a pele. As mulheres de 60 bradam que estão melhores do que nunca.
Na democracia mais rica do mundo, homens não entram de surpresa em escolas para distribuir balões ou pirulitos: entram pra distribuir balas. De fuzil. E, mesmo vendo os cadáveres, boa parte dessa sociedade segue apoiando a indústria armamentista.
O mundo está sonambulamente confuso. Precisamos nos medicar para fazer o que há de mais simples: pegar no sono.
Um dia nossas avós lutaram para poder votar e nossas mães para trabalhar fora. Agora tradwives lutam para amarrar de volta a perna ao fogão.
O que um governante sugeriu ao ver a faixa de Gaza arrasada por bombas, com pedaços de corpos por todos os lados? Vamos fazer aqui um resort!
Alguns iogues que pregam a compaixão também pregam o voto em fascistas. Pessoas brancas se dizem vítima de racismo. Monges fazem propaganda de cerveja.
O mundo está indigestamente confuso. Não comemos mais carne, nem batata. Só carbos e proteínas.
Apesar das avenidas e estradas lá fora, pagamos para andar em bicicletas que não nos levam a lugar nenhum, voltadas para paredes que não têm horizontes.
Muitos sacrificam as horas com os filhos em troca de bolsas com logomarcas, bancos de couro, últimos modelos de alguma coisa que eles já tinham.
Buscando evoluir, a ser humano vai lá e constrói uma forma de inteligência capaz de destruir a sua.
Uma família viaja à Finlândia para ver a aurora boreal. Quando o fenômeno acontece, não olham para o céu, mas para uma pequena tela, onde ajeitam os cabelos preocupados em impressionar pessoas que veem as imagens enquanto esperam por elevadores ou refogam cebolas.
O mundo está morbidamente confuso.
Desde 1988, governantes de todos os países sabem que a queima de fósseis será a responsável pela nossa ruína. O que a maioria deles fez? Queimou mais fósseis.
Empresários tidos como geniais destroem o único planeta onde há vida para tentar a sorte em outro, inóspito.
Pais e mães não deixam seus filhos irem até a esquina sozinhos mas os largam dentro de aplicativos com milhões de desconhecidos.
Graças ao acesso à pornografia, garotos de dez anos aprendem antes sobre o sexo anal do que sobre o beijo de língua.
Marcas que defendem a natureza produzem milhões de ecobags e copos que lotarão gavetas e aterros.
Na camiseta costurada por crianças bolivianas deveria estar escrito: o mundo está cruelmente confuso. Estupidamente confuso.
Antes as pessoas escondiam livros. Agora os exibem, e quase nunca os leem.
Em vez de dialogar, preferimos o monólogo dos áudios. Ouvimos nossos próprios áudios. E, quando vamos ouvir os dos outros, é em 2x.
O mundo está redondamente confuso. Ou seria plenamente confuso? E nós estamos cada vez mais solitários, flutuando como astronautas de nós mesmos em torno da luz azul.
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